Uso de ablação para o tratamento da FA pode deflagrar síndrome de Takotsubo

Patrice Wendling

Notificação

25 de novembro de 2022

A síndrome de Takotsubo é uma complicação rara que pode ocorrer após a ablação por cateter em pacientes com fibrilação atrial (FA). Embora seja incomum, pode ser grave, exigindo intervenção imediata, segundo um estudo de série de casos.

"Há alguns anos, tratamos um caso muito impressionante que nos levou a analisar essa questão mais detalhadamente em nosso banco de dados", disse ao Medscape o médico e autor sênior Dr. Andrea Natale.

"Era um paciente jovem, que estava muito bem no momento da alta hospitalar, porém, em menos de 48 horas, ele desenvolveu sintomas de insuficiência cardíaca e pré-síncope, e descobrimos que estavam sendo causados por uma dissociação eletromecânica."

O cateterismo cardíaco mostrou artérias coronárias normais e uma dilatação ventricular esquerda com balonamento apical, indicador da síndrome de Takotsubo. Internado em um hospital de pequeno porte nos Estados Unidos, em que não havia infraestrutura para o tratamento de uma insuficiência cardíaca grave, o paciente morreu após três dias, depois de diversos episódios de dissociação e um tratamento exclusivamente conservador.

"Em alguns desses casos mais dramáticos, a única maneira de tratar essa fase aguda da síndrome de Takotsubo é por meio de um implante [de marca-passo]", disse o Dr. Andrea, diretor médico executivo do Texas Cardiac Arrhythmia Institute, parte do St. David's Medical Center, nos EUA. "O paciente precisava de um balão intra-aórtico, mas, no pequeno hospital onde ele estava, eles nem pensaram na Takotsubo como a causa do que estava acontecendo."

O estudo foi publicado on-line em 26 de outubro no periódico JACC: Clinical Electrophysiology.

Ampliando a conscientização

Acredita-se que uma série de seis casos em um único hospital seja a maior até o momento, tratando-se da síndrome de Takotsubo pós-ablação de FA. Foram registrados três casos na Europa em 2007 e o último relato de caso ocorreu neste ano, na China. A paciente era uma mulher de 62 anos que se recuperou totalmente.

“A ideia era conscientizar a comunidade médica, porque é provável que esses casos passem despercebidos pela maioria das pessoas e elas precisam estar cientes de que a apresentação grave pode ser tratada de forma eficaz”, disse o Dr. Andrea.

Os seis casos relatados representam apenas 0,051% das 11.703 ablações de FA realizadas no instituto, reforçando a raridade dessa complicação. A síndrome de Takotsubo foi diagnosticada dentro de um a quatro dias após a ablação, sem registro de obstrução coronariana na angiografia cardíaca.

Os sintomas mais comuns foram a dispneia, em cinco pacientes, e a dor torácica, em quatro. Três pacientes relataram tontura, fraqueza e diaforese. A idade média dos pacientes era de 68 anos, a fração de ejeção média era de 27% (variando entre 22% e 34%) e quatro pacientes eram do sexo feminino.

"Nas mulheres, o estrogênio, como já é conhecido, tem um efeito cardioprotetor muito importante. Assim, em mulheres que já passaram pela menopausa, por haver uma redução no nível de estrogênio, há maior predisposição à Takotsubo", disse a médica Dra. Sanghamitra Mohanty, principal autora e diretora de pesquisa translacional do Texas Cardiac Arrhythmia Institute. "Curiosamente, foi visto que, embora seja mais comum em mulheres, a síndrome é mais grave em homens, e não temos uma explicação completa para isso."

Além do homem que faleceu, um segundo homem foi internado com dispneia e fração de ejeção de 22% antes de desenvolver fibrilação ventricular e ter uma parada cardíaca no pronto-socorro. O paciente foi ressuscitado e se recuperou completamente após a inserção de um cardioversor desfibrilador implantável (CDI) subcutâneo.

As quatro pacientes do sexo feminino também se recuperaram completamente após o tratamento conservador da insuficiência cardíaca, que incluiu o uso de betabloqueadores, diuréticos e suporte respiratório, disse a Dra. Sanghamitra.

Os autores sugerem que a síndrome de Takotsubo pós-ablação de FA possa ser explicada por uma disfunção autonômica transitória pós-ablação e pela ablação de plexos ganglionares autônomos, levando à denervação vagal e aumento do tônus adrenérgico. Além disso, o uso de isoproterenol durante a ablação pode contribuir para o estresse miocárdico.

"Existem alguns dados recentes que sugerem que alguns desses pacientes são geneticamente predispostos à síndrome de Takotsubo", disse o Dr. Andrea. “Portanto, é possível que um subconjunto da população seja geneticamente predisposto e, se [essas] pessoas apresentarem uma resposta adrenérgica aumentada (o que pode ser induzido farmacologicamente com o isoproterenol), elas têm maiores chances de desenvolver a síndrome.”

Embora seja mais provável que os sintomas comecem nas primeiras 24 horas, os médicos sugerem que é aconselhável monitorar os pacientes de perto por pelo menos uma semana, para detectar sintomas relacionados à síndrome de Takotsubo.

"Um ecocardiograma no momento da alta é provavelmente a melhor e mais simples ferramenta de rastreamento, (…) pois dentro de 24 horas podemos ter evidências de que algo não está bem", disse o Dr. Andrea.

Entretanto, "nos Estados Unidos, o período de internação padrão é inferior a 24 horas", ele acrescentou. "Os pacientes passam uma noite no hospital e, em alguns lugares, recebem alta no mesmo dia. Muitos desses casos passarão despercebidos."

O Dr. Andrea Natale atua como consultor para as empresas Abbott, Baylis, Biosense Webster, Biotronik, Boston Scientific e Medtronic. Todos os outros autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

J Am Coll Cardiol EP. Publicado on-line em 26 de outubro de 2022. Correspondência de pesquisa

 

Siga o Medscape em português no  Facebook, no Twitter e no YouTube.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....