Tratamento in utero de doença letal é considerado um avanço 'revolucionário'

Jake Remaly

Notificação

23 de novembro de 2022

Tratamento bem-sucedido da doença de Pompe in utero pela primeira vez pode ser o início de um novo capítulo da medicina fetal, afirmam pesquisadores.

Um artigo publicado on-line em 09 de novembro no periódico New England Journal of Medicine descreve a reposição enzimática in utero para a doença de Pompe de início infantil.

A paciente, agora criança, está se desenvolvendo bem, segundo os pesquisadores. Seus pais tiveram outros filhos que morreram com a mesma doença.

Dra. Tippi Mackenzie

"Este tratamento amplia o repertório da medicina fetal em uma nova direção", disse em um comunicado à imprensa a médica Dra. Tippi Mackenzie, cirurgiã pediátrica dos University of California San Francisco (UCSF) Benioff Children's Hospitals, nos Estados Unidos, e coautora do artigo. "À medida que novos tratamentos se tornam disponíveis para crianças com doenças genéticas, estamos criando protocolos para administrá-los antes do nascimento."

A Dra. Tippi é codiretora do Center for Maternal-Fetal Precision Medicine da UCSF e dirige o Eli and Edythe Broad Center of Regeneration Medicine and Stem Cell Research, ambos nos EUA.

A doença de Pompe é causada por mutações em um gene que produz a enzima α-glicosidase ácida. Com a diminuição dos níveis dessa enzima, quantidades perigosas de glicogênio se acumulam no organismo. Os bebês com doença de início infantil geralmente têm cardiomegalia e morrem aos dois anos de idade.

A doença, que ocorre em cerca de um indivíduo em cada 40.000 nascimentos, é uma das várias doenças do armazenamento lisossomal de início precoce. Os pacientes com essas doenças "são candidatos ideais para o tratamento pré-natal porque as lesões orgânicas começam no útero", disseram os pesquisadores.

O rastreamento neonatal pode promover o início precoce do tratamento com enzimas recombinantes, "mas essa estratégia não previne inteiramente lesões orgânicas irreversíveis", disseram os autores.

A paciente do novo artigo fez seis administrações pré-natais de reposição enzimática in utero no The Ottawa Hospital, no Canadá, e está fazendo reposição enzimática pós-natal no Children’s Hospital of Eastern Ontario, um hospital pediátrico e centro de pesquisa canadense.

Os pesquisadores administraram a α-alglicosidase pela veia umbilical. Fizeram a primeira infusão no feto com 24 semanas e 5 dias de gestação. Continuaram fazendo as infusões em intervalos de 2 semanas até 34 semanas e 5 dias de gestação.

A paciente está bem aos 16 meses de idade, com função cardíaca e motora normal, e está alcançando os marcos de desenvolvimento, segundo o comunicado à imprensa.

O sucesso do tratamento contou com a colaboração entre a UCSF, onde os pesquisadores estão fazendo um ensaio clínico sobre essa estratégia terapêutica; o Children’s Hospital of Eastern Ontario e o The Ottawa Hospital; e a Duke University.

Em circunstâncias normais, a família da paciente teria viajado para o UCSF Benioff Children's Hospital Fetal Treatment Center para participar do ensaio clínico, mas as restrições da covid-19 levaram os pesquisadores a administrar o tratamento no Canadá como parte do ensaio clínico.

A UCSF recebeu a aprovação da Food and Drug Administration dos EUA para tratar a doença de Pompe e várias outras doenças do armazenamento lisossomal in utero, como parte de um ensaio clínico de fase 1 com 10 pacientes. As outras doenças são mucopolissacaridose dos tipos 1, 2, 4a, 6 e 7; doença de Gaucher dos tipos 2 e 3; e doença de Wolman.

Os pacientes com doença de Pompe costumam ter o diagnóstico clínico entre os três e seis meses de idade, disse um dos coautores do estudo, o médico Dr. Paul Harmatz da UCSF. Com o rastreamento dos recém-nascidos, a doença pode ser diagnosticada em uma semana. Mas intervir antes do nascimento pode ser o ideal, segundo o médico.

O tratamento fetal parece ser "revolucionário neste momento", disse o Dr. Paul.

N Engl J Med. Publicado on-line em 09 de novembro de 2022. Abstract

A pesquisa foi financiada por uma bolsa dos National Institutes of Health. A empresa Sanofi Genzyme forneceu a enzima para a paciente.

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