Mães com deficiência têm menos chances de iniciar a amamentação

Louise Gagnon

23 de janeiro de 2023

Mães com deficiência intelectual ou de desenvolvimento têm menos chances de iniciar a amamentação e de receber apoio à prática durante pós-parto hospitalar, em comparação com mães sem deficiência, segundo novos dados.

Em um estudo de coorte populacional com mais de 600.000 mães, as pacientes com deficiência intelectual ou de desenvolvimento tiveram cerca de 18% menos chances de iniciar a amamentação durante a internação.

"Em geral, observamos taxas mais baixas de práticas de amamentação e de apoio à amamentação em pacientes com deficiências intelectuais ou de desenvolvimento e com deficiências múltiplas, em comparação com mulheres sem deficiências", disse ao Medscape a autora do estudo, Dra. Hilary K. Brown, Ph.D., professora assistente de saúde e sociedade na University of Toronto Scarborough, no Canadá.

Dra. Hilary K. Brown

O estudo foi publicado recentemente no periódico Lancet Public Health.

Disparidades na amamentação 

“Não existem muitas pesquisas sobre os desfechos da amamentação em pessoas com deficiência”, disse a Dra. Hilary, observando que os desfechos do estudo foram baseados nas diretrizes da Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), criada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Existe uma série de estudos qualitativos sugerindo que essas mulheres encontram limitações no acesso aos cuidados relacionados à amamentação e [enfrentam] diferentes desafios ligados à prática. No entanto, no que diz respeito aos desfechos quantitativos, existem poucos estudos.”

Para analisar esses desfechos, os pesquisadores usaram dados administrativos de saúde da província de Ontário, no Canadá. Eles incluíram na análise todas as parturientes com idade entre 15 e 49 anos que tiveram um único nascido vivo entre 1º de abril de 2012 e 31 de março de 2018. As pacientes com deficiência física, sensorial, intelectual, de desenvolvimento ou deficiências múltiplas foram identificadas por algoritmos diagnósticos e comparadas com pacientes sem deficiência com relação às oportunidades de iniciar a amamentação, de amamentar durante a internação, de estar em amamentação exclusiva no momento da alta hospitalar, de ter contato físico e de receber assistência à amamentação.

Os pesquisadores consideraram deficiências físicas alterações tais como anomalias congênitas, distúrbios musculoesqueléticos, distúrbios neurológicos ou lesões permanentes. Eles definiram deficiência sensorial como perda de audição ou de visão. A deficiência intelectual ou de desenvolvimento foi definida como acometimento por transtorno do espectro autista, anomalia cromossômica, transtornos do espectro alcoólico fetal, entre outros. As pacientes com deficiências múltiplas tinham duas ou mais das deficiências citadas.

A população do estudo foi composta de 634.111 parturientes, das quais 54.476 (8,6%) tinham deficiência física, 19.227 (3,0%) tinham deficiência sensorial, 1.048 (0,2%) tinham deficiência intelectual ou de desenvolvimento, 4.050 (0,6%) tinham deficiências múltiplas e 555.310 (87,6%) não tinham deficiência.

Os pesquisadores descobriram que as pacientes com deficiência intelectual ou de desenvolvimento tinham menos chances de ter uma oportunidade de iniciar a amamentação (risco relativo ajustado [RRa] de 0,82), de amamentar durante a internação (RRa de 0,85), de estar em amamentação exclusiva no momento da alta hospitalar (RRa de 0,73), de ter contato físico (RRa de 0,90) e de receber assistência à amamentação (RRa, 0,85), em comparação com pacientes sem deficiência.

Eles também descobriram que as pacientes com deficiências múltiplas tinham menos chances de ter uma oportunidade de iniciar a amamentação (RRa de 0,93), amamentar durante a internação (RRa de 0,93), de estar em amamentação exclusiva no momento da alta hospitalar (RRa de 0,90), de ter contato físico (RRa de 0,93) e de receber assistência à amamentação (RRa, 0,95), em comparação com pacientes sem deficiência.

Uma população pouco estudada 

Comentando sobre o estudo para o Medscape, a pediatra Dra. Lori Feldman-Winter, mestre em Saúde Pública e professora de pediatria na Cooper Medical School da Rowan University nos EUA, disse que um dos pontos fortes do estudo é a inclusão de pacientes que talvez sejam excluídas de estudos sobre práticas de amamentação. A descoberta de que há poucas diferenças nas práticas de amamentação e de apoio à amamentação para mães com deficiências físicas e sensoriais, em comparação com as pacientes sem deficiência, foi positiva, acrescentou ela.

Dra. Lori Feldman-Winter

“Essa é uma população pouco estudada, e é importante alertar que podem haver práticas relacionadas à assistência à amamentação que são prejudicadas pelo preconceito implícito em relação às pessoas com deficiência intelectual e [deficiências] múltiplas”, disse a Dra. Lori. "A boa notícia é que as [pacientes com] outras deficiências não apresentaram as mesmas disparidades. Este estudo também mostra como é importante mensurar as possíveis lacunas no atendimento relacionadas a diversas variáveis, sociodemográficas e de outros tipos, como as deficiências, para garantir um atendimento equitativo e inclusivo."

Os profissionais de saúde precisam estar cientes das disparidades na assistência à amamentação, ela acrescentou. Eles precisam estar abertos a explorar possíveis preconceitos quando se trata de fornecer uma assistência equitativa.

O Dr. R. Douglas Wilson, presidente da Society of Obstetricians and Gynaecologists of Canada (SOGC) e professor emérito de obstetrícia e ginecologia na University of Calgary no Canadá, observou que o tamanho da coorte é um ponto forte do estudo e que os achados sugerem a possível necessidade de acompanhamento mais próximo de mães novatas que estão amamentando e têm deficiência intelectual ou deficiências múltiplas.

Dr. R. Douglas Wilson

"É possível manter a paciente no hospital por mais um dia e, em seguida, a enfermeira [da equipe] de atendimento domiciliar pode ver como ela está com maior frequência do que se fosse uma paciente que não precisa dessa supervisão extra", disse o Dr. R. Douglas. Quando as pacientes estão grávidas, os obstetras e ginecologistas podem descobrir se essas pacientes pretendem amamentar e podem colocá-las em contato com enfermeiras ou consultores de lactação para auxiliá-las, ele acrescentou.

O estudo foi financiado pelos National Institutes of Health e pelo Canada Research Chairs Program. A Dra. Hilary K. Brown, a Dra. Lori Feldman-Winter e o Dr. R. Douglas Wilson informaram não ter conflitos de interesses relevantes. 

Lancet Public Health. 2023;8:e47-e56. Texto completo

Este conteúdo foi originalmente publicado no Medscape .

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