Pesquisa identifica forte associação entre enterovírus e diabetes tipo 1

Miriam E. Tucker

Notificação

10 de outubro de 2022

A infecção pelo enterovírus parece estar fortemente associada ao diabetes tipo 1 (DM1) e aos autoanticorpos contra células das ilhotas pancreáticas, sugere nova pesquisa.

A força da associação, especialmente no primeiro mês após o diagnóstico de DM1, “reforça ainda mais a lógica para o desenvolvimento de vacinas e terapias antivirais específicas contra os enterovírus, a fim de prevenir e reduzir o impacto do DM1”, segundo a primeira pesquisadora do estudo, Dra. Sonia Isaacs, médica afiliada ao Departamento de Pediatria e Saúde Infantil da University of New South Wales, na Austrália.

Os enterovírus são uma grande família viral, responsável por diversas infecções pediátricas. Eles vivem no trato intestinal, mas podem causar uma gama de doenças. Existem mais de 70 cepas diferentes, como os vírus Coxsackie do grupo A e B, os poliovírus, o vírus da hepatite A e diversas cepas classificadas apenas como “enterovírus”. 

A Dra. Sonia apresentou os dados de uma metanálise de estudos feitos com técnicas moleculares modernas na reunião anual da European Association for the Study of Diabetes (EASD).

Os achados evidenciam a questão do rastreamento de rotina para detecção de enterovírus no momento do diagnóstico de DM1, disse a médica em sua apresentação.

Perguntada pelo Medscape sobre as implicações para os parentes de primeiro grau de pessoas com DM1, a Dra. Sonia disse que "definitivamente é uma população a ser observada" para infecções enterovirais. "O DM1 é muito diverso, com diferentes endótipos. Diferentes fatores ambientais podem estar implicados nesses diferentes endótipos. Além disso, é possível que os enterovírus sejam bastante importantes nos parentes de primeiro grau."  

Solicitado a comentar o estudo, o médico moderador da sessão, Dr. Kamlesh Khunti, Ph.D, disse ao Medscape que os dados são “convincentes”, especialmente no curto prazo após o diagnóstico de DM1. “Aparentemente pode haver plausibilidade na associação do enterovírus ao desenvolvimento de DM1 (…) Existem métodos pelos quais podemos reduzir esse risco com antivirais ou vacinas? Acredito que isso deva ser testado."

Em relação aos parentes de primeiro grau, "acho que é o grupo que devemos ir atrás, visto que a associação é altamente correlacionada. Acredito que este é o grupo que vale a pena testar quaisquer intervenções", disse o Dr. Kamlesh, professor de angiologia e de uma disciplina sobre diabetes na atenção primária na University of Leicester, no Reino Unido.

Associação é mais forte um mês após o diagnóstico, em parentes próximos e na Europa

A nova metanálise é a atualização de uma revisão publicada em 2011 pela equipe da Dra. Sonia, que descobriu que pessoas com autoimunidade contra as células das ilhotas pancreáticas eram quatro vezes mais propensas do que os controles à infecção por enterovírus, e pessoas com DM1 tinham uma probabilidade quase 10 vezes maior.

Essa nova análise se concentra em estudos feitos com técnicas moleculares mais modernas para detectar os vírus, como o sequenciamento de alto rendimento e as tecnologias de célula única.

A análise identificou 60 estudos, com um total de 12.077 participantes, dos quais 900 tinham autoimunidade contra ilhotas pancreáticas, 5.081 tinham DM1 e 6.096 eram controles. Trinta e cinco estudos foram realizados na Europa e os demais nos Estados Unidos, na Ásia e no Oriente Médio.

Os participantes com autoimunidade avaliados nos 16 estudos sobre o papel da infecção por enterovírus na autoimunidade contra ilhotas pancreáticas apresentaram o dobro da probabilidade de infecção por enterovírus em qualquer momento analisado, em comparação com os controles, com uma diferença significativa (razão de chances [RC] de 2,07, P = 0,002.)

Em 48 estudos sobre a infecção por enterovírus no DM1, os pacientes com diabetes apresentaram oito vezes mais chances de infecção por enterovírus, em comparação com os controles (RC de 8,0, P < 0,00001).

Em 25 estudos com 2.977 participantes nos quais o DM1 havia sido diagnosticado há menos de um mês, esses indivíduos apresentaram probabilidade mais de 16 vezes maior de infecção por enterovírus (RC de 16,2, P < 0,00001).

"A força dessa associação é maior do que havia sido relatado anteriormente por nós e por outros [pesquisadores]", observou a Dra. Sonia.

A associação entre infecção por enterovírus e autoimunidade contra ilhotas pancreáticas foi maior em indivíduos que posteriormente evoluíram para DM1, com razão de chances de 5,1 versus 2,0 nos pacientes que não evoluíram para DM1. A associação foi mais evidente durante ou logo após a soroconversão (RC de 5,1), mais forte na Europa (RC de 3,2) do que em outras regiões (RC de 1,9), e mais forte nos pacientes que tinham algum parente de primeiro grau com DM1 (RC de 9,8) do que nos participantes recrutados através de um genótipo de antígeno leucocitário humano (HLA, do inglês human leukocyte antigen) de alto risco, nos quais a relação não foi significativa.

A ocorrência de infecções enterovirais múltiplas ou consecutivas também foi associada à autoimunidade contra ilhotas pancreáticas (RC de 2,0).

No DM1, a relação com o enterovírus foi maior em crianças (RC de 9,0) do que em adultos (RC de 4,1) e maior no DM1 diagnosticado dentro de um ano (RC de 13,8) e de um mês (16,2) após a infecção do que nos pacientes com DM1 estabelecido (RC de 7,0). Nesses casos, a relação também foi mais forte na Europa (RC de 10,2) do que nos outros continentes (RC de 7,5).

A associação entre DM1 e enterovírus foi especialmente forte nos pacientes com parentes de primeiro grau com DM1 e HLA de alto risco (RC de 141,4).

A associação com o DM1 foi significativa nas infecções por espécies de enterovírus dos grupos A (RC de 3,7), B (RC de 12,7) e C (RC de 13,8), exceto o D, incluindo os genótipos de vírus Coxsackie.

"Os próximos estudos devem se concentrar na caracterização de genomas de enterovírus em coortes de risco, e não apenas na presença ou ausência do vírus", disse a Dra. Sonia. No entanto, ela acrescentou que "o DM1 é uma doença tão heterogênea que os vírus podem estar mais implicados em um tipo do que em outro. É importante começarmos a investigar essa questão."

A Dra. Sonia Isaacs informou não ter conflitos de interesses relevantes. O Dr. Kamlesh Khunti já foi consultor, palestrante ou recebeu doações para estudos iniciados por pesquisador das empresas AstraZeneca, Novartis, Novo Nordisk, Sanofi-Aventis, Lilly, Merck Sharp & Dohme, Boehringer Ingelheim, Bayer, Berlin-Chemie AG/Menarini Group, Janssen e Napp.

Reunião Anual da European Association for the Study of Diabetes (EASD): Abstract 236. Apresentado em 23 de setembro de 2022.

Miriam E. Tucker é jornalista freelancer e mora em Washington, DC (EUA). Ela é colaboradora regular do Medscape e tem trabalhos publicados no Washington Post, no blog de fotos da NPR e na revista Diabetes Forecast. Ela está no Twitter em: @MiriamETucker.

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