Momento da ingestão de alimentos: uma nova estratégia para tratar os transtornos do humor?

Batya Swift Yasgur

Notificação

3 de outubro de 2022

Trabalhadores em escalas de plantão que restringem sua alimentação ao período diurno podem sofrer menos sintomas relacionados ao humor em comparação com aqueles que se alimentam durante o dia e a noite, sugerem novas pesquisas.

Pesquisadores do Brigham and Women's Hospital, nos Estados Unidos, criaram um cronograma de trabalho noturno simulado em um laboratório para 19 indivíduos. Os participantes então utilizaram dois modelos de horário de refeição diferentes – refeições apenas diurnas (RD) e refeições durante o dia e a noite (RDN).

As alterações de humor relacionadas a depressão e ansiedade aumentaram 26% e 16%, respectivamente, entre aqueles com alimentação diurna e noturna, mas não houve esse aumento entre aqueles com alimentação apenas diurna.

“Nossos achados fornecem evidências de que o momento da ingestão de alimentos seria uma nova estratégia para potencialmente minimizar a vulnerabilidade do humor em indivíduos que sofrem de desalinhamento circadiano, como pessoas que trabalham em turnos, afetadas por jet lag ou que sofrem de transtornos do ritmo circadiano”, disse em um comunicado à imprensa o autor correspondente Dr. Frank A. J. L. Scheer, Ph.D., diretor do Programa de Cronobiologia Médica do Brigham and Women's Hospital.

O estudo foi publicado on-line em 12 de setembro no periódico the Proceedings of the National Academy of Sciences.

Relógio circadiano desalinhado

“Os trabalhadores em turnos geralmente apresentam um desalinhamento entre o relógio circadiano central no cérebro e os comportamentos diários, como ciclos de sono/vigília e jejum/alimentação”, explicou a autora sênior Dra. Sarah Chellappa, Ph.D., médica atualmente afiliada ao programa Alexander Von Humboldt Experienced Fellow no departamento de Medicina Nuclear da Universität zu Köln, na Alemanha. A Dra. Sarah era bolsista de pós-doutorado no Brigham and Women's Hospital quando o estudo foi realizado.

“Eles também têm um risco 25% a 40% maior de depressão e ansiedade”, continuou ela. “Como o momento da refeição é importante para a saúde física e a alimentação é importante para o humor, procuramos descobrir se o momento da refeição também pode beneficiar a saúde mental.”

Dado que o controle glicêmico prejudicado é um “fator de risco de alterações do humor”, os pesquisadores avaliaram a hipótese de que a alimentação diurna “impediria a vulnerabilidade do humor, apesar do trabalho noturno simulado”.

Para avaliar a questão, eles realizaram um ensaio clínico randomizado e paralelo com um protocolo de laboratório circadiano de 14 dias com 19 adultos saudáveis (12 homens, 7 mulheres; média de idade de 26,5 ± 4,1 anos) que foram submetidos a uma dessincronia forçada em luz fraca por quatro “dias”, cada um dos quais consistia em 28 horas. Cada "dia" de 28 horas resultou em um desalinhamento adicional de quatro horas entre o relógio circadiano central e os ciclos comportamentais/ambientais externos.

No quarto dia, os participantes estavam desalinhados por 12 horas, em comparação com o início do estudo (ou seja, o primeiro dia). Eles foram então designados aleatoriamente para dois grupos.

O grupo RDN – grupo controle – tinha um “protocolo de dessincronia forçada de 28 horas típico”, com ciclos comportamentais e ambientais (sono/despertar, descanso/atividade, postura supina/vertical, escuro durante o sono programado/luz fraca durante a vigília) agendados para um ciclo de 28 horas. Assim, eles fizeram suas refeições durante o “dia” e a “noite”, que é a forma típica que os trabalhadores noturnos comem.

O grupo RD foi submetido a um protocolo de dessincronia forçada de 28 horas modificado, com todos os ciclos agendados de 28 horas, exceto o ciclo de jejum/alimentação, que foi agendado para 24 horas, resultando em refeições consumidas apenas durante o “dia”.

O humor semelhante à depressão e à ansiedade (que “corresponde a um amálgama de estados de humor normalmente observados na depressão e na ansiedade”) foi avaliado a cada hora durante os quatro dias de dessincronia forçada, usando escalas analógicas visuais computadorizadas.

Psiquiatria nutricional

Os participantes do grupo RDN apresentaram um aumento com relação ao início do estudo nos níveis de humor semelhante à depressão e à ansiedade de 26,2% (intervalo de confiança [IC] de 95% de 21 a 31,5; P = 0,001; valor de P usando taxa de falsas descobertas = 0,01; tamanho de efeito r = 0,78) e 16,1% (IC 95% de 8,5 a 23,6; P = 0,005; valor de P usando taxa de falsas descobertas = 0,001; tamanho do efeito r = 0,47), respectivamente.

Por outro lado, um aumento semelhante não ocorreu no grupo RD para níveis de humor do tipo depressão ou ansiedade (IC 95% de -5,7% a 7,4%, P não significativo; e IC 95% de -3,1% a 9,9%, P não significativo, respectivamente).

Os pesquisadores testaram “se o aumento da vulnerabilidade do humor durante o trabalho noturno simulado foi associado ao grau de desalinhamento circadiano interno”, definido como “mudança na diferença de fases entre a acrofase dos ritmos circadianos de glicose e a batifase dos ritmos circadianos de temperatura corporal”.

Eles constataram que o maior grau de desalinhamento circadiano interno estava “robustamente associado” a níveis de humor mais parecidos com depressão (r = 0,77; P = 0,001) e com ansiedade (r = 0,67; P = 0,002) durante o trabalho noturno simulado.

Os achados sugerem que o momento das refeições teve “efeitos moderados a grandes nos níveis de humor do tipo depressão e ansiedade durante o trabalho noturno, e que tais efeitos foram associados ao grau de desalinhamento circadiano interno”, escreveram os autores.

O protocolo de laboratório de ambos os grupos era idêntico, exceto pelo momento das refeições, enfatizaram. Eles observaram que a conscientização sobre a “relevância da alimentação para o sono, os ritmos circadianos e a saúde mental está crescendo com o surgimento de um novo campo, a psiquiatria nutricional”.

Pessoas que apresentam depressão “geralmente relatam alimentação de baixa qualidade com alta ingestão de carboidratos”, e há evidências de que a adesão à dieta mediterrânea está associada “a menores chances de depressão, ansiedade e sofrimento psicológico”.

Os pesquisadores advertiram que, embora esses estudos emergentes sugiram uma associação entre fatores alimentares e saúde mental, “estudos experimentais em pessoas com depressão e/ou ansiedade ou transtornos relacionados à ansiedade são necessários para determinar a causalidade e a direção dos efeitos”.

Eles descreveram o momento da refeição como “um aspecto emergente da nutrição, com crescente interesse das pesquisas devido à sua influência na saúde física”. No entanto, observaram: “O papel causal do momento da ingestão de alimentos na saúde mental ainda precisa ser testado”.

Achados inovadores

Comentando para o Medscape, a Dra. Kathleen Merikangas, Ph.D., pesquisadora renomada e chefe do Genetic Epidemiology Research Branch, Intramural Research Program, dos National Institute of Mental Health, nos EUA, descreveu a pesquisa como importante e com achados inovadores.

A pesquisa “emprega procedimentos laboratoriais refinados e cuidadosamente controlados que desvendaram a influência da luz e de outros fatores ambientais no sono e nos ritmos circadianos nas últimas duas décadas”, disse a Dra. Kathleen, que não participou do estudo.

“Uma das contribuições mais significativas deste trabalho é a demonstração da importância de avaliar ritmos circadianos de vários sistemas, em vez de se concentrar apenas no sono, alimentação ou estados emocionais que costumam ser estudados isoladamente”, apontou.

“Evidências crescentes de pesquisas básicas destacam a interdependência de múltiplos sistemas humanos que devem ser incorporados em intervenções que tendem a se concentrar em um ou dois domínios.”

A pesquisadora recomenda que este trabalho seja replicado “em amostras mais diversas... em ambientes controlados e naturalistas... para testar a generalização e o mecanismo desses achados intrigantes”.

O estudo foi financiado pelos National Institutes of Health dos EUA. Os pesquisadores receberam financiamento individual da Alexander Von Humboldt Foundation e da American Diabetes Association. A Dra. Sarah Chellappa informou não ter conflitos de interesses. Os conflitos de interesses dos demais autores estão listados no artigo original. A Dra. Kathleen Merikangas informou não ter conflitos de interesses.

Proc Natl Acad Sci. Publicado on-line em 12 de setembro de 2022. Texto completo

Batya Swift Yasgur é escritora freelancer com consultório de aconselhamento nos EUA. Ela escreve para diversos periódicos de medicina, inclusive para o Medscape e a WebMD. Já publicou vários livros na área da saúde orientados para o público leigo e é autora do livro “Behind the Burqa: Our Lives in Afghanistan and How We Escaped to Freedom” (a memória de duas corajosas irmãs afegãs que lhe contaram a sua história).

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