COMENTÁRIO

O impacto da covid-19 e do distanciamento social sobre o AVC

Dr. Renan Domingues

Notificação

24 de janeiro de 2023

Colaboração Editorial

Medscape &

A pandemia de covid-19 causou uma crise sanitária mundial de proporções inéditas na era da medicina moderna. Com mais de seis milhões de mortes no mundo até o momento, além de um sem-número de internações hospitalares de pacientes com sintomas respiratórios graves, a covid-19 resultou em uma grande sobrecarga dos sistemas de saúde. Uma das estratégias sanitárias centrais para minimizar a taxa de transmissão do vírus foi o distanciamento social, adotado em maior ou menor grau em diferentes localidades. Nessa condição de sobrecarga do sistema de saúde e de distanciamento social, como se comportaram a incidência de acidente vascular cerebral (AVC) e a mortalidade pela doença, considerando que ela é extremamente prevalente e que seu tratamento depende do rápido acesso ao hospital.

Em um estudo envolvendo 19 hospitais localizados em São Paulo, com mais de 13 mil pacientes internados por AVC ou covid-19 no período de 2019 a 2021, os pesquisadores avaliaram qual foi a relação entre as "ondas" de hospitalização por covid-19, a intensidade do distanciamento social e as taxas de internação e mortalidade hospitalar por AVC. Durante o longo período de acompanhamento, houve dois períodos marcadamente distintos da pandemia. No primeiro período, ocorrido no primeiro semestre de 2020, o aumento dos casos de covid-19 foi acompanhado por uma adoção intensa e rápida de medidas de distanciamento social, que somente se normalizou gradualmente ao longo da fase de queda nas internações por covid-19. No segundo período, que abarcou o final de 2020 e o início de 2021, a onda de casos de covid-19 foi mais intensa, porém desta vez sem um aumento significativo das medidas de distanciamento social.

Como se comportaram as internações e a mortalidade hospitalar por AVC nesses dois períodos? Os pesquisadores observaram que, no primeiro período, a taxa de internação por AVC reduziu nos momentos de piora da pandemia, além de manter uma relação inversa com o grau de intensidade do distanciamento social. No segundo período, por sua vez, a taxa de internação por AVC seguiu estreitamente relacionada à taxa de internação por covid-19, sofrendo quedas importantes em momentos de piora da pandemia, mesmo na ausência de aumento das medidas de distanciamento social. Na análise multivariada, a relação entre o aumento de casos de covid-19 e a redução de internações por AVC se manteve de forma independente da intensidade do distanciamento social. Além disso, períodos de piora da pandemia foram acompanhados de aumento na mortalidade hospitalar por AVC.

Os dados revelam, em primeiro lugar, que de forma geral a pandemia impactou gravemente na assistência ao AVC, com menor acesso hospitalar e aumento na mortalidade dos pacientes internados. Além disso, a correlação entre as internações por covid-19 e por AVC, de forma independente do grau de distanciamento social, indica que a sobrecarga do sistema de saúde e o baixo acesso dos pacientes ao cuidado hospitalar ocorreram mesmo em condições de relaxamento do distanciamento social. Dito em outras palavras, em uma situação de agravamento da pandemia, um relaxamento do distanciamento social não resultou em maior acesso da população ao atendimento por casos de AVC. O estudo sugere que as medidas de preparo dos sistemas de saúde para condições de crise sanitária devam contemplar o acesso para quadros de emergência como o AVC, especialmente em situações em que o distanciamento social seja necessário.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

processing....