Parada cardíaca, asfixia, engasgo. Projeto visa capacitar crianças a lidar com casos de emergência ― e está dando certo

Equipe Medscape

28 de novembro de 2022

Juliana, uma menina de nove anos, assistia televisão na sala de sua casa quando ouviu barulhos estranhos vindos da cozinha. Ela correu para lá e encontrou a babá Wania, funcionária da família, engasgada e sem conseguir respirar. A garota se lembrou das técnicas de primeiros socorros que aprendera em um curso recente ministrado em sua escola, e agiu rapidamente: Juliana abraçou Wania pelas costas e pressionou o abdome dela com força, performando a chamada manobra de Heimlich.

“Eu fiz como o treinamento ensinou. Foi quando ela [a babá] conseguiu colocar o alimento para fora e voltou a respirar. Em seguida, gritei pelo meu pai, que estava no quarto, e ele veio ajudar. Minha mãe tinha saído”, Juliana contou ao site de notícias Giro Marília Notícias. Segundo a matéria, Wania Bispo Santos afirmou que Juliana foi rápida e salvou a sua vida: “Se não fosse ela, com certeza eu não estaria aqui hoje para contar a história”, relata o site.

O caso aconteceu em outubro na cidade de Marília, região Centro-Oeste de São Paulo, dois meses após a visita do projeto Crianças Salvam Corações, criado pelo cardiologista e intensivista Dr. Uri Adrian Prync Flato em parceria com a Universidade de Marília (Unimar) e o Hospital Beneficente Unimar (HBU), ao colégio Maple Bear Marília, onde Juliana estuda.

Ela participou em agosto do treinamento em primeiros socorros oferecido por instrutores voluntários e facilitadores do projeto, que visa capacitar crianças e familiares a lidarem com situações de emergência, aumentando as chances de sobrevivência em casos de parada cardíaca, obstrução de vias respiratórias e asfixia. A iniciativa é gratuita e os idealizadores pretendem que o treinamento oferecido em escolas públicas seja apoiado pelas escolas particulares.

“O projeto está jogando uma sementinha que vai fazer diferença na vida das pessoas”, afirmou Letícia de Souza Gonçalves Lima, mãe de Juliana, ao Giro Marília Notícias.

Durante uma hora e meia, o curso ensina crianças e adolescentes a agirem em casos de emergência. “Cerca de 30% das mortes no Brasil são atribuídas às doenças cardiovasculares. Muitas vezes, as crianças são as primeiras testemunhas dessas ocorrências com familiares. Precisamos disseminar as informações básicas para [que elas possam] dar suporte [ao familiar] até o socorro chegar ao local”, disse o Dr. Uri em entrevista ao Medscape. O Dr. Uri é professor nos cursos de graduação e pós-graduação na Unimar, diretor de projetos de melhoria e qualidade do hospital da universidade, além de atuar no setor de terapia intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein.

Dr. Uri Adrian Prync Flato

 

Para os instrutores e facilitadores ministrarem o curso, a instituição de ensino deve ter um projetor, caixas de som e um ambiente com capacidade para 40 pessoas. Por questões pedagógicas, os alunos são divididos em grupos de 7 a 11 anos e de 12 a 17 anos de idade. O treinamento começa com um jogo de videogame que simula as situações a serem abordadas, e os alunos devem indicar a alternativa que consideram adequada. A cada escolha, é atribuída uma pontuação.

O jogo foi desenvolvido pelo próprio grupo: “Usamos o videogame no começo e no final do treinamento. Se a pontuação for maior no final, [significa que] houve deslocamento do conhecimento”, explicou o médico. Depois, os instrutores ensinam os alunos a reconhecerem casos de obstrução de vias respiratórias por corpo estranho (engasgo), parada cardiorrespiratória e sinais/sintomas de infarto. Eles também aprendem a acionar o resgate, a realizar a manobra de Heimlich e compressões cardíacas em manequins para treinamento de reanimação cardiorrespiratória, e a usar um desfibrilador.

“Inserimos a manobra de Heimlich e a compressão torácica no treinamento para o caso de a primeira tentativa não ser bem-sucedida, porque o engasgamento é muito frequente nos ambientes escolares e familiares”, explicou o médico intensivista. Professores, pais/mães e responsáveis das crianças também participam do treinamento. “Posteriormente, os adultos poderão retreinar as crianças para que rememorem os procedimentos”, frisou o Dr. Uri, coordenador da iniciativa.

