Pequeno estudo traz 'resultados impressionantes' para pacientes com CA de mama

Algumas talvez possam 'se livrar da cirurgia'

M. Alexander Otto

Notificação

24 de novembro de 2022

Resultados "impressionantes" de um pequeno estudo sugerem que algumas mulheres com câncer de mama talvez possam se livrar da cirurgia, afirmam pesquisadores.

O achado é baseado em um estudo de 31 mulheres com câncer de mama em estágio inicial triplo-negativo ou positivo para o receptor 2 do fator de crescimento epidérmico humano (HER2, sigla do inglês Human Epidermal Growth Factor Receptor 2), que tiveram uma resposta patológica completa à terapia sistêmica neoadjuvante. 

O passo seguinte do tratamento normalmente seria a cirurgia, mas isso não ocorreu nessas pacientes, que foram encaminhadas diretamente para a radioterapia convencional em toda a mama acometida. A não realização da cirurgia pareceu segura e, após um acompanhamento de 26,4 meses em média, não houve nenhuma recidiva locorregional ou distante, relataram os pesquisadores.

O estudo foi publicado on-line em 25 de outubro no periódico Lancet Oncology.

Os achados recebeu destaque na imprensa, inclusive do New York Times e da Fox News , dos Estados Unidos.

Os resultados são "impressionantes e bastante promissores (…) Este é o início de um novo tipo de tratamento para determinadas pacientes", disse à imprensa o médico e pesquisador principal Dr. Henry Kuerer, Ph.D., cirurgião oncológico especializado em mama, afiliado ao MD Anderson Cancer Center, nos Estados Unidos. No entanto, o Dr. Henry acrescentou que "serão necessários outros estudos e um acompanhamento mais prolongado até que essa abordagem possa ser integrada ao tratamento de rotina do câncer de mama".

Especialistas que não participaram do estudo foram igualmente cautelosos.

O "estudo é um passo importante", mas "ainda existem várias questões fundamentais sobre os desfechos de longo prazo e a implementação [dessa proposta] nos diversos cenários terapêuticos", disseram os autores de um editorial que acompanha a publicação, o cirurgião oncológico Dr. Philip Spanheimer e a especialista em câncer de mama Dra. Katherine Reeder-Hayes, ambos afiliados à University of North Carolina, nos EUA.

Resposta à quimioterapia neoadjuvante é fundamental

O trabalho se baseia na eficácia crescente da terapia neoadjuvante no tratamento do câncer de mama em estágio inicial, que atualmente apresenta taxas de resposta patológica completa entre 60% e 80% para câncer de mama triplo-negativo ou HER2+, disseram os autores.

A equipe recrutou 50 mulheres, com média de idade = 62 anos e câncer de mama com lesão única, estadiamento T1cN0M0, dos tipos triplo-negativo (21 pacientes) ou HER2+ (29 pacientes). Para inclusão das pacientes no estudo, as lesões mamárias residuais deveriam ser < 2 cm no exame de imagem após o tratamento neoadjuvante, composto de quimioterapia, associada ou não a tratamento direcionado, a critério do oncologista assistente.

A resposta terapêutica inicial foi avaliada através de uma biópsia nuclear a vácuo guiada por exames imagem, de última geração, com a coleta de no mínimo 12 amostras do leito tumoral e uma média de 15,2 amostras por paciente.

Após a radioterapia, 62% das mulheres (31 em 50) que apresentaram resposta completa foram acompanhadas de perto para detecção de recidivas, incluindo via mamografias a cada seis meses. Nove pacientes foram posteriormente submetidas a biópsias adicionais.

Os pesquisadores observaram que a maioria das mulheres com resposta completa, de acordo com o resultado da biópsia, não apresentaram resposta completa na avaliação radiológica, o que aponta para "a necessidade fundamental da biópsia guiada por imagem para garantir que as pacientes corretas sejam selecionadas para futuros ensaios sobre a não realização da cirurgia mamária".

O estudo permitiu a inclusão de casos com acometimento linfonodal, porém, essas pacientes não poderiam ter mais de três linfonodos alterados na ultrassonografia. Além disso, esses linfonodos foram clipados antes da quimioterapia, para garantir a remoção.

Não houve eventos adversos graves relacionados à biópsia nem mortes associadas ao tratamento. 

Ainda não há conclusões definitivas

No editorial, Dr. Philip e Dra. Katherine afirmaram que a estratégia tem potencial, mas demonstraram preocupação com a forma como seria aplicada em condições reais.

Eles apontaram que algumas equipes não foram tão bem-sucedidas quanto os autores do estudo no uso da biópsia nuclear a vácuo guiada por exames imagem para a detecção de doença residual.

Além disso, em cenários reais, é muito difícil fazer com que as sobreviventes de câncer de mama compareçam anualmente para mamografias de vigilância, que dirá semestralmente.

De fato, algumas mulheres podem "questionar se vale a pena passar por esse processo para evitar a cirurgia, principalmente se estiverem diante de um procedimento simples, que preserve a mama", comentaram os editorialistas.

Além disso, as taxas de resposta patológica completa após a terapia neoadjuvante foram maiores no estudo do que em alguns relatos anteriores, levantando a possibilidade de falsos-negativos e de o período de acompanhamento ter sido insuficiente para que a doença oculta se manifestasse como recidiva, eles disseram.

Em geral, Dr. Philip e Dra. Katherine concluíram que o estudo é simplesmente “muito fraco", e os resultados ainda são "imaturos" para conclusões definitivas.

"Essencialmente, será necessário desenvolver a capacidade de prever o status da doença residual com precisão, e mostrar a viabilidade dessas técnicas em vários cenários clínicos, antes de incorporarmos as estratégias que dispensam a cirurgia no tratamento do câncer de mama", afirmaram eles.

O estudo foi financiado pelo National Cancer Institute e pelo MD Anderson Cancer Center. Diversos pesquisadores possuem vínculos com a indústria, inclusive o Dr. Henry Kuerer, que informou o recebimento de honorários da Merck por consultoria e do NEJM Group por trabalho como editor, além de royalties das editoras McGraw-Hill e Elsevier. A declaração de conflitos de interesses completa consta no artigo original. Os editorialistas informaram o recebimento de doações da Pfizer.

O Dr. M. Alexander Otto é médico assistente, com mestrado em ciências médicas e graduação em jornalismo pela Newhouse. Ele é um premiado jornalista especializado em saúde, e já trabalhou para vários veículos de comunicação de destaque antes de entrar para a equipe do Medscape. O Dr. Alexander também é membro do MIT Knight Science Journalism. E-mail:  aotto@mdedge.com

Lancet Oncol. Publicado on-line em 25 de outubro de 2022. Abstract , Editorial

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