Novas diretrizes para o tratamento da obesidade infantojuvenil trazem ‘mudanças profundas’

Marlene Busko

Notificação

21 de novembro de 2022

As novas diretrizes da American Academy of Pediatrics (AAP) para tratar a obesidade infantojuvenil, cuja publicação deve acontecer em breve, trarão "mudanças profundas", invalidando a conduta expectante, segundo especialista.

A publicação do documento está prevista para o período entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023.

Vários autores mostraram parte dos bastidores da elaboração do documento em uma sessão conjunta da American Academy of Pediatrics com a The Obesity Society (TOS) na última ObesityWeek, em novembro de 2022.

"As últimas diretrizes foram publicadas em 2007, precisávamos fazer uma atualização", disse ao Medscape a Dra. Ihuoma Eneli, médica e diretora associada ao Institute for Healthy Childhood Weight da American Academy of Pediatrics.  

"Acho que as últimas diretrizes nos ajudaram muito", acrescentou a médica. "Criaram as condições para o desenvolvimento de vários estudos, que agora usamos como base para essas novas diretrizes".

"Espero que as pessoas percebam que as novas diretrizes são muito focadas nas crianças e são muito pragmáticas", disse a Dra. Ihuoma, que também é professora de pediatria na Ohio State University nos Estados Unidos. "Nosso objetivo é realmente capacitar o médico de atenção primária para melhorar o acesso [das crianças] ao cuidado com a obesidade, dado que é um problema muito comum", enfatizou.

"A conduta expectante já não é adequada"

"Acredito que o mais importante seja mudar radicalmente a forma como [os médicos] encaram a obesidade, ou seja, devem vê-la como uma doença crônica, refratária, recidivante, para a qual a conduta expectante não é adequada", disse o copresidente da sessão Dr. Aaron S. Kelly, Ph.D.

"Assim, o tratamento intensivo precoce é prioridade", disse ao Medscape o Dr. Aaron, professor de pediatria na Escola de Medicina da University of Minnesota nos EUA, que não participou da elaboração das diretrizes.

A Dra. Sarah E. Barlow, médica e professora de pediatria no University of Texas Southwestern Medical Center nos EUA e coautora das diretrizes, disse ao público que são necessários 17 anos para que as diretrizes sejam implementadas.

"Acho que precisamos diminuir nossas expectativas de mudança imediata nessa área", comentou Dr. Aaron, "mas temos de dar o primeiro passo, e acho que é isso que as novas diretrizes de prática clínica vão fazer. É um bom começo".

"Estamos identificando medicamentos anti-obesidade que estão se mostrando muito eficazes e seguros e não têm sérios efeitos colaterais. Em conjunto com o tratamento de adequação do estilo de vida, eles trarão mudanças profundas para muitas crianças ", disse o professor. “Ainda não chegamos lá. Temos um longo caminho pela frente, mas há muita esperança."

O Dr. Aaron foi o pesquisador responsável pelo ensaio clínico com a liraglutida, agonista do peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1, sigla do inglês glucagon-like peptide 1), usada como medicamento injetável de uso diário em adolescentes. O estudo foi publicado no periódico New England Journal of Medicine e levou à aprovação do uso do fármaco para essa faixa etária em 2020. O Dr. Aaron foi moderador da sessão de apresentação dos resultados do ensaio clínico STEP TEENS, que testou doses semanais de semaglutida – outro agonista do GLP-1 – em adolescentes.

"Acho que era visível como as pessoas estavam empolgadas na apresentação – e não só com a semaglutida", disse o Dr. Aaron. "A semaglutida representa uma nova esperança de que estamos começando a alcançar graus de perda ponderal e redução do índice de massa corporal que importam não só para o médico, mas também para a mãe e o pai e para o próprio filho."

"A liraglutida foi o início. Nós avançamos com fentermina e topiramato, aprovados recentemente pela Food and Drug Administration (FDA) nos EUA” para uso da população infantojuvenil, continuou. "Demos mais um passo à frente com a semaglutida, que esperamos ser aprovada para os adolescentes."

"Agora temos toda uma linha de produção de medicamentos anti-obesidade que, com base nos resultados obtidos em adultos, nos dão uma grande esperança de chegar ao mesmo nível da cirurgia bariátrica em termos da média dos resultados", observou.

"Eu não quero me precipitar", disse o Dr. Aaron, "mas acho que isso será possível nos próximos cinco ou 10 anos".

As novas diretrizes estarão disponíveis on-line e em um aplicativo

Ferramentas de apoio à decisão clínica também podem ajudar na implementação das novas medidas, segundo a Dra. Sarah.

Ela explicou que haverá uma versão on-line das novas diretrizes, bem como uma versão em aplicativo. "Também vai evoluir ao longo do tempo." As novas diretrizes incluirão algoritmos de rastreamento, diagnóstico, avaliação e tratamento da obesidade infantojuvenil. Haverá um cartão de referência rápida que mapeia códigos de faturamento para o algoritmo. Junto com o documento, haverá quatro vídeos e mais de 10 podcasts.

As diretrizes estarão disponíveis aqui, no site da American Academy of Pediatrics.

A American Academy of Pediatrics também conta com recursos para crianças, adolescentes e suas famílias, disponíveis em www.HealthyChildren.org e no site do Institute for Healthy Childhood Weight .

Médicos e profissionais de saúde, como residentes, nutricionistas e fisioterapeutas, podem participar da seção sobre obesidade da American Academy of Pediatrics por 30 dólares ao ano e ter acesso à listserv e à educação médica continuada.

"Esperamos que os gestores da saúde olhem para estas diretrizes e digam: ‘Isto é o que precisa acontecer’, disse a Dra. Sarah. "Estou muito entusiasmado com a e-health. Acho ela realmente vai mudar o cenário, nos permitindo levar esse tipo de atendimento diversificado e especializado às crianças das comunidades rurais."

A seção sobre obesidade da American Academy of Pediatrics também emite uma política de estratégias para a prevenção primária da obesidade.

Um membro da plateia, vindo da Suécia, disse: "Quando eu venho para os EUA, preciso trazer minha própria granola, porque encontrar granola sem açúcar nos EUA não é fácil". Segundo ele, o ambiente alimentar dos EUA não é muito bom para a prevenção da obesidade.

"Nenhuma das recomendações existe isoladamente", concordou a Dra. Ihuoma. "Elas estão dentro do ambiente em que a criança vive. Estou absolutamente de acordo com vocês de que existem fatores estruturais nos EUA – e em outros lugares, mas alguns específicos nos EUA –, que são barreiras que irão provavelmente afetar a forma como essas recomendações serão implementadas e, na sequência, a eficácia que terão."

A equipe jurídica da American Academy of Pediatrics trabalha com legisladores federais e estaduais, observou. "Continuamos a dialogar com grupos como The Obesity Society e outros vários grandes grupos nos EUA. Estamos otimistas e, com o passar do tempo, lentamente, as coisas vão mudar."

ObesityWeek® 2022. The Obesity Society/American Academy of Pediatrics Joint Symposium. 03 de novembro de 2022

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