O projeto é colaborativo. A equipe conta com 18 integrantes: alunos dos cursos de medicina e enfermagem, colaboradores do Hospital Beneficente Unimar e três crianças treinadas que se tornaram facilitadoras das atividades em sala de aula. Todos os equipamentos foram comprados com recursos provenientes de doações de dois empresários da região. Segundo o médico, a iniciativa está em busca de profissionais das áreas de antropologia e psicologia para a análise qualitativa desses dados.

Equipe do projeto Crianças Salvam Corações.

 

Desde abril de 2022, quando foi realizada a primeira ação em ambiente escolar, até o início de novembro, o Crianças Salvam Corações treinou cerca de 350 crianças/adolescentes e 60 pais/mães e responsáveis em nove escolas públicas e privadas nos municípios de Marília e Pompeia, também no interior de São Paulo. Os treinamentos incluem estudantes com síndrome de Down, transtorno do espectro autista e deficiência de amplitude de movimento e mobilidade articular.

Além da responsabilidade social, a produção científica está entre as preocupações do programa. “Faltam estudos brasileiros nesse campo”, disse o cardiologista. “Temos a oportunidade de coletar muitos dados demográficos, de composição corpórea e qualitativos durante os treinamentos. É importante, porque faltam dados brasileiros de avaliação qualitativa de treinamento em crianças e adolescentes”, destacou o Dr. Uri.

O médico compartilhou que uma das perguntas mais comuns é se uma criança de oito anos tem força e habilidade para fazer a massagem cardíaca. “A resposta é sim, de acordo com um trabalho feito pelo nosso grupo, que analisou a qualidade das compressões de 120 crianças treinadas”, disse o Dr. Uri.

O estudo mencionado comparou as compressões de um grupo de 7 a 11 anos com as de um grupo de 12 a 17 anos. “De três variáveis analisadas, não houve diferença em duas”, disse o cardiologista. O estudo foi apresentado nas Sessões Científicas de 2022 da American Heart Society (AHA), e foi contemplado com o prêmio internacional Paul Dudley White. Outro estudo apresentado pelo grupo, sobre avaliação, percepção e conhecimento da família e dos estudantes após o treinamento, ficou em terceiro lugar no II Simpósio Internacional de Pacientes Graves do Hospital Israelita Albert Einstein.

A equipe do projeto Crianças Salvam Corações tem outros estudos em andamento. “Nossa proposta é disseminar conhecimento, salvar vidas e produzir ciência”, definiu o Dr. Uri. Eles também buscam expandir a presença da iniciativa em institutos de pesquisa em cardiologia e na rede de escolas públicas. Até o final de 2022, mais três escolas públicas receberão a visita dos instrutores do projeto. “Se toda cidade tiver um projeto desses fazendo diferença, mais vidas podem ser salvas e estaremos mudando o mundo para melhor”, disse o médico, que encontrou motivação para realizar seu desejo de ensinar crianças após seu pai adoecer. “Senti que precisava fazer algo em favor da vida e da comunidade”, disse ele.

Mais cursos no mundo e no Brasil

Nos Estados Unidos e na Europa, o treinamento em reanimação cardiopulmonar faz parte do currículo das escolas e universidades. Um dos projetos internacionais mais conhecidos é o Kids Save Lives, que tem um braço brasileiro coordenado pela Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o site do projeto, a iniciativa já realizou, em cerca de três anos de atividade, mais de 4.339 treinamentos de crianças, adolescentes e adultos da rede de ensino fundamental, médio e superior no estado de São Paulo.

Existem também projetos de treinamento em atendimento de emergências voltados para a população geral, pagos ou gratuitos. O Centro de Educação em Saúde Abram Szajman do Hospital Israelita Albert Einstein, por exemplo, ministra um curso básico de primeiros socorros para leigos com mais de 15 anos que tenham interesse em aprender a lidar com situações de emergência.
Interessados no programa Crianças Salvam Corações podem escrever para criancassalvamcoracoes@gmail.com ou para o Whatsapp (11) 97585-8889. Mais sobre o projeto no Instagram @criancas.salvam

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