Lipedema: uma doença comum, mas ainda pouco conhecida

Andrea Jiménez

Notificação

2 de dezembro de 2022

As pesquisas médicas mais recentes indicam que aproximadamente 10% da população feminina mundial apresenta lipedema, doença caracterizada pelo acúmulo anormal de tecido adiposo subcutâneo. Esta patologia, no entanto, continua sendo pouco conhecida.

“É verdade que, pouco a pouco, as pessoas estão se tornando mais conscientes desse distúrbio, mas muitos ainda não sabem que ele existe ou não estão familiarizados com ele”, observou Alba López, nutricionista no Centro Júlia Farré Dietistas, na Espanha.

A causa do lipedema ainda é desconhecida. O que se sabe é que a doença afeta principalmente pessoas do sexo feminino, iniciando-se geralmente na puberdade. Alterações hormonais durante a gestação ou na menopausa podem exacerbar o quadro. Alba explicou que o lipedema se apresenta como “um acúmulo de gordura acima do esperado ou um aumento de massa em certas áreas do corpo, características que às vezes o levam a ser confundido com a obesidade. Mas há diferenças. Uma que se destaca é que, no lipedema, há um acúmulo desproporcional de gordura nas extremidades, geralmente nos membros inferiores, mas também nos membros superiores”.

Geralmente, os sintomas aparecem primeiro na parte inferior do tronco. A doença evolui com um aumento de massa bilateralmente simétrico em relação ao restante do corpo. Outra característica clínica comum, destacou Alba, é “o sinal do manguito ou coxim de gordura do lipedema observado no tornozelo”. No ano passado, ela e seus colaboradores trataram cerca de 30 pacientes do sexo feminino com essa doença. Apesar da alta incidência do distúrbio entre a população feminina, “as pacientes que mais atendemos em nossos consultórios não são as que têm lipedema. Isso porque muitas pessoas não sabem que essa doença existe. Mas ela está se tornando cada vez mais comum, ou está sendo mais facilmente diagnosticada”, ela explicou.

Além de uma sensação de peso, “o lipedema é acompanhado pelo aumento da sensibilidade ao toque ou dor à pressão digital. Em muitos casos”, Alba enfatizou, “também há equimoses espontâneas devido ao aumento da fragilidade capilar”.

De acordo com vários estudos, o aumento da massa de tecido adiposo — que causa dor quando a pessoa é tocada ou quando caminha ou se exercita — piora progressivamente ao longo do tempo, levando a danos permanentes e incapacitantes no sistema linfático e no sistema circulatório. Isso pode resultar em outras doenças ainda mais complexas.

Diagnóstico e tratamento

O lipedema está incluído na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS). Os principais problemas relacionados à doença são três: ela é altamente subdiagnosticada; é pouco conhecida por muitos profissionais de saúde; e seus sintomas frequentemente levam a um diagnóstico equivocado de obesidade.

Embora não se saiba muito sobre as causas dessa patologia, um estudo realizado por pesquisadores no Azienda Ospedale da Università Padova, na Itália, e do Centre Hospitalier Universitaire Vaudois (CHUV), na Suíça, sugere que a suscetibilidade poligênica combinada com distúrbios hormonais, microvasculares e linfáticos pode ser parcialmente responsável pelo surgimento do problema.

“Embora não se conheçam os verdadeiros desencadeadores dessa alteração, o estilo de vida tem um papel muito significativo no controle dos sintomas. Por isso, é muito importante seguir uma dieta anti-inflamatória. Ainda que não sejam a causa da doença, manter um estilo de vida sedentário ou não ter uma alimentação balanceada podem ser fatores de piora do problema”, acrescentou Alba.

O tratamento usual para esta doença crônica se concentra principalmente em retardar sua rápida progressão. Existem duas abordagens para o tratamento. “Por um lado, há a cirurgia, que pode eliminar os depósitos localizados de tecido adiposo do lipedema. Por outro, há o tratamento conservador, que inclui um conjunto de estratégias cujo objetivo principal é melhorar a qualidade de vida do paciente, aliviando seu desconforto e reduzindo da dor — tudo o que pode ajudar a obter resultados melhores após a cirurgia subsequente”, explicou Alba. Ela acrescentou: “O tratamento conservador inclui compressão, técnicas de drenagem linfática, terapia de pressão, lipoaspiração com técnica Vaser, atividade física e uma dieta adequada”.

Os autores do estudo mencionaram que é fundamental que o paciente tenha um estilo de vida ativo e mantenha uma alimentação saudável. No entanto, a adoção desses hábitos não impede o aumento do tecido adiposo, embora essas medidas possam reduzir a inflamação e melhorar a qualidade de vida. Como a insulina promove a lipogênese, uma dieta que evite os picos glicêmicos e de insulina é aconselhável.

Por outro lado, a resistência à insulina agrava a formação de edemas. Assim, seguir uma dieta como a mediterrânea pode ser benéfico: deve-se limitar a ingestão de carboidratos de absorção rápida (açúcar de adição, grãos refinados, alimentos ultraprocessados, por exemplo) e promover a ingestão de carboidratos complexos, como grãos integrais e leguminosas.

Os autores do estudo indicaram que atividades físicas aquáticas parecem ser particularmente benéficas para pacientes com lipedema, porque a pressão da água promove a drenagem linfática e a flutuabilidade reduz a carga nas articulações dos membros inferiores. O uso de roupas de compressão pode reduzir a dor e o desconforto nos membros afetados. A terapia linfática descongestiva complexa também pode ser útil. Este tratamento consiste na drenagem linfática manual associada à bandagem compressiva multicamadas e multicomponentes e exercício físico.

Alba acrescentou que o número de mulheres que procuram tratamento para o lipedema está aumentando, e é preciso continuar realizando pesquisas para entender os mecanismos que causam a patologia. Além disso, são necessárias estratégias terapêuticas multidisciplinares para um tratamento eficaz e seguro. Algumas organizações, como a Asociación de Afectadas de Lipedema de España (Adalipe), alertam para a urgência de oferecer formação sobre a doença aos médicos dos sistemas públicos de saúde. Ser capaz de diagnosticar o lipedema precocemente permitirá que os pacientes iniciem o tratamento o mais rápido possível. Além disso, há um esforço para que os pacientes tenham acesso ao tratamento conservador em unidades públicas.

Este artigo foi originalmente publicado em Univadis Espanha .

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