COMENTÁRIO

Por que perder peso é mais difícil para os médicos?

Sarah Yahr Tucker

5 de dezembro de 2022

A Dra. Katrina Ubell, médica, encarava com cada vez mais ceticismo a elaboração de um plano de perda ponderal pela sua nutricionista. "Você vai ter de tomar um lanche à tarde", instruiu a nutricionista. A Dra. Katrina se conteve para não se irritar, pois passava a tarde no ambulatório. “Eu nunca vou conseguir fazer isso", tentou explicar. "Eu não consigo."

Dra. Katrina Ubell

"Claro que você consegue", insistiu a nutricionista. "Você não pode pensar assim. Você precisa se decidir."

"Ela não estava errada", admitiu a Dra. Katrina anos depois. Mas a nutricionista bem-intencionada não era capaz de compreender a realidade de um médico. Como pediatra, Dra. Katrina podia imaginar como seriam suas tardes: "Você já está 40 minutos atrasada. Esta mãe precisa ir para casa para buscar seu filho no ônibus. Esta mãe está com um bebê pequeno, e ele está nervoso porque precisa dormir. Você não vai dizer 'desculpe, eu preciso comer algumas cenouras com homus.'"

A maior parte das recomendações nutricionais para a perda ponderal, descobriu Dr. Katrina, parece ser adequada só para pessoas que trabalham em horário comercial, mas essa não era a sua realidade. Ela também não estava procurando por uma das muitas dietas baseadas em abnegação e força de vontade. Já tendo perdido e ganhado novamente 18 kg várias vezes, sabia que esses métodos não são eficazes por muito tempo.

“O que outros médicos com excesso de peso estão fazendo?”, ela se perguntou. Alguém deveria ser capaz de ajudar os médicos a perder peso, mas suas buscas no Google não chegaram a lugar nenhum. Não existiam bons planos de exercícios ou dietas voltados especificamente para os médicos.

A busca da Dr. Katrina por respostas a levou ao mundo do coaching para a vida, e ela acabou se tornando mestre em coaching para a vida e a perda ponderal, e trabalha exclusivamente com médicas que se identificam como mulheres.

É uma área restrita. São poucos os programas de perda ponderal exclusivos para médicos, cujos níveis de estresse, horários imprevisíveis e exigências de alto desempenho trazem desafios peculiares. Dentre os modismos alimentares em constante transformação, provavelmente poucos funcionariam para um cirurgião que fica confinado à sala de operação por nove horas ou para um anestesista que mal consegue beber água durante o trabalho.

A Dr. Katrina se dedicou à criação de um programa de perda ponderal baseado nas demandas físicas e mentais dos médicos. Durante o processo, perdeu 20 kg.

1ª etapa: Reconhecer que os médicos são seres humanos

A estratégia alimentar da Dra. Katrina combina conceitos da terapia cognitivo-comportamental com dietas personalizadas, coaching e apoio de uma equipe médica.

Tudo isto deriva da sua própria experiência com a alimentação emocional, a que, segundo ela, muitos médicos recorrem para processar o estresse e a exaustão. A médica acredita que esta seja uma resposta à necessidade de reprimir emoções ao cuidar dos pacientes e à falta de orientação para lidar com esses sentimentos fora do trabalho.

"Esse tipo de comportamento, que é o que chamamos de ‘profissional’, mas que na verdade reprime as emoções, é recompensado e valorizado na medicina", disse a Dra. Katrina. "Eu não estou dizendo que devemos demonstrar sentimentos o tempo todo, mas não nos é dada nenhuma ferramenta para lidar com as emoções depois do trabalho. No meu caso, eu comia. Outras pessoas bebem mais do que gostariam, gastam dinheiro, jogam, basicamente têm comportamentos de entorpecimento."

