COMENTÁRIO

Acidente de avião interrompe as férias de um médico

Dr. Todd Dorfman, em depoimento a Sarah Yahr Tucker

Notificação

1 de dezembro de 2022

Quando o avião caiu, eu estava dormindo. Eu tinha chegado na noite anterior com minha mulher e meus três filhos em uma casa em Kezar Lake, na fronteira entre o Maine e New Hampshire. Estávamos indo passar uma semana com os quatro irmãos da minha mulher e suas famílias. Fui acordado por pessoas gritando meu nome. Eu pulei da cama e corri para o andar de baixo. Meus filhos estavam vendo um avião flutuando em círculos e deslizando no lago. Tinha caído na água e virado de cabeça para baixo. Meu cunhado mais velho pulou em sua lancha e nós fomos para o local.

Nós só víamos os flutuadores do avião. O resto estava debaixo d’água. Uma mulher já tinha aparecido na superfície, gritando. Eu mergulhei.

Encontro o marido dela e seu filho de três anos lutando para sair do avião através do para-brisa quebrado. Eles conseguem chegar à superfície. O piloto está morto, com o peito atravessado pelo suporte da asa esquerda.

Dr. Todd Dorfman

O grande problema: uma garotinha — que mais tarde eu descobriria que se chama Lauren —, estava presa. A água era turva, mas eu conseguia vê-la, uma menina de cinco ou seis anos de idade com cabelos longos, presa de cabeça para baixo e inconsciente.

A mãe e eu mergulhamos várias vezes, puxamos e quebramos a porta. Não conseguíamos abri-la. Finalmente, consegui abrir o suficiente para alcançar, mas não conseguia soltar o cinto de segurança. Na minha cabeça, fiquei em dúvida, devo tentar passar pelo para-brisa dianteiro? Estou ficando muito cansado, percebi que tem combustível na água, e eu não quero me afogar no avião. Então eu voltei para a superfície e gritei: "Alguém tem uma faca?"

Meu cunhado voltou para a margem de lancha, gritando: "Peguem uma faca!" Então, minha sobrinha subiu na lancha com uma faca. Eu estava em pé no flutuador, e minha sobrinha me chamava da proa do barco: "Tio Todd! Tio Todd!", e jogou a faca. Ela voou por cima da minha cabeça, tão alto que eu nem consegui pular para tentar pegar.

Eu tinha de pegar a faca. Então, eu mergulhei na água para tentar encontrá-la. De alguma forma, a faca preta havia caído em cima da asa branca, pouco mais de um metro para baixo d’água. Pura sorte. Poderia ter afundado 30 metros no lago. Agarrei a faca e a entreguei para a mãe, Beth. Ela conseguiu cortar o cinto de segurança, e nós dois puxamos Lauren para a superfície.

Eu a deitei no flutuador. Ela não tinha pulso e suas pupilas estavam fixas e dilatadas. A mãe gritava: "Ela está morta, não é?" Eu comecei a reanimação cardiopulmonar. Minha pele e meus olhos estavam queimando por causa do combustível do avião na água. Eu consegui fazê-la voltar a respirar, e seu coração voltou muito rapidamente. Lauren começou a vomitar e eu tentei manter suas vias respiratórias desobstruídas. Ela estava respirando espontaneamente e tinha pulso, então decidi que estava na hora de levá-la para a margem.

Puxamos o barco até o cais e Lauren começou a ter convulsões por anoxia. Seu cérebro ficou sem oxigênio, mas então foi perfundido novamente. Nós a levamos para a margem e a colocamos no gramado. Eu ainda estava fazendo boca a boca, mas ela estava convulsionando muito, e eu não tinha como controlar isso. Beth chorava e queria segurar sua filha com carinho enquanto eu estava trabalhando.

