Diferenças no cérebro de pacientes com síndrome de takotsubo sugerem novos alvos terapêuticos

24 de janeiro de 2023

Um novo estudo identificou diferenças no cérebro de pacientes com síndrome de takotsubo em comparação com pacientes de um grupo controle, o que pode levar a novos alvos terapêuticos.

A síndrome de takotsubo é uma cardiomiopatia composta de um quadro de insuficiência cardíaca aguda com apresentação que mimetiza um infarto agudo do miocárdio (IAM), mas não é detectada doença coronariana obstrutiva na investigação diagnóstica. A síndrome (que afeta principalmente mulheres) geralmente ocorre após estresse emocional ou físico intenso, e ficou conhecida como "síndrome do coração partido".

O mecanismo pelo qual o processamento emocional no contexto de estresse leva a lesão cardíaca significativa e disfunção ventricular esquerda aguda não é compreendido. Para esclarecer o assunto, o estudo em questão examinou os efeitos estruturais e funcionais no cérebro de pacientes com síndrome de takotsubo.

"As anomalias na região tálamo-amígdala-ínsula e nos gânglios da base respaldam a ideia de que há envolvimento de centros funcionais de nível superior na síndrome de takotsubo, e as intervenções destinadas a modulá-los podem ser benéficas", concluíram os autores.

O estudo foi publicado on-line em 11 de janeiro no periódico JACC: Heart Failure.

O primeiro autor, Dr. Hilal Khan, médico e pesquisador na University of Aberdeen no Reino Unido, explicou ao Medscape que os pacientes com síndrome de takotsubo têm uma queda substancial na função cardíaca e manifestam um balonamento apical do coração.

É uma doença com definição relativamente recente, e foi descrita pela primeira vez em 1990 no Japão, sendo assim denominada pela semelhança do coração dos pacientes com os potes utilizados por pescadores japoneses para capturar polvos (em japonês, tako significa polvo e tsubo significa pote).

Embora incomum, a síndrome não é rara. O médico estima que uma em cada 20 mulheres com suspeita de IAM tenha a síndrome de takotsubo, com aumento de casos em tempos de estresse global, como na recente pandemia.

Embora os pacientes tendam a se recuperar em algumas semanas, e a função de bombeamento do sangue geralmente volte ao normal, existem algumas complicações cardíacas de longa duração — como a redução na tensão longitudinal global —, e os pacientes apresentam desfechos em longo prazo semelhantes aos do infarto agudo do miocárdio.

"Acredita-se que essas alterações cardíacas podem ser desencadeadas por modificações cerebrais causadas por estresse emocional, então queríamos examinar isso mais a fundo", disse o Dr. Hilal.

Houve alguns estudos publicados anteriormente analisando as alterações cerebrais na síndrome de takotsubo, mas os pacientes desses estudos não apresentavam quadro agudo da doença e não foram comparados a controles, observou ele.

Para o estudo recentemente publicado, os pesquisadores analisaram ressonâncias magnéticas cerebrais de 25 pacientes com quadro agudo de síndrome de takotsubo e de 25 controles pareados por idade, sexo, comorbidades e medicamentos em uso. Todos os pacientes e controles foram examinados utilizando-se o mesmo aparelho de ressonância magnética em um mesmo hospital.

"Este é o maior estudo estrutural e funcional do cérebro de pacientes com manifestações agudas da síndrome de takotsubo em comparação com controles pareados", ressaltou ele.

Os pesquisadores analisaram muitos fatores — como o volume cerebral em diferentes regiões, a espessura cortical, presença de doença de pequenos vasos e a conectividade funcional e estrutural — para tentar obter uma visão completa do cérebro.

O principal achado foi a constatação de que os pacientes com síndrome de takotsubo tinham volumes cerebrais menores em comparação com os controles correspondentes, por conta da redução na área da superfície do cérebro. Em contraste, as regiões da ínsula e do tálamo eram maiores nos pacientes com a síndrome.

"A redução do volume cerebral pode ser causada por inflamação; observa-se isso frequentemente na depressão", comentou o Dr. Hilal.

Os pesquisadores também constataram que certas regiões do cérebro tiveram redução na conectividade funcional, principalmente o tálamo — área central autônoma do cérebro que regula o sistema nervoso autônomo — e a região da ínsula, envolvida na regulação autonômica do coração.

Eles sugeriram que pode haver perda da inibição parassimpática na síndrome de takotsubo, o que se encaixa na hipótese de que a doença causaria uma onda de catecolaminas, que poderiam causar lesões no coração.

A conectividade funcional reduzida também foi observada em partes dos gânglios da base (anormalidades que foram associadas ao risco elevado de bradiarritmias e de fibrilação atrial) e na amígdala, de maneira semelhante à que ocorre em pacientes com tendência a superestimar as consequências negativas de eventos.

A outra observação foi um aparente aumento na conectividade estrutural em certas regiões do cérebro.

“As vias estruturais parecem ter se expandido, mas a conectividade funcional foi reduzida; então, embora as vias físicas tenham sido aprimoradas, elas parecem não estar fazendo nada”, disse o Dr. Hilal. “Não sabemos por que isso ocorre, ou se isso aconteceu ao longo do tempo e tornou cérebro e coração mais vulneráveis ​​de alguma forma.”

Uma possível explicação é que, sob estresse emocional significativo, o cérebro pode desviar a função de algumas regiões para outras para conseguir lidar com isso, o que resulta em função reduzida nas regiões responsáveis ​​pela regulação do coração, sugeriu o pesquisador.

"Acreditamos que este estudo confirme que o cérebro está envolvido na síndrome de takotsubo, e identificamos marcadores cerebrais que podem contribuir para a doença", disse ele.

Os pesquisadores planejam estudar melhor esses marcadores e verificar se é possível modular essas mudanças com várias intervenções, como atividade física ou prática de atenção plena.

"Acreditamos que exista alguma interface entre as alterações cerebrais e o impacto no coração. Não achamos que seja apenas a liberação de catecolaminas que causa lesões cardíacas. Achamos que há algo a mais acontecendo", comentou o médico.

Também é possível que os corações dos pacientes com síndrome de takotsubo apresentem alguma predisposição e sejam mais vulneráveis ​​à ocorrência da doença.

“É importante compreender melhor os gatilhos e identificar pessoas que podem ser vulneráveis”, observou o Dr. Hilal. "Cerca de 10% dos indivíduos com síndrome de takotsubo apresentarão recidiva, então precisamos tentar desenvolver estratégias preventivas para reduzir esse número."

Ele sugeriu que possíveis abordagens preventivas ou terapêuticas poderiam envolver intervenções como exercícios ou prática de atenção plena.

Este trabalho foi subsidiado pelo National Health Service Grampian Endowment. Os autores informaram não ter conflitos de interesses.

JACC: Heart Failure. Publicado on-line em 11 de janeiro de 2023. Texto completo

Este conteúdo foi originalmente publicado no Medscape .

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....