Dra. Katrina diz que somente 20% de seu trabalho com pacientes gira em torno da alimentação. Os outros 80% tratam do cuidado com os pensamentos, as crenças e as emoções que afetam suas vidas de maneira negativa, ensinando-lhes a lidar com eles "sem usar a comida como muleta". Uma vez resolvidos os problemas alimentares, os pacientes conseguem começar a olhar para todos os incômodos que estavam escondendo atrás da alimentação.

"Muitos dos meus clientes realmente têm de trabalhar a autoestima, aprender a se aceitar, ter autocompaixão," disse a Dra. Katrina. "Eles têm desempenhos tão altos, e muitas vezes eles pensam que alcançaram tanto por serem duros consigo mesmos e exigirem-se demais. Eles pensam que é uma consequência, mas não é. Eles precisam aprender a se realizar ao mesmo tempo que são gentis consigo mesmos.”

2ª etapa: Reavaliar sua atitude

A Dra. Ali Novitsky, médica especialista em obesidade e agora coach em tempo integral, chama essa atitude de "falácia da recompensa celestial". Um psiquiatra renomado, o Dr. Aaron Beck, comenta que essa distorção cognitiva envolve imaginar que o trabalho árduo, a luta e o autossacrifício serão recompensados, como se o sofrimento nos desse direito a uma compensação no futuro. Para os médicos, que estão imersos em uma cultura de abnegação e dedicação à saúde alheia, isto muitas vezes significa a perda da própria saúde e de seu bem-estar.

Dra. Ali Novitsky

Muitos deles também se envergonham dos problemas de saúde e da forma física. Por serem médicos, são especialistas no corpo humano, então eles devem saber como perder peso, certo? Por isso, não saber ou não conseguir ter força de vontade para seguir uma dieta quando se está no plantão noturno ou quando se trabalha em plantões de 12 horas, isso também é sentido como uma falha profissional e pessoal.

"Como médicos, temos muito medo de falhar", explicou a Dra. Ali. "É mais confortável simplesmente não saber que falhamos. Talvez tenhamos falhado antes, ou talvez não tenhamos alcançado o resultado que queríamos, por isso, agora não podemos deixar isso acontecer novamente. É doloroso demais".

Dra. Ali se concentra nas questões de perda ponderal específicas à vida das médicas.

A Dra. Ali ― que perdeu 22 kg e não os recuperou em 20 anos ― trabalha a perda ponderal, o comer intuitivo e programas de exercícios para médicas. Sua abordagem baseada em evidências visa a otimizar a composição corporal em vez de apenas atingir um número na balança. Consciente do estilo de vida dos médicos, ela promove reuniões noturnas e nos fins de semana, realiza sessões que podem ser reproduzidas e até mesmo apresenta uma série de exercícios sob demanda projetada para ser feita no plantão.

A Dra. Ali nota que muitos de seus clientes estão presos a uma atitude "tudo ou nada". Se não puderem fazer algo com perfeição e compromisso total, preferem simplesmente não fazer. Com tantas demandas de tempo e energia, é preciso deixar algo de lado, e colocar sua saúde em primeiro lugar começa a parecer egoísta ou impossível. "Posso dizer isso", admite a Dra. Ali, "porque eu fiz isso comigo mesma".

Como a Dra. Katrina, a Dra. Ali diz que "a maior parte do trabalho no coaching não tem relação com a alimentação. Tem mais a ver com como se sentem desvalorizados no trabalho, como seus relacionamentos estão sofrendo, como se sentem superculpados como pais. Eles acham que estão bem, mas esta não é a vida que desejaram".

3ª etapa: Mudança de vida = mudança física

A Dra. Siobhan Key, médica especialista em medicina da família e da obesidade, vê sua própria luta pela perda ponderal como sintoma de um estilo de vida que, francamente, "era péssimo".

A agenda exaustiva e falta de cuidados consigo mesma a fizeram sentir que estava presa à repetição do trabalho e das responsabilidades familiares. Não havia espaço para si. Ela precisava da descarga de dopamina dos alimentos ultraprocessados e se sentia incapaz de parar de se recompensar com batatas-fritas. Foi preciso perceber que estava em vias de ter diabetes do tipo 2 para se motivar a mudar.