Alguém tinha ligado para a emergência, e finalmente apareceu um sujeito em uma ambulância, que parecia saída diretamente da Segunda Guerra Mundial. A única coisa que ele tinha era um tanque de oxigênio, mas a máscara estava velha e rachada. É muito grande para Lauren, mas serve em mim, então eu puxo o oxigênio e o assopro na boca da menina. Faço tudo o que posso, mas sequer tenho acesso venoso. Não tenho soro. Não tenho nada.

Por coincidência, eu tinha feito minha residência em medicina de urgência no Maine Medical Center, então eu disse para alguém ligar para eles e pedir um helicóptero de resgate. Tivemos de dirigir para um lugar onde o helicóptero pudesse pousar, então levamos a ambulância até o estacionamento da loja mais próxima, chamada The Wicked Good Store. Isso é comum no Maine. Tudo é "wicked good”.

A essa altura, toda a cidade estava lá. O helicóptero chegou. As portas da ambulância se abriram e uma mulher disse: "Todd?" E eu respondi: "Heather?"

Heather é uma enfermeira de voo de emergência que eu treinei há muitos anos. A confiança foi imediata. Ela tinha todo o equipamento necessário. Colocamos os tubos de ventilação e os acessos venosos. Fizemos Lauren parar de convulsionar. Logo seu quadro estabilizou.

No helicóptero só havia um assento extra, então eu disse para Beth ir. Elas decolaram.

De repente, comecei a duvidar da minha decisão. Lauren ficou debaixo d’água por pelo menos 15 minutos. Eu sei quanto tempo isso é. Eu fiz a coisa certa? Eu reanimei uma criança com morte cerebral? Eu não pensei nisso naquele momento, mas se essa paciente tivesse chegado para mim no serviço de emergência, honestamente eu não sei o que eu teria feito.

Então, eu fui para casa. Ninguém me ligou. O serviço de aviação e o xerife chegaram para tomar nossos depoimentos. Eu não ouvi falar de ninguém.

No dia seguinte eu comecei a telefonar. Ninguém me dizia nada, então eu finalmente cheguei a um dos médicos da UTI pediátrica, que foi quem me treinou. Ele disse que Lauren literalmente acordou e disse: "Eu quero fazer xixi". E foi isso. Ela estava 100% normal. Eu não conseguia acreditar.

Uma teoria: nas crianças, existe algo chamado reflexo glótico. Eu acho que o reflexo glótico de Lauren disparou assim que ela atingiu a água, o que basicamente fechou suas vias respiratórias. Então, quando desmaiou, não tinha como entrar muita água nos seus pulmões e lá dentro ainda havia ar suficiente para mantê-la viva. Mais tarde, recebi um telefonema de seu tio. Ele mal conseguia falar porque estava aos prantos. Disse que Lauren estava ótima.

Três dias depois, dirigi até a casa de Lauren com minha mulher e meus filhos. Eu a fiz ler para mim. Eu a observei brincar no playground para avaliar sua função motora. Um pouco de tudo. Ela estava completamente normal.

Beth nos contou que, na noite anterior ao acidente, sua mãe havia dado às mulheres de sua família o que ela chamava de "pulseira milagrosa", uma pulseira que realizaria um milagre na vida de quem a usasse. Beth disse que estava com a pulseira no punho no dia do acidente, e depois ela havia desaparecido. "Salvar a vida de Lauren foi o meu milagre", disse ela.

Fato curioso: por 20 anos, eu administrei todos os serviços de emergência, polícia, bombeiro e ambulância em Boulder, no Colorado, onde moro. Escrevi todos os protocolos, e eu nunca aconselharia nenhum de meus paramédicos a mergulhar no combustível de um avião para salvar alguém. Isso foi arriscado. Mas na hora, foi totalmente automático. Acho que isso me ensinou a não desistir em certas situações, porque nunca se sabe.

O Dr. Todd Dorfman é médico emergencista em Boulder, no Colorado, e diretor médico na Cedalion Health. Este depoimento integra a série do MedscapeIs There a Doctor in the House?”

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