As metas glicêmicas devem ser modificadas para o diabetes gestacional?

Alessia De Chiara

Notificação

6 de outubro de 2022

O uso de metas glicêmicas mais rígidas para mulheres com diabetes mellitus gestacional reduziu o risco de um desfecho grave de saúde para o bebê, segundo um estudo feito na Nova Zelândia. Os desfechos graves de saúde foram morte, trauma ao nascimento e distocia de ombro s. O tempo de permanência dos lactentes na unidade de tratamento intensivo neonatal também foi menor. Mas as novas metas não reduziram o risco do bebê de ser grande para a idade gestacional.

Para as mulheres, houve aumento do risco de desfechos graves de saúde, como hemorragia pós-parto , e aumento do uso de medicamentos para tratar a hiperglicemia. Esses achados foram descritos em um artigo recente publicado no periódico PLOS Medicine.

As metas glicêmicas ideais para mulheres com diabetes mellitus gestacional ainda são pouco claras, e as recomendações de orientação da prática clínica sobre as metas glicêmicas para essas mulheres variam em todo o mundo. "O tratamento do diabetes mellitus gestacional tem como objetivo reduzir a hiperglicemia materna, embora permaneça incerto o quão rigoroso deva ser o controle glicêmico para minimizar os riscos maternos e perinatais", escreveram os pesquisadores.

Em 2014, o Ministério da Saúde da Nova Zelândia publicou diretrizes atualizadas sobre o diabetes mellitus gestacional recomendando a adoção de metas glicêmicas mais rígidas do que as que tinham sido estabelecidas desde 1998. A meta da glicemia de jejum foi alterada de < 99 mg/dL para ≤ 90 mg/dL. A meta pós-prandial em uma hora mudou de < 144 mg/dL para ≤ 133 mg/dL, e a meta pós-prandial em duas horas mudou de < 126 mg/dL para ≤ 121 mg/dL.

Conforme mencionado no artigo publicado no PLOS Medicine, o ensaio clínico TARGET foi realizado em 10 maternidades da Nova Zelândia entre maio de 2015 e novembro de 2017. Foram incluídas 1.100 mulheres diagnosticadas com diabetes mellitus gestacional entre 22 e 34 semanas de gestação, junto com seus 1.108 bebês. A cada quatro meses, dois hospitais passaram da utilização de metas menos rigorosas para metas mais rigorosas. No total, 598 (55%) mulheres (602 lactentes) foram recrutadas enquanto o hospital estava alocado para o uso de metas mais rigorosas, e 502 (45%) mulheres (506 lactentes) foram recrutadas enquanto o hospital estava alocado para o uso de metas menos rigorosas.

A incidência de tamanho grande para a idade gestacional, definida como peso ao nascer > 90º percentil pelos gráficos de crescimento ajustados pela idade gestacional e pelo sexo do bebê, foi a medida do desfecho primário. A incidência foi semelhante entre os grupos de metas terapêuticas, ocorrendo em 14,7% dos lactentes no grupo com metas mais rigorosas e em 15,1% dos lactentes no grupo com metas menos rigorosas.

O desfecho composto grave de saúde para o lactente, de morte perinatal, trauma ao nascimento (p. ex., paralisia neural, fratura óssea) ou distocia de ombros, foi aparentemente menor no grupo de metas mais rigorosas quando ajustado pela idade gestacional ao momento do diagnóstico de diabetes mellitus gestacional, índice de massa corporal materna, etnia e história de diabetes mellitus gestacional, em comparação ao grupo de metas menos rigorosas (risco relativo ajustado [RRa] de 0,23; P = 0,032). Além disso, o tempo de permanência na unidade de tratamento intensivo foi menor para os lactentes cuja mãe estava no grupo da meta glicêmica mais rigorosa. Fora isso, não foram observadas diferenças para os outros desfechos secundários dos bebês.

Em relação aos desfechos secundários das mulheres, houve um aparente aumento dos desfechos compostos graves de saúde como hemorragia, coagulopatia, embolia e complicações obstétricas no grupo das metas mais rigorosas (RRa de 2,29; P = 0,020). As mulheres no grupo das metas mais rigorosas (67,9%), comparadas às mulheres do grupo das metas menos rigorosas (58,5%), tiveram maior probabilidade de precisar de tratamento farmacológico para o controle glicêmico (RRa de 1,20; p = 0,047).

Como concluíram os pesquisadores, esses achados têm relevância direta para a prática clínica e podem ser usados para auxiliar nas decisões sobre a escolha de metas terapêuticas a serem usadas ao conversar sobre o controle glicêmico com as mulheres com diabetes mellitus gestacional. No entanto, indicaram os pesquisadores, existe a necessidade de confirmar seus achados por meio de outros ensaios clínicos randomizados e em diferentes unidades de saúde.

Este conteúdo foi originalmente publicado em Univadis Itália Medscape Professional Network.

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