O lugar onde ela morava também afetou a sua luta. Vivendo numa pequena comunidade no Canadá, encontrar programas de perda ponderal foi difícil para a Dra. Siobhan. Era provável que ela encontrasse alguns de seus pacientes nesses lugares, e não seria um ambiente confortável para revelar suas dificuldades pessoais. Procurar um especialista que pudesse explicar como se alimentar de forma saudável durante o plantão ou depois de trabalhar o dia todo também não foi a solução.

Diferentemente da Dra. Katrina e da Dra. Ali, a Dra. Siobhan ainda exerce a medicina, mas também é coach de perda ponderal. Ela adota uma abordagem pouco convencional, não propõe qualquer regra alimentar ou cardápio. “Ditar quais alimentos você pode ou não pode comer é como tentar encaixar um pino quadrado em um buraco redondo”, disse a Dra. Siobhan. “Nunca irá funcionar em longo prazo.” Em vez disso, ela quer ajudar seus pacientes usando seu conhecimento médico e sua experiência de vida para ajustar a alimentação saudável às suas vidas.

"Precisamos parar de fazer coisas que pioram nossas vidas apenas para perder peso, porque isso nunca será sustentável", disse a Dra. Siobhan. "Pelo contrário, vamos escolher caminhos de perda ponderal e de controle da nossa alimentação que realmente tornem as nossas vidas melhores. E esses caminhos existem. Eles não são apenas os caminhos da dieta tradicional que aprendemos antes."

O programa da Dra. Siobhan também engloba orientações de outros médicos que fazem coaching sobre as dificuldades da profissão. “Preencher os prontuários, por exemplo, é um grande problema”, disse Dra. Siobhan. “A pressão de preencher o prontuário, muitas vezes fora do horário de trabalho, é uma importante fonte de estresse, o que faz os médicos comerem mais.”

A perda ponderal não acontece no vácuo, indicou a Dra. Siobhan. Não é a equação simples "coma menos, se exercite mais" que os médicos aprenderam na faculdade. "A verdade é que a perda ponderal e a alimentação acontecem em conjunto com o resto da sua vida", disse a especialista.

“Encontre maneiras de tornar sua vida mais fácil e os benefícios virão”, afirmou. "À medida que a sua vida melhora, você se sente mais capaz. Você se sente menos estressado. Suas escolhas alimentares começam a ser mais simples, e os impulsos por comida começam a diminuir. Você não pode ter um sem o outro".

O peso é apenas o sintoma de um problema maior

As Dras. Katrina, Ali e Siobhan dizem que viram transformações drásticas nos seus pacientes, e não se referem apenas às mudanças físicas. A Dra. Katrina se lembra de um médico emergencista que se sentia tão triste no trabalho que considerou parar de pagar suas dívidas de crédito universitário. A Dra. Ali se recorda de um anestesista tão inseguro que quase perdeu uma bolsa de estudos para um programa de condicionamento físico. A Dra. Siobhan já viu pacientes tão obcecados com o que podiam ou não comer que a comida dominava seus pensamentos em cada minuto livre do dia.

Todos esses médicos, dizem as coaches, recuperaram um sentimento de controle sobre suas vidas, podendo repensar a forma como agem no trabalho e em casa, e até redescobrindo o prazer com a profissão.

Essas mudanças estão menos ligadas ao índice de massa corporal e mais conectadas com a melhora da confiança e da autoestima. Para que a perda do peso se mantenha, segundo as Dras. Katrina, Ali e Siobhan, devem acontecer mudanças mentais permanentes que redefinam o relacionamento da pessoa com os alimentos.

"Não há meta quando estamos falando de manutenção de peso em longo prazo", diz a Dra. Siobhan para os médicos. "Você precisa conseguir fazer isso pelo resto da vida."

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