Diferentes tipos de leite e laticínios podem estar associados a diferentes desfechos cardiovasculares

Fran Lowry

Notificação

14 de novembro de 2022

Resultados de um estudo observacional sobre a relação entre a ingestão de laticínios e o risco de eventos cardiovasculares em pacientes com angina estável sugerem que diferentes laticínios podem ter diferentes efeitos na saúde.

O estudo, que analisou uma coorte do Western Norway B-vitamin Intervention Trial (WENBIT), mostrou que o consumo elevado de leite e laticínios foi associado ao aumento do risco de morte e acidente vascular cerebral (AVC), o consumo de manteiga foi associado ao aumento do risco de infarto agudo do miocárdio (IAM) e o consumo de queijo foi associado a uma diminuição do risco de IAM.

Os achados foram publicados no periódico European Journal of Preventive Cardiology. 

"Os laticínios são um grupo alimentar diversificado. Os diferentes laticínios devem ser considerados individualmente e não apenas combinados", disse ao Medscape o autor sênior, Vegard Lysne, mestre em Ciências, vinculado ao Centro de Nutrição da Universidade de Bergen e ao Departamento de Cardiologia do Hospital Universitário de Haukeland, ambos na Noruega.

Vegard Lysne

"As atuais recomendações nutricionais em relação ao [consumo] de laticínios são baseadas principalmente no conteúdo nutricional, com foco no cálcio, no iodo e na gordura saturada", disse Vegard.

Estudos anteriores indicam que diferentes laticínios podem influenciar a saúde cardiovascular de maneiras diferentes, até mesmo opostas, mas isso foi investigado primariamente em populações saudáveis, ele observou.

"Os dados sobre pacientes com doenças cardiovasculares (DCV) são escassos e, por isso, desejávamos investigar a questão em uma população de pacientes com DCV estabelecida. Nosso principal objetivo neste estudo foi explorar como a ingestão de diferentes laticínios poderia estar relacionada a desfechos cardiovasculares e mortalidade nessa população", disse ele.

Os pesquisadores analisaram 1.929 pacientes com angina estável que faziam inscritos no WENBIT, um estudo prospectivo de prevenção secundária, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, que investigou o efeito do tratamento com vitamina B na mortalidade e nos desfechos cardiovasculares dos participantes.

A maior parte da coorte (80%) era composta de homens e a média de idade dos pacientes era de 61,8 anos. Além da angina estável, 47% dos participantes da coorte tinham hipertensão, 31% tinham diabetes e 29% fumavam. A maioria (90%) tomava ácido acetilsalicílico, 90% usavam estatinas e 77% usavam betabloqueadores.

Os dados alimentares foram obtidos através de um questionário de frequência alimentar, entregue aos pacientes na primeira consulta e devolvido pelo correio ou na consulta de acompanhamento, um mês após a consulta inicial.

A frequência de consumo foi determinada em função do número de vezes por dia, semana e mês, ou pela ausência de consumo. A quantidade foi estimada a partir das unidades, como fatias, pedaços ou medidas caseiras.

A variável leite incluiu os seguintes tipos: integral, semidesnatado, desnatado ou não especificado. A variável queijo incluiu os seguintes tipos: queijo marrom, um queijo norueguês parecido com caramelo, feito de soro de leite, leite e nata; queijo branco; queijos cremosos; queijos cozidos/processados e queijos embalados.

O total de laticínios foi definido pela soma, em gramas, do consumo de leite, queijo, iogurte, creme de leite, creme azedo, sorvete e manteiga.

O tempo médio de acompanhamento foi de 5,2 anos para AVC, 7,8 anos para IAM e 14,1 anos para mortalidade.

Os pacientes que relataram maior ingestão total de laticínios e de leite tiveram maior risco de AVC e mortalidade.

Entre os pacientes que relataram maior ingestão total de laticínios, a razão de risco (RR) de AVC foi de 1,4 (intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,02 a 1,27).

Entre os pacientes que relataram maior ingestão de leite, a RR de AVC foi de 1,13 (IC 95% de, 1,02 a 1,27).

A mortalidade cardiovascular também foi maior entre os participantes que relataram maior ingestão total de laticínios (RR de 1,06; IC 95% de 1,00 a 1,12) e entre aqueles que relataram maior ingestão de leite (RR de 1,07; IC 95% de 1,01 a 1,13).

De forma similar, a mortalidade por todas as causas foi maior nos pacientes que relataram maior ingestão total de laticínios (RR de 1,07; IC 95% de 1,03 a 1,11) e naqueles que relataram maior ingestão de leite (RR de 1,06; IC 95% de 1,03 a 1,10).

A maior ingestão de queijo foi inversamente associada ao risco de IAM (RR de 0,92; IC 95% de 0,83 a 1,02).

A manteiga foi associada ao aumento do risco de IAM (RR de 1,10; IC 95% de 0,97 a 1,24) e de mortalidade por todas as causas (RR de 1,10; IC 95% de 1,00 a 1,20).

Vegard enfatizou que os resultados são de um estudo observacional e que os médicos não devem mudar suas orientações aos pacientes com base apenas nesses resultados.

"Existe uma literatura crescente indicando que o queijo possa estar ligado à redução do risco cardiovascular, mas ainda não se sabe se este seria um efeito causal ou se o queijo seria um marcador de status socioeconômico mais elevado e um estilo de vida mais saudável", disse ele.

"Gostaria que os próximos estudos avaliassem os laticínios individualmente, em vez de agrupados. Se os dados sugerem que diferentes laticínios têm efeitos distintos na saúde, isso deve ser aplicado às recomendações nutricionais", acrescentou o pesquisador.

Laticínios: um grupo alimentar heterogêneo

"Esses resultados não são exatamente surpreendentes, pois já ouvimos há muito tempo orientações para consumir leite desnatado, evitar leite integral e assim por diante, portanto, esse estudo confirma o que já sabemos", disse ao Medscape o médico Dr. Qi Sun, doutor em ciências e professor associado dos departamentos de nutrição e epidemiologia da Harvard TH Chan School of Public Health, nos EUA.

"Entretanto, eu seria mais específico sobre o leite e não vi dados sobre o teor de gordura dos diferentes tipos de leite. Os dados do estudo mostram apenas a associação [relacionada] à soma dos tipos de leite. Gostaria de ver os dados do leite desnatado versus leite integral em relação às doenças cardíacas", disse o Dr. Qi.

"Eles também dizem em sua conclusão que o queijo foi associado a uma diminuição do risco de IAM mas, como mostra a razão de risco, essa não é uma associação significativa", disse ele.

O Dr. Qi reconheceu que os laticínios são um grupo alimentar heterogêneo e que é melhor considerar cada tipo de forma separada ao em relação à saúde cardiovascular.

"Por exemplo, o creme de leite fresco e a manteiga contêm muita gordura saturada. Além disso, temos o iogurte, que também é produzido em versões integrais, semidesnatadas e desnatadas, e é um alimento fantástico. Eu diria que é muito saudável e está associado a um menor risco de doenças cardíacas e diabetes, por isso, é um bom tipo de laticínio. O iogurte e os laticínios fermentados provavelmente são benéficos, no mínimo mais benéficos do que o leite integral ou a manteiga. Acho que a manteiga e o leite integral ainda são os principais laticínios a se evitar para reduzir o risco de doenças cardiovasculares", disse ele.

Vegard e o Dr. Qi Sun informaram não ter conflitos de interesses relevantes. 

Eur J Prev Cardiol. 2022; zwac217. Abstract

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