Mudanças climáticas, epigenética, mídias sociais e o aumento do risco cardiovascular

Pamella Lima (colaboraram Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

16 de novembro de 2022

Os organizadores do 77º Congresso Brasileiro de Cardiologia (CBC) | World Congress of Cardiology (WCC) 2022 utilizaram a multidisciplinaridade do conhecimento científico para abordar as atualizações dos fatores de risco cardiovascular. O debate ocorreu de forma presencial durante o evento realizado no Rio de Janeiro. Na sessão, pesquisadores apontaram questões ligadas ao impacto do clima, da epigenética e da superexposição digital na saúde cardiovascular.

Quem abriu a discussão foi o coordenador do bacharelado em Engenharia de Recursos Hídricos e do Meio ambiente da Universidade Federal Fluminense (UFF), Márcio Cataldi, que apresentou conceitos e hipóteses relacionados à variabilidade e mudança climáticas, citando seus possíveis impactos na saúde da população. Segundo Márcio, a época geológica atual (Holoceno) é caracterizada pela estabilidade nas temperaturas médias globais. No entanto, especialmente nos últimos 150 anos, a ação antrópica tem prejudicado esse equilíbrio, levando à intensificação do efeito estufa, causado pela retenção de calor pelos gases atmosféricos.

De acordo com o especialista, embora ainda não tenhamos chegado a um ponto irreversível das mudanças climáticas, as queimadas têm sido um importante fator de desequilíbrio no planeta. Também coordenador do Laboratório de Monitoramento e Modelagem do Sistema Climático (LAMMOC), Márcio também utilizou simulações computacionais para apresentar teses e mostrar o aumento da intensidade da radiação solar na Terra e a acentuação do efeito estufa. O professor também discutiu sobre o quanto essas anomalias foram subestimadas, e como o aquecimento tem sido mais rápido do que se imaginava.

E qual seria a interseção desses efeitos combinados do aquecimento global e da poluição atmosférica com a saúde? Márcio comentou sobre um estudo recente, publicado na NatureReviews Cardiology em 2021, [1] que correlaciona as mudanças climáticas a um aumento no risco de eventos e doenças cardiovasculares na população. De acordo com a pesquisa, as mudanças ambientais estão diretamente ligadas ao crescimento do número de mortes relacionadas ao calor na Europa. “Portanto, essas questões devem ser consideradas nos esforços de prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares”, afirmou.

Segundo o pesquisador, análises hemodinâmicas [2] mostram que a circulação sanguínea sofre alterações quando o organismo é submetido a altas temperaturas, e essas mudanças se correlacionam com o risco aumentado de eventos cardiovasculares. Para explicar essa ideia, ele fez uma analogia, ora comparando o sangue a um fluido newtoniano, como a água, ora a um fluido não newtoniano, como a pasta de dentes. “Quando o indivíduo não se hidrata e começa a perder água, a viscosidade do sangue aumenta. Com esse aumento, o sangue ‘agarra’ mais nas paredes; ou seja, se antes escorria como fluido, agora passa a escorrer pela veia como pasta de dente, podendo aumentar as chances de infarto”, argumentou.

O cardiologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Dr. Anderson Donelli da Silveira, especialista em exercício e cardiologia esportiva, abordou a complexa interação entre fatores ambientais na “modulação” do genoma. Segundo o médico, a epigenética — e como ela se relaciona com as mudanças ao longo da vida do indivíduo — é um importante campo de pesquisa para revelar novos fatores de risco cardiovascular.

Apesar da afirmação, o Dr. Anderson ressaltou que a literatura científica da epigenética em trabalhos na área da cardiologia ainda não é muito robusta, pelo menos não como ocorre nos estudos de câncer. Segundo ele, no PubMed, há cerca de seis mil trabalhos em cardiologia versus aproximadamente 55 mil em oncologia. “Ainda estamos engatinhando nesse campo. A parte de neoplasias está mais avançada”, disse ele.

O médico ainda enumerou os principais fatores ambientais que influenciam na epigenética: “dieta, ritmo circadiano, infecções, prática de exercícios físicos, poluição ambiental, microbiota, uso de drogas, problemas financeiros, estresse psicológico, contato social, tratamentos medicamentosos e saúde mental”.

Outra observação importante destacada pelo cardiologista é que as modificações epigenéticas podem ocorrer tanto no período pré-natal quanto no pós-natal e são transmitidas de uma geração para outra. “Contudo, apesar da natureza herdada[dessas alterações], elas podem ser revertidas através de agentes farmacológicos e terapias”, alertou.

O Dr. Anderson, que também é especialista em medicina esportiva, destacou como a prática de esporte tem potencial de provocar modificações em nível cardiovascular, como o remodelamento metabólico, o aumento da acetilação, da produção de GLUT4 (transportador de glicose 4) e da contratilidade cardíaca. No entanto, ele explicou que ainda é preciso realizar mais estudos científicos para explorar melhor os mecanismos de casualidade a fim de embasar o desenvolvimento de estratégias preventivas e terapêuticas.

O cardiologista Dr. Marcelo Haertel Miglioranza, também do Rio Grande do Sul, falou sobre os possíveis problemas da imersão no meio digital, principalmente para os mais jovens. “Nos dias atuais, estamos extremamente expostos aos dispositivos eletrônicos no trabalho, em casa e nas interações sociais”, ressaltou. O médico apontou que o uso intensivo desses dispositivos é particularmente mais grave para os indivíduos nascidos depois de 2010, que mantêm um tempo de exposição às telas superior ao recomendado pelas diretrizes médicas.

E qual o impacto dessa exposição excessiva na saúde de crianças e adolescentes? O Dr. Marcelo citou alguns estudos europeus e norte-americanos [3,4,5]que associaram a diminuição do tempo de atividade física, o sedentarismo e a má alimentação — possíveis consequências do aumento das interações digitais — a maior risco de obesidade, doenças cardiovasculares e comorbidades relacionadas.

Apesar de a correlação entre o uso de dispositivos eletrônicos e problemas cardiovasculares ser forte entre os jovens, o especialista fez duas ressalvas: a primeira sobre o tipo de exposição digital, que pode ser passiva ou ativa. A segunda ressalva foi sobre a metodologia dos trabalhos. “Embora alguns fatores comportamentais tenham desdobramentos em hábitos de vida, não houve ainda correlação consistente [do uso mais intensivo de dispositivos eletrônicos] com alterações no lipidograma, ou com síndrome metabólica e pressão alta, por exemplo”, disse.

Ainda assim, de acordo com o Dr. Marcelo, é possível estabelecer relações fortes entre o consumo de conteúdo digital e má alimentação ou problemas de ansiedade associados à exposição ao marketing veiculado nas mídias sociais. “A propaganda de hábitos alimentares tem impacto na vida dos jovens e já foi associada ao aumento do uso de mídias e a uma alimentação de pior qualidade, além de à ansiedade”, disse ele, complementando que o formato do conteúdo digital afeta o comportamento das crianças. “Elas passam a querer tudo pronto e imediatamente, e quando se afastam da tela, ficam entediadas.” 

Ao finalizar, ele alertou: “a nova geração está crescendo com hábitos viciados e isso vai aumentar o risco cardiovascular em longo prazo. Temos de repensar como trabalhar [essas questões] com os nossos filhos. A criança precisa de momentos de tédio e também desenvolver outras habilidades, imaginativas e lúdicas, para se entreter”.

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