Cirurgia bariátrica pode aumentar risco de epilepsia

Batya Swift Yasgur

Notificação

12 de outubro de 2022

Cirurgia bariátrica pode aumentar o risco de epilepsia, sugere nova pesquisa.

A partir de uma análise de prontuários, pesquisadores compararam quase 17.000 pacientes que realizaram cirurgia bariátrica a mais de 620.000 indivíduos com obesidade que não fizeram o procedimento.

Em um período mínimo de três anos de acompanhamento, o grupo cirúrgico apresentou um risco de epilepsia 45% maior do que o grupo não cirúrgico. Além disso, os pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC) após a cirurgia bariátrica tiveram probabilidade 14 vezes maior de apresentar epilepsia do que os pacientes que não sofreram AVC.

“Ao considerar a cirurgia bariátrica, os pacientes devem conversar com os respectivos médicos sobre os riscos e benefícios [do procedimento]”, disse ao Medscape o médico e pesquisador sênior, Dr. Jorge Burneo, catedrático especializado em epilepsia e professor de neurologia, bioestatística e epidemiologia na Western University, no Canadá.

"A perda ponderal gera diversos benefícios à saúde, mas nossos achados sugerem que a epilepsia possa ser um risco no longo prazo associado à cirurgia bariátrica para perda de peso", disse o Dr. Jorge.

Os achados foram publicados on-line em 28 de setembro no periódico Neurology.

Fator de risco não reconhecido? 

A cirurgia bariátrica se tornou mais comum à medida que as taxas globais de obesidade aumentaram, e já foi demonstrado que o procedimento reduz o risco de doenças graves relacionadas à obesidade, observaram os pesquisadores.

Entretanto, "além dos desfechos positivos da cirurgia bariátrica, também foram identificadas várias complicações neurológicas crônicas", escreveram eles.

Um estudo anterior descreveu um aumento no risco de epilepsia após a cirurgia de derivação gástrica. Esses achados "sugerem que a cirurgia bariátrica seja um fator de risco de epilepsia não reconhecido, no entanto, essa possível associação não foi completamente explorada", escreveram os pesquisadores.

O Dr. Jorge disse ter conduzido o estudo, pois atendeu pacientes com epilepsia em seu consultório "sem fatores de risco, com ressonâncias magnéticas normais, que tinham em comum o histórico de cirurgia bariátrica anterior ao desenvolvimento da epilepsia".

O objetivo primário dos pesquisadores foi "avaliar se o risco de epilepsia aumentaria ou não após a cirurgia bariátrica para perda de peso, em relação a uma coorte não cirúrgica de pacientes com obesidade", observou ele.

O estudo utilizou bancos de dados de saúde compostos de registros administrativos cruzados de Ontário, no Canadá. Foram selecionados os dados de pacientes de 1º de julho de 2010 a 31 de dezembro de 2016, e eles foram acompanhados até 31 de dezembro de 2019. A análise incluiu 639.472 participantes, dos quais 2,7% haviam sido submetidos à cirurgia bariátrica.

A coorte "exposta" foi composta de todos os residentes de Ontário a partir de 18 anos de idade que se submeteram à cirurgia bariátrica no período de seis anos mencionado (n = 16.958; 65,1% mulheres; média de idade: 47,4 anos). Já a coorte "não exposta" foi composta de pacientes internados com diagnóstico de obesidade que não foram submetidos à cirurgia bariátrica (n = 622.514; 62,8% mulheres; média de idade: 47,6 anos).

Pacientes com história de convulsão, epilepsia, fatores de risco de epilepsia, neurocirurgia prévia, transtornos psiquiátricos e abuso/dependência de álcool ou drogas foram excluídos da análise.

Os pesquisadores coletaram dados sobre características sociodemográficas dos pacientes na data índice, além de escores no Índice de Comorbidade de Charlson nos dois anos anteriores à data índice, além de dados sobre diversas comorbidades específicas, como diabetes mellitus, hipertensão, apneia do sono, depressão/ansiedade e fatores cardiovasculares.

As coortes expostas e não expostas foram acompanhadas por um período médio de 5,8 e 5,9 pessoas-ano, respectivamente.

Mecanismos "obscuros" 

Os dados sem ponderação mostraram que 0,4% dos participantes da coorte exposta (n = 73) desenvolveram epilepsia versus 0,2% dos participantes da coorte não exposta (n = 1.260) ao final do período de acompanhamento.

