Alimentação emocional associada a risco de disfunção diastólica

Heidi Splete

26 de janeiro de 2023

O ato de comer em resposta ao estresse, ou a alimentação emocional, foi significativamente associado a vários marcadores de comprometimento cardiovascular de longo prazo, de acordo com dados de um estudo de 1.109 indivíduos.

“Sabemos que a dieta uma enorme participação nas doenças cardiovasculares, mas focamos demais no que se come e não na razão para alguém comer.” O estudo em tela fez exatamente isso, segundo a Dra. Martha Gulati, médica que não participou da pesquisa, explicou em uma entrevista.

“Quem come em resposta ao estresse se alimenta para satisfazer o cérebro ─ e não o estômago”, escreveu o pesquisador do estudo Dr. Nicolas Girerd, médico no L’Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (INSERM) e cardiologista no Centre Hospitalier Régional Universitaire de Nancy na França, em um comunicado à imprensa que acompanha o estudo.

A dieta tem uma função no surgimento de doenças cardiovasculares, mas o impacto do comportamento alimentar na saúde cardiovascular em longo prazo permanece obscuro, escreveram o Dr. Nicolas e seus colaboradores. Pesquisas anteriores definiram três dimensões psicológicas comuns para o comportamento alimentar: alimentação emocional, alimentação contida e alimentação externa.

Tanto a alimentação emocional como a alimentação restrita foram associadas ao risco de doenças cardiovasculares, observaram os pesquisadores. “Considerando achados anteriores, levantamos a hipótese de que [dimensões emocionais e/ou contidas do comportamento alimentar] estão positivamente associadas a danos cardiovasculares, bem como a fatores de risco cardiovascular, como a síndrome metabólica”, escreveram eles.

Em um estudo publicado no periódico European Journal of Preventive Cardiology, os pesquisadores revisaram dados de 916 adultos e 193 adolescentes participantes do STANISLAS (Suivi Temporaire Annuel Non-Invasif de la Santé des Lorrains Assurés Sociaux), uma coorte familiar longitudinal realizada na França. Os dados cardiovasculares foram coletados em quatro consultas médicas como parte de um exame clínico completo entre 1993 e 2016, com uma consulta a cada 5-10 anos. Cerca de um terço (31,0%) dos adultos apresentavam sobrepeso, 7,9% eram obesos e 2,7% tinham subpeso. A idade mediana dos adultos na segunda visita foi de 44,7 anos; a idade mediana do grupo de adolescentes foi de 15,2 anos.

O desfecho primário de dano cardiovascular foi mensurado na quarta consulta. O comportamento alimentar foi avaliado durante a segunda consulta usando o Dutch Eating Behaviour Questionnaire (DEBQ) e os participantes foram identificados como pessoas que fazem uma alimentação emocional, contida ou externa.

Entre os adultos, a alimentação emocional foi associada a um aumento de 38% no risco de disfunção diastólica (razão de chances [RC] = 1,38; p = 0,02), com acompanhamento médio de 13 anos, e essa associação foi mediada pelo estresse em 32% dos casos. A alimentação emocional também foi positivamente associada a uma velocidade de onda de pulso carotídeo-femoral mais alta (cfPWV-β), indicativa de aumento da rigidez arterial. No entanto, nenhuma das três dimensões do comportamento alimentar foi relacionada com danos cardiovasculares entre os adolescentes. Além disso, nenhuma das dimensões do comportamento alimentar foi associada à síndrome metabólica no grupo adulto (essa relação não foi avaliada nos adolescentes).

A ingestão de calorias não teve impacto aparente em nenhuma associação entre o comportamento alimentar e as medidas de doença cardiovascular, disse o Dr. Nicolas no comunicado à imprensa. “Esperávamos que aqueles que faziam uma alimentação emocional consumissem alimentos com alto teor calórico, o que por sua vez levaria a problemas cardiovasculares, mas não foi o que observamos. Uma explicação é que avaliamos a ingestão média de calorias e quem faz uma alimentação emocional pode comer demais quando estressados e depois comer menos em outras ocasiões”, e o padrão “ioiô” de alimentação pode afetar o coração e os vasos sanguíneos mais negativamente do que a ingestão estável de alimentos, explicou.

Os achados do estudo foram limitados por vários fatores, como o desenho observacional, que impediu conclusões de causalidade, observaram os pesquisadores. Outras limitações foram o uso de uma escala não validada para medir o estresse, a falta de dados sobre atividade física e o uso de uma população majoritariamente saudável proveniente de área geográfica restrita, o que pode limitar a generalização, disseram eles.

Mais pesquisas são necessárias em outros contextos e com coortes maiores, mas os resultados foram fortalecidos pela grande população do estudo, pelos dados completos sobre comportamentos alimentares e informações detalhadas sobre saúde, escreveram eles. Os resultados corroboram estudos anteriores e sugerem que pacientes com comportamento alimentar emocional podem se beneficiar do treinamento de habilidades de regulação emocional, como terapias cognitivas, comportamentais, psicológicas e interpessoais usadas em outras áreas, e também de tratamentos farmacológicos, concluíram os pesquisadores.

O estudo em questão oferece uma perspectiva única e relevante sobre a relação entre dieta e doenças cardiovasculares, disse ao Medscape a Dra. Martha, diretora de cardiologia preventiva no Smidt Heart Institute do Cedars-Sinai Medical Center nos Estados Unidos.

“Analisar o comportamento alimentar e sua relação com os efeitos cardiovasculares em indivíduos saudáveis dessa forma prospectiva é bastante interessante”, disse ela, que não participou do estudo.

Os pesquisadores examinaram pessoas saudáveis no início do estudo, perguntaram sobre seus hábitos alimentares e descobriram que quem fazia uma alimentação emocional “apresentava evidências de alterações cardiovasculares quando comparado com outros grupos, após controlar outros fatores de risco associados a doenças cardiovasculares e acompanhá-los por 13 anos”, disse a Dra. Martha, que foi recentemente nomeada presidente de medicina cardiovascular feminina e pesquisa no Anita Dann Friedman Endowed do Cedars-Sinai. “Esse mesmo achado não foi observado em adolescentes, mas provavelmente porque eles são mais jovens e os efeitos não são observados. Isso é reconfortante, porque significa que quanto mais abordamos os comportamentos alimentares, maior a probabilidade de reduzirmos seus efeitos no coração”, ela observou.

“Este estudo é importante porque, normalmente, como cardiologistas ou como outros especialistas, julgamos a dieta pelos alimentos que as pessoas comem; geralmente não perguntamos sobre [os motivos] que as levam a comer”, disse a Dra. Martha. “Os comportamentos alimentares desencadeados por gatilhos [emocionais] afetam a escolha [dos tipos e da] quantidade de alimentos e nos ajudam a entender as mudanças de peso durante a vida”, destacou.

“Acho que não temos dados [disponíveis] para saber se um comportamento alimentar seria capaz de afetar a função cardíaca”, disse a Dra. Martha, “mas acho que todos podemos levantar a hipótese de que a alimentação emocional pode estar associada à função diastólica anormal simplesmente pela [relação com] ingestão de alimentos mais calóricos e o ganho de peso”.

O estudo em questão não mostrou uma relação entre comportamento alimentar e síndrome metabólica, ao contrário de estudos anteriores, observou a Dra. Martha. No entanto, “os autores relatam que a associação entre comportamentos alimentares e disfunção diastólica foi mediada pelo nível de estresse”, ela disse. “É importante observar que essa população europeia era saudável no início do estudo e [se manteve] relativamente saudável 13 anos depois, o que torna esses achados ainda mais profundos.”

A Dra. Gulati disse que concorda com os autores do estudo sobre a necessidade de analisar a dieta e os comportamentos alimentares ao avaliar o risco cardiovascular do paciente. “A avaliação da dieta como parte da prevenção é fundamental, mas devemos perguntar não apenas ‘o que você come’, mas também ‘o que faz você comer’”, disse ela.

Mais pesquisas são necessárias em outras populações, acrescentou a Dra. Martha. A população do estudo era saudável no início da pesquisa e durante o acompanhamento. São necessários estudos em coortes nos Estados Unidos e nos países em desenvolvimento para observar como os resultados podem diferir, bem como nas áreas rurais dos EUA ou em “desertos alimentares”, onde as escolhas alimentares são limitadas.

Outro tópico de pesquisa é a interação entre os comportamentos alimentares e os determinantes sociais da saúde, em termos de efeito sobre a função cardiovascular, disse a Dra. Martha. “E será valioso acompanhar esta coorte por mais tempo para ver como esses comportamentos alimentares e essas medidas intermediárias se traduzem em desfechos cardiovasculares.” Estudos futuros também devem examinar se as mudanças na função cardíaca são reversíveis por intervenções para modificar o comportamento alimentar, particularmente a alimentação emocional, disse ela.

Financiaram o estudo o Centre Hospitalier Régional Universitaire de Nancy, o Ministério da Saúde francês e um fundo público da Agence Nationale de la Recherche na França. Os pesquisadores informaram não ter conflitos de interesses.

A Dra. Martha Gulati, que atua no comitê de consultoria editorial de cardiologia no MDedge, informou não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado no MDedge.com ─ Medscape Professional Network.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....