'Lucidez à beira da morte': EEG endossa relatos de 'semimorte' durante RCP

Megan Brooks

Notificação

15 de novembro de 2022

Registros de ondas cerebrais obtidos durante a reanimação cardiopulmonar respaldam experiências subjetivas de “semimorte” descritas por pessoas que sobreviveram a uma parada cardíaca, de acordo com novo estudo.

"Essas experiências evocadas e as modificações das ondas cerebrais podem ser os primeiros sinais da chamada experiência de ‘semimorte’, e pela primeira vez nós as capturamos em um grande estudo", disse em um comunicado de imprensa o pesquisador responsável, o Dr. Sam Parnia, Ph.D., médico afiliado à NYU Langone Health nos Estados Unidos.

A identificação de sinais elétricos mensuráveis de uma atividade cerebral lúcida e intensa durante a reanimação cardiopulmonar, somada às lembranças de “semimorte”, sugere que o “sentido de si” e a consciência humana, bem como outras funções biológicas do organismo, podem não cessar completamente no momento da morte, acrescentou o Dr. Sam.

O pesquisador apresentou os achados em 06 de novembro no simpósio de ciências da reanimação realizado nas sessões científicas de 2022 da American Heart Association (AHA), nos Estados Unidos.

Estudo AWARE II

"Há anos, algumas pessoas com história de parada cardíaca descrevem que estavam lúcidas, muitas vezes com um sentido de consciência aumentado, enquanto aparentemente inconscientes e à beira da morte", observou o Dr. Sam em uma entrevista para o Medscape.

"No entanto, ninguém pôde provar isso, e muitos rejeitaram essas experiências, achando que tudo seria apenas um truque do cérebro", disse o Dr. Sam.

Em um primeiro estudo, Dr. Sam e colaboradores examinaram a consciência e seus biomarcadores eletrocorticais subjacentes durante a reanimação cardiopulmonar em casos de parada cardíaca intra-hospitalar.

Os pesquisadores incorporaram testes audiovisuais independentes de consciência com monitorização contínua do eletroencefalograma e da oxigenação cerebral (rSO2) em tempo real durante a reanimação cardiopulmonar.

Apenas 53 dos 567 pacientes que sofreram parada cardíaca intra-hospitalar sobreviveram (9,3%). Entre os 28 (52,8%) sobreviventes que foram entrevistados, 11 (39,3%) descreveram experiências únicas e lúcidas durante a reanimação.

Essas experiências incluíram a percepção de separação do corpo, permitindo a observação dos eventos sem dor ou angústia, e uma consciência e avaliação significativa da vida, incluindo das ações, intenções e pensamentos do indivíduo em relação aos outros.

"As experiências lúcidas de morte não são alucinações ou delírios. Não podem ser consideradas um truque de um cérebro desordenado ou morrendo, mas sim uma experiência humana única, que ocorre à beira da morte", disse o Dr. Sam para o Medscape

As experiências lúcidas de morte não são alucinações ou delírios. Não podem ser consideradas um truque de um cérebro desordenado ou morrendo, mas sim uma experiência humana única, que ocorre à beira da morte. Dr. Sam Parnia

E “o fascinante”, disse o Dr. Sam, é que apesar da acentuada isquemia cerebral (saturação regional média de oxigênio [rSO2] de 43%), a atividade eletroencefalográfica quase normal/fisiológica (ritmos γ, δ, θ, α e β) compatível com a consciência e a possível retomada de um nível de rede de atividade cognitiva e neuronal ocorreram por até 35 a 60 minutos de reanimação cardiopulmonar.

Algumas dessas ondas cerebrais normalmente ocorrem quando as pessoas estão conscientes e realizando funções mentais superiores, como raciocínio, lembrança e percepção consciente, disse o pesquisador.

‘Mudanças sísmicas’ na compreensão da morte

Esta é a primeira vez que esses biomarcadores de consciência foram identificados durante a parada cardíaca e a reanimação cardiopulmonar, disse o Dr. Sam.

O autor lembrou que mais estudos são necessário para definir com mais precisão os biomarcadores do que é considerado consciência clínica, a experiência evocada da morte e para monitorar os efeitos psicológicos em longo prazo da reanimação após uma parada cardíaca.

"Nossa compreensão sobre a morte passou por uma mudança sísmica nos últimos anos", disse o Dr. Sam para o Medscape.

"As descobertas biológicas em torno da morte e do período postmortem são completamente diferentes das convenções sociais que temos sobre a morte. Isto é, nós percebemos a morte como sendo o fim, mas realmente o que estamos descobrindo é que as células cerebrais não morrem imediatamente. Morrem muito lentamente ao longo de muitas horas", observou o Dr. Sam.

Convidado pelo Medscape a comentar o estudo, o Dr. Ajmal Zemmar, Ph.D., médico afiliado à University of Louisville nos EUA, observou que vários estudos, inclusive este, "desafiam a maneira como tradicionalmente pensamos sobre a morte — que quando o coração para de bater é o momento em que nós morremos".

A observação de que, durante a parada cardíaca e a reanimação cardiopulmonar, as ondas cerebrais ainda estão normais durante até uma hora é notável, disse o Dr. Ajmal para o Medscape.

"No entanto, se há uma percepção consciente ou não é muito difícil de responder", o alertou o médico. 

"Este tipo de pesquisa tenta fazer a ponte entre as gravações objetivas do eletroencefalograma e a descrição subjetiva obtida do paciente, mas é difícil saber quando a percepção consciente cessa", disse.

O financiamento e o apoio ao estudo foram feitos pela NYU Langone Health, pela John Templeton Foundation, pelo Resuscitation Council UK e pelos National Institutes for Health and Care Research. O Dr. Sam Parnia e o Dr. Ajmal Zemmar informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

American Heart Association (AHA) 2022 Scientific Sessions: Resuscitation Science Symposium 2022. Abstract 20. Apresentado em 06 de novembro de 2022.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....