Covid-19 prolongada: fármaco usado na dependência química parece promissor

Julie Steenhuysen

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16 de novembro de 2022

Estados Unidos (Reuters) ꟷ Lauren Nichols, 34 anos, especialista em logística do Department of Transportation nos Estados Unidos, vem apresentando dificuldade de raciocínio e concentração, fadiga, convulsões, cefaleia e dor desde quando teve covid-19, no início do segundo trimestre de 2020.

Em junho, seu médico sugeriu que ela tomasse baixas doses de naltrexona, um medicamento genérico normalmente utilizado para tratar dependentes de bebidas alcoólicas e/ou opiáceos. Depois de passar mais de dois anos em "uma névoa espessa e opaca", ela disse conseguir “pensar com clareza". Os pesquisadores em busca da cura para a covid-19 prolongada estão ansiosos para saber se esse medicamento pode oferecer benefícios similares às milhões de pessoas que sofrem de dor, fadiga e confusão mental meses após a infecção pelo coronavírus.

O fármaco tem sido utilizado com algum sucesso no tratamento de uma síndrome complexa semelhante, pós-infecciosa, caracterizada por déficits cognitivos e fadiga importante chamada encefalomielite miálgica, ou síndrome da fadiga crônica. Com base no uso da naltrexona no tratamento da síndrome da fadiga crônica e em alguns estudos-piloto sobre covid-19 prolongada, existem agora pelo menos quatro ensaios clínicos planejados para testar o medicamento em centenas de pacientes com covid-19 prolongada, segundo uma revisão do ClinicalTrials.gov feita pela Reuters e entrevistas com 12 pesquisadores em síndrome da fadiga crônica e covid-19 prolongada. O fármaco está também na lista de tratamentos a serem testados a partir da Iniciativa RECOVER (Researching COVID to Enhance Recovery) dos National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos — com investimento de um bilhão de dólares —, que visa descobrir causas subjacentes e encontrar tratamentos para a covid-19 prolongada, segundo os conselheiros do ensaio clínico disseram à Reuters.

Ao contrário dos tratamentos destinados a sintomas específicos causados por lesões da covid-19 nos órgãos, como os pulmões, a naltrexona em baixa dose pode reverter alguns dos sintomas subjacentes da doença, disseram.

A naltrexona tem propriedades anti-inflamatórias e há anos vem sendo usada em baixas doses para tratar doenças como fibromialgia, doença de Crohn e esclerose múltipla nos EUA, disse o Dr. Jarred Younger, diretor do Neuro-inflammation, Pain and Fatigue Laboratory da University of Alabama nos EUA.

Na dose de 50 miligramas (10 vezes a baixa dose), a naltrexona é aprovada para tratar a dependência de bebidas alcoólicas e opioides nos EUA. Vários fabricantes de medicamentos genéricos vendem o fármaco em comprimidos de 50 mg, mas é necessário recorrer a farmácias de manipulação no país para comprar a naltrexona em baixa dose.

O Dr. Jarred, autor de uma revisão científica deste medicamento como novo anti-inflamatório, apresentou em setembro um pedido de subsídios para estudar o uso de naltrexona em baixas doses no tratamento da covid-19 prolongada. "Deveria estar no topo da lista de todos os ensaios clínicos", disse ele.

Ainda assim, é improvável que o medicamento ajude todos os pacientes com covid-19 prolongada, que reúne cerca de 200 sintomas, abrangendo desde dor e palpitação cardíaca até insônia e comprometimento cognitivo. Um estudo sobre síndrome da fadiga crônica feito com 218 pacientes constatou que 74% dos pacientes tiveram melhora do sono, diminuição da dor e dos distúrbios neurológicos.

"Não é uma panaceia", disse Jaime Seltzer, pesquisador da Stanford University e chefe da divulgação científica para o grupo de defesa de direitos MEAction. "Essas pessoas não foram curadas, mas elas receberam ajuda."

O Dr. Jack Lambert, especialista em doenças infecciosas da Escola de Medicina da University College Dublin na Irlanda, usou a naltrexona em baixa dose para tratar a dor e a fadiga associadas à doença de Lyme crônica.

Durante a pandemia, Dr. Jack recomendou a naltrexona em baixa dose para colegas que tratavam pacientes com sintomas persistentes após episódios de covid. Funcionou tão bem que ele fez um estudo piloto com 38 pacientes com covid-19 prolongada. Os participantes relataram melhoras em sintomas como indisposição, dor, falta de concentração, insônia, além de boa recuperação geral da covid-19 após dois meses, conforme os descobertas publicadas em julho.

Dr. Jack, que está planejando um ensaio maior para confirmar esses resultados, afirma acreditar que a naltrexona em baixa dose pode curar as sequelas da covid e não só mascarar seus sintomas.

Entre os ensaios clínicos planejados com naltrexona em baixa dose há uma pesquisa elaborada na University of British Columbia no Canadá e um estudo piloto feito pela startup AgelessRx nos Estados Unidos. Esse ensaio feito com 36 voluntários deve ter resultados até o final do ano, disse o cofundador da empresa Sajad Zalzala. Os cientistas ainda tentando explicar o mecanismo de ação da naltrexona em baixa dose. Experimentos realizados pela Dr. Sonya Marshall-Gradisnik do National Centre for Neuroimmunology and Emerging Diseases na Austrália sugerem que os sintomas de síndrome da fadiga crônica e covid-19 prolongada são provenientes de uma redução significativa da função das células citotóxicas do sistema imunitário. Em testes laboratoriais, a naltrexona em baixa dose pode ter ajudado a restabelecer a função normal dessas células, uma hipótese que ainda precisa ser confirmada. Outros acreditam que as infecções afetam as micróglias, células imunes do sistema nervoso central, induzindo-as a produzir citocinas, moléculas inflamatórias causadoras da fadiga e de outros sintomas associados à síndrome da fadiga crônica e à covid-19 prolongada. O Dr. Jarred acredita que a naltrexona acalma estas células imunitárias hipersensibilizadas.

Dr. Zach Porterfield, virologista da University of Kentucky e copresidente de uma iniciativa da RECOVER que pretende estudar pontos comuns entre a covid-19 prolongada e outras síndromes pós-infecciosas, disse ter recomendado que a naltrexona em baixa dose fosse incluída nos ensaios clínicos terapêuticos da RECOVER. Outros tratamentos sendo considerados, segundo fontes de informação, são os antivirais, como o nirmatrelvir + ritonavir (Paxlovid da Pfizer Inc.), anticoagulantes, corticoides e suplementos nutricionais. Os responsáveis pelo RECOVER afirmam que receberam dezenas de propostas e que não poderiam comentar quais medicamentos serão testadas até que os ensaios clínicos estejam concluídos. O Dr. Hector Bonilla, codiretor da Stanford Post-Acute COVID-19 Clinic e consultor da RECOVER, utilizou a naltrexona em baixa dose em 500 pacientes com encefalomielite miálgica/síndrome da fadiga crônica, e cerca de metade deles relatou melhoras nos sintomas.

O Dr. Hector estudou o uso de baixas doses de naltrexona em 18 pacientes com covid-19 prolongada, dos quais 11 apresentaram melhoras. Ele acredita que estudos formais maiores podem determinar se a naltrexona em baixa dose realmente ajuda nesse tratamento. Lauren, uma paciente conselheira da RECOVER, ficou “em êxtase" quando soube que a naltrexona em baixa dose estava sendo considerada para os ensaios clínicos financiados pelo governo. Embora a naltrexona em baixa dose não tenha resolvido todos os seus problemas relacionados com a covid-19 prolongada, Lauren pode agora trabalhar o dia todo sem fazer pausas e ter uma vida social em casa. "Isso fez eu me sentir uma pessoa novamente."

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