Suplementos alimentares anunciados como redutores de LDL são um fracasso: SPORT

Notificação

18 de novembro de 2022

Nenhum dos seis suplementos alimentares comerciais amplamente promovidos e usados para reduzir a lipoproteína de baixa densidade (LDL, sigla do inglês Low-Density Lipoprotein) do colesterol foi mais eficaz do que o placebo em um ensaio clínico randomizado com adultos sem doença cardiovascular, mas com risco cardiovascular elevado.

Em contraste, os adultos que fizeram uso de uma dose baixa de uma estatina de alta potência no estudo comparativo de oito braços mostraram uma queda significativa de 38% nos níveis de LDL ao longo de 28 dias, um desempenho que superou os seis suplementos contendo óleo de peixe, canela, alho, cúrcuma, esteróis vegetais ou arroz vermelho fermentado.

Os suplementos mostraram pouco ou nenhum efeito em todos os biomarcadores lipídicos avaliados, como colesterol total e triglicerídeos, e na proteína C reativa (PCR), que reflete a inflamação sistêmica.

Os achados minam as alegações de marketing generalizadas de que tais suplementos promovem a saúde cardíaca, e podem potencialmente restaurar a fé nas estatinas para muitos pacientes que procuram alternativas, disseram os pesquisadores.

"Todos nós vemos pacientes que têm suas listas de medicamentos repletas de suplementos alimentares", observou o Dr. Luke J. Laffin, médico da Cleveland Clinic Foundation. E não são apenas pacientes cardíacos que utilizam esses suplementos.

Quase US$ 50 bilhões são gastos anualmente em suplementos alimentares nos Estados Unidos, e dados recentes sugerem que mais de três quartos da população os utilizam, 18% deles com base em alegações ilusórias de saúde cardíaca, disse o Dr. Luke em uma apresentação em 6 de novembro nas Sessões Científicas de 2022 da American Heart Association (AHA), realizadas em Chicago e virtualmente.

Os achados do Estudo de Suplementos, Placebo ou Rosuvastatina (SPORT, sigla do inglês Supplements, Placebo, or Rosuvastatin) e a forma como eles são divulgados para o público "são importantes para a saúde pública", disse ele.

"Como cardiologistas, médicos da atenção primária e outros profissionais, nós realmente devemos usar esses resultados para ter discussões baseadas em evidências com os pacientes" sobre o valor das estatinas em baixas doses e a "falta de benefício" dos suplementos, disse o Dr. Luke, que é também primeiro autor do artigo original do SPORT, que foi publicado no mesmo dia no periódico Journal of the American College of Cardiology.

Os pacientes designados à rosuvastatina em baixa dose mostraram uma queda média de 24,4% nos níveis de colesterol total ao longo de 28 dias (o desfecho primário do estudo) em comparação ao grupo placebo e aos grupos de cada suplemento (P <0,001).

Eles também tiveram uma redução média de 19,2% nos triglicerídeos séricos (P < 0,05 para todas as comparações entre os grupos). Nenhum dos seis suplementos foi significativamente diferente do placebo em relação à alteração nos níveis de colesterol total ou triglicerídeos.

Também não houve diferenças significativas nos eventos adversos entre os grupos; não houve alterações adversas nos testes de função hepática ou renal ou nos níveis de glicose; e não houve sinais ou sintomas musculoesqueléticos, de acordo com o relatório publicado.

Como transmitir a mensagem positiva desses resultados

O estudo SPORT é valioso para "preencher a lacuna de dados sobre suplementos e saúde cardiovascular", disse o Dr. Chiadi E. Ndumele, Ph.D., médico da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, como debatedor convidado após a apresentação do Dr. Luke.

Mas os autores também trazem uma mensagem tranquilizadora sobre as estatinas, observou ele. Em um estudo recente de pacientes não aderentes a estatinas, 80% "estavam preocupados com os efeitos colaterais das estatinas como a principal razão para não tomar o medicamento, e 72% preferiam usar suplementos naturais em vez de tomar o tratamento prescrito", disse o Dr. Chiadi. “A razão para isso é claramente desconfiança, desinformação e falta de evidências.”

O próximo passo, propôs o médico, deveria ser levar a mensagem positiva do estudo sobre as estatinas ao público, e especialmente aos pacientes "que hesitam em usar estatinas". O estudo atual "ressalta o fato de que o uso de uma dose baixa de uma estatina de alta potência está associado a um risco muito, muito baixo de efeitos colaterais".

Em uma coletiva de imprensa sobre o SPORT, o Dr. Amit Khera, médico, concordou que o estudo randomizado fornece algumas evidências necessárias que podem ser discutidas com os pacientes. "Se alguém se consulta comigo por causa do colesterol, posso dizer definitivamente agora que pelo menos há dados demonstrando que esses suplementos não ajudam no colesterol, e as estatinas sim." O Dr. Amit dirige o programa de cardiologia preventiva do University of Texas Southwestern Medical Center, nos EUA.

"Acho que para aqueles que estão lá muito especificamente para reduzir o colesterol, espero que isso ressoe", destacou.

"Pessoalmente, não vi muitos danos no uso desses suplementos. Mas também não vi nenhum benefício", disse o Dr. Amit ao Medscape.

"Agora, se você os estiver tomando por outros motivos, que assim seja. Mas se você precisar reduzir o colesterol por motivos de saúde cardiovascular", disse ele, "é preciso saber que eles são minimamente ou nada eficazes".

Mas esses suplementos ainda "não são isentos de danos", propôs o Dr. Luke na entrevista coletiva. Por exemplo, eles têm potencial para interações medicamentosas, "não apenas com medicamentos cardiovasculares, mas aqueles tomados por outros motivos", disse ele. "Existem 90.000 suplementos no mercado nos Estados Unidos hoje, e há todos os tipos de possíveis problemas de segurança associados a eles."

Quanto às discussões com pacientes, o Dr. Luke disse: "Não acho que seja bom o suficiente dizer que você pode desperdiçar seu dinheiro [com suplementos], desde que esteja tomando sua estatina. Isso pode ser prejudicial em certas situações".

O SPORT, descrito como um estudo monocêntrico, designou aleatoriamente 199 participantes de "todo o Cleveland Clinic Health System no nordeste de Ohio, nos EUA" para um dos oito grupos de tratamento. Os pesquisadores estavam cegos para os tipos de tratamento realizados, relatou o Dr. Luke.

Alta adesão

Os critérios de inclusão foram idade de 40 a 75 anos, sem história de doença cardiovascular, colesterol LDL de 70 a 189 mg/dL e risco de 5% a 20% de doença cardiovascular aterosclerótica em dez anos pelas equações de coorte agrupadas. A coorte era predominantemente branca, os participantes tinham em média 64,4 anos de idade e 59% eram mulheres.

Eles foram designados para receber 5 mg de rosuvastatina diariamente, placebo ou doses diárias de suplementos, com 25 pacientes por grupo, exceto o grupo do óleo de peixe, que incluiu 24 pacientes.

As doses diárias dos suplementos foram de 2.400 mg de óleo de peixe; 2.400 mg de canela, 5.000 mcg de alicina para o alho, 4.500 mg de curcumina proveniente da cúrcuma, 1.600 mg de esteróis vegetais e 2.400 mg de arroz vermelho fermentado.

A adesão aos regimes designados foi alta, disse o Dr. Luke, uma vez que apenas quatro participantes tomaram menos de 70% das doses designadas.

Os níveis de colesterol LDL no grupo das estatinas caíram 37,9% em 28 dias e 35,2% em relação ao grupo placebo (P < 0,001 para ambas as diferenças), enquanto nenhuma alteração no colesterol LDL entre os pacientes que tomaram a maioria dos suplementos foi significativamente diferente do grupo placebo. É importante notar que os níveis de colesterol LDL aumentaram 7,8% (P = 0,01) no grupo designado para o suplemento de alho em comparação com o grupo placebo.

A rosuvastatina não teve efeito aparente nos níveis de colesterol HDL, nem a maioria dos suplementos; mas esses níveis em pacientes que tomaram o suplemento de esteróis vegetais diminuíram em 7,1% (P = 0,02) em comparação com placebo e em 4% (P = 0,01) em comparação com o grupo de estatina.

Nenhum dos grupos que não eram de controle, incluindo aqueles atribuídos à rosuvastatina, apresentou alterações significativas nos níveis de PCR de alta sensibilidade em comparação com o grupo placebo. A falta de efeito da rosuvastatina no biomarcador inflamatório, especularam os pesquisadores, provavelmente é explicada pela baixa dose das estatinas, bem como pelo tamanho limitado da população do estudo.

Houve dois eventos adversos graves: um evento de trombose venosa profunda no grupo placebo e um adenocarcinoma de fígado em um paciente atribuído ao grupo do óleo de peixe que "ainda não havia tomado nenhum medicamento do estudo no momento do evento adverso grave", conforme observado na publicação.

Permanece em aberto se algum dos regimes designados pode mostrar resultados diferentes em longo prazo, disse o Dr. Luke. A duração de 28 dias do estudo SPORT, disse ele, "pode não ter capturado totalmente o impacto dos suplementos nos biomarcadores lipídicos e inflamatórios".

Também não se sabe se os suplementos podem afetar potencialmente os resultados clínicos. Mas "você poderia argumentar que seria antiético" randomizar pacientes semelhantes para um estudo de resultados cardiovasculares controlado por placebo comparando os mesmos seis suplementos e uma estatina.

O Dr. Luke J. Laffin informou atuar como consultor ou em comitê de direção para a Medtronic, Lilly, Mineralys Therapeutics, AstraZeneca e Crispr Therapeutics; receber fundo de pesquisa da AstraZeneca; e ter direito de propriedade na LucidAct Health e Gordy Health. O Dr. Chiadi E. Ndumele e o Dr. Amit Khera informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

Sessões Científicas de 2022 da American Heart Association. Abstract LBS.05. Apresentado em 06 de novembro de 2022.

J Am Coll Cardiol. Publicado on-line em 06 de novembro de 2022. Texto completo

Siga Steve Stiles no Twitter:  @SteveStiles2 .

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....