Coinfecção por VHC e VIH está associada a maior risco de IAM em longo prazo

Marilynn Larkin

Notificação

29 de setembro de 2022

A coinfecção pelo vírus da hepatite C (VHC) em pessoas que vivem com vírus da imunodeficiência humana (VIH ) está associada a um aumento de 85% no risco de infarto agudo do miocárdio (IAM) a cada dez anos, sugere uma nova análise.

Por outro lado, o risco aumenta em 30% a cada 10 anos em pessoas que vivem com VIH sem infecção pelo VHC.

"Existem outras evidências que sugerem que pessoas infectadas pelo VIH e pelo VHC tenham uma carga mais elevada de desfechos de saúde negativos", disse ao Medscape a autora sênior Dra. Keri N. Althoff, Ph.D., mestra em saúde pública, da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos. "Entretanto, a magnitude dessa carga 'mais elevada' foi maior do que eu esperava."

"Compreender a diferença que o VHC pode fazer no risco de IAM com o avançar da idade em pacientes com hepatite C (em relação àqueles sem hepatite C) é um passo importante para entender os possíveis benefícios adicionais do tratamento da hepatite C em pessoas que vivem com VIH", disse ela.

De forma geral, o aumento do risco com a idade ocorreu mesmo apesar da associação entre a coinfecção pelo VHC e o aumento do risco de IAM tipo 1 não ter sido significativa, mostrou a análise.

O estudo foi publicado on-line em 21 de setembro no periódico Journal of the American Heart Association.

Como a idade faz a diferença

A Dra. Keri e colaboradores analisaram dados de 23.361 pessoas que vivem com VIH entre 40 e 79 anos de idade que iniciaram a terapia antirretroviral entre 2000 e 2017. O desfecho primário foi o IAM tipo 1.

Um total de 4.677 participantes (20%) eram infectados pelo VHC. Oitenta e nove IAMs tipo 1 ocorreram em pessoas que vivem com VIH coinfectadas pelo VHC (1,9%) versus 314 IAMs em pessoas que vivem com VIH sem infecção pelo VHC (1,7%). Em análises ajustadas, a hepatite C não foi associada ao aumento do risco de IAM tipo 1 (razão de risco ajustada [RRa] de 0,98).

No entanto, o risco de IAM tipo 1 aumentou com a idade e se mostrou elevado nos pacientes com hepatite C (RRa por cada 10 anos de