Após a ponderação das coortes, foram verificados 50,1 diagnósticos de epilepsia por 100.000 pessoas-ano (coorte exposta) vs. 34,1 diagnósticos de epilepsia por 100.000 pessoas-ano (coorte não exposta), com uma diferença de 16 diagnósticos por 100.000 pessoas-ano.

A análise multivariada da coorte ponderada mostrou que a razão de risco (RR) dos casos de epilepsia associados à cirurgia bariátrica foi de 1,45 (intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,35 a 1,56), após o ajuste para apneia do sono e a inclusão do AVC como covariável tempo-dependente.

A ocorrência de AVC durante o período de acompanhamento aumentou o risco de epilepsia em 14 vezes na coorte exposta (RR de 14,03, IC 95% de 4,25 a 46,25).

Os pesquisadores observaram que não foram capazes de quantificar o status de obesidade ou índice de massa corporal durante o estudo e que algumas comorbidades relacionadas à obesidade "podem afetar o risco de epilepsia".

Além disso, o Dr. Jorge relatou que o estudo não investigou potenciais causas e mecanismos da associação entre a cirurgia bariátrica e o risco de epilepsia.

As hipóteses "incluem possíveis deficiências nutricionais, história de anestesia geral ou outras causas não muito claras", disse ele.

"As próximas pesquisas devem investigar a epilepsia como uma possível complicação crônica da cirurgia bariátrica, explorando os possíveis efeitos desse procedimento", acrescentou o Dr. Jorge.

Discussão sobre o risco-benefício 

Comentando para o Medscape, a médica Dra. Jacqueline French, professora de neurologia na New York University (NYU) Grossman School of Medicine e diretora do NYU’s Epilepsy Study Consortium, ambos nos Estados Unidos, disse que "não ficou 100% surpresa com os achados", pois tem visto em sua prática clínica "vários pacientes que desenvolveram epilepsia após a cirurgia bariátrica ou tinham um histórico de cirurgia bariátrica na época em que desenvolveram epilepsia".

Por outro lado, ela também atendeu pacientes que não tinham histórico de cirurgia bariátrica e desenvolveram epilepsia. "Não consigo dizer se existe uma associação, embora tenha pensado nisso e me questionado sobre esse assunto", disse a Dra. Jacqueline, que também é diretora médica e de inovação da Epilepsy Foundation e não participou do estudo.

Ela observou que um dos possíveis mecanismos fisiopatológicos nessa associação seria devido à cirurgia de derivação gástrica levar a uma "alteração significativa" na absorção de nutrientes. Além disso, "atualmente sabemos que o microbioma está associado à epilepsia" e que ocorrem mudanças no microbioma intestinal após a cirurgia bariátrica, disse a Dra. Jacqueline.

Existem duas mensagens finais para os médicos clínicos, acrescentou ela.

"Embora o risco [de epilepsia] seja muito baixo, deve ser apresentado como parte dos riscos e benefícios aos pacientes que consideram a cirurgia bariátrica", disse ela.

"É igualmente importante acompanhar as potenciais diferenças nos pacientes que desenvolvem epilepsia após a cirurgia bariátrica", disse a Dra. Jacqueline. "Existe um determinado perfil metabólico ou algum nutriente, que era absorvido e agora não é mais, que poderia predispor os pacientes ao risco?"

Seria "extremamente importante saber sobre isso, pois essa questão talvez não se aplique apenas a esses pacientes, mas também a outros grupos de pessoas que desenvolvem epilepsia", concluiu a Dra. Jacqueline.

O estudo foi financiado pelo Ontario Ministry of Health and Long-Term Care e pela Jack Cowin Endowed Chair in Epilepsy Research da Western University. O Dr. Jorge atualmente é o titular da Jack Cowin Endowed Chair in Epilepsy Research na Western University. Os outros pesquisadores e a Dra. Jacqueline informaram não ter conflitos de interesses relevantes. 

Neurology. Publicado on-line em 28 de setembro de 2022. Abstract

Batya Swift Yasgur é mestra em artes, assistente social e escritora freelancer com um consultório de aconselhamento nos EUA. Ela é colaboradora regular de várias publicações médicas, inclusive do Medscape e da WebMD. Também é autora de vários livros de saúde orientados para o consumidor e da obra "Behind the Burqa: Our Lives in Afeganistan e How We Escaped to Freedom" (a biografia de duas corajosas irmãs afegãs que lhe contaram a sua história).

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