Citrato de sildenafila, tadalafila e risco de Alzheimer: novos dados

Kelli Whitlock Burton

Notificação

24 de novembro de 2022

Medicamentos comumente usados no tratamento da disfunção erétil não estão associados à diminuição do risco de doença de Alzheimer e demências relacionadas, mostram novas pesquisas.

Os achados contradizem um estudo anterior, que havia sugerido que indivíduos que fazem uso de citrato de sildenafila teriam uma chance significativamente menor de desenvolver Alzheimer.

A nova pesquisa, parte de um projeto maior para identificar medicamentos que poderiam ser reaproveitados para o tratamento do Alzheimer e demências relacionadas, utilizou um desenho de estudo que reduziu o risco de possíveis vieses, que podem ter influenciado os achados anteriores, observaram os pesquisadores.

"Esse estudo foi publicado no final do ano passado e amplamente divulgado pela mídia. [Nesse momento] pensamos que poderiam existir problemas metodológicos responsáveis pelos resultados", disse ao Medscape o pesquisador líder do estudo, Dr. Rishi Desai, Ph.D., professor assistente de medicina na Harvard Medical School e epidemiologista associado ao Brigham and Women's Hospital, ambos nos EUA.

O novo estudo foi publicado on-line em 4 de outubro no periódico Brain Communications.

Palavra final ainda não foi dada 

Estudos em animais sugerem que os inibidores da fosfodiesterase-5 (PDE5, sigla do inglês phosphodiesterase-5), uma classe de medicamentos para disfunção erétil que inclui o citrato de sildenafila e a tadalafila, melhoram a memória e a função cognitiva, além de diminuirem a carga amiloide. Entretanto, estudos em humanos produziram resultados conflitantes.

Embora a nova pesquisa e o trabalho publicado no ano passado tenham se baseado em dados do Medicare (seguro-saúde pago pelo governo dos EUA a pacientes idosos/vulneráveis), eles analisaram populações diferentes.

O primeiro estudo comparou os pacientes que tomaram citrato de sildenafila por qualquer motivo com aqueles que não tomaram o medicamento. Esse desenho provavelmente resultou na análise de uma comparação entre indivíduos com disfunção erétil (comumente tratada com citrato de sildenafila) e indivíduos geralmente mais idosos, com diabetes ou hipertensão, disse o Dr. Rishi.

Por outro lado, o estudo atual incluiu apenas os pacientes com hipertensão arterial pulmonar (HAP), que também é um indícador da presença dos inibidores de PDE5. Os pesquisadores compararam a incidência de Alzheimer e demências relacionadas nos pacientes que tomaram inibidores de PED5 com a incidência naqueles que tomaram outros medicamentos para o tratamento da HAP. Eles usaram o pareamento por propensão para criar dois grupos com características semelhantes e examinaram os dados usando quatro estratégias de análise.

Os estudiosos não encontraram diferenças significativas entre os grupos na incidência de Alzheimer e demências relacionadas, independentemente da estratégia utilizada. Os estudos de cultura celular também não revelaram nenhum efeito protetor dos inibidores de PED5.

"Nenhum estudo desse tipo deveria se apresentar como a palavra final", disse o Dr. Rishi. “É extremamente difícil identificar uma causalidade a partir desses tipos de fontes de dados.”

Desenho do estudo é “impressionante” 

Comentando os achados para o Medscape, o Dr. David Knopman, médico e professor de neurologia na Mayo Clinic, nos EUA, descreveu o desenho do estudo como "impressionante" por seus esforços para minimizar os vieses, que representaram uma limitação importante no estudo anterior.

"Sempre foi dito que as alegações sobre o citrato de sildenafila precisavam de mais pesquisas antes que o fármaco fosse testado em ensaios controlados randomizados", disse o Dr. David. "As evidências favoráveis ao uso nunca foram suficientes para que os médicos utilizassem o medicamento em seus pacientes."

O estudo foi financiado pelo National Institute on Aging. O Dr. Rishi é um pesquisador que já recebeu bolsas de pesquisa das empresas Bayer, Vertex e Novartis, destinadas ao Brigham and Women's Hospital para projetos não relacionados ao estudo publicado. O Dr. David informou não ter conflitos de interesses relevantes. 

Brain Commun. Publicado on-line em 4 de outubro de 2022. Texto completo

Kelli Whitlock Burton é repórter e escreve para o Medscape sobre temas de psiquiatria e neurologia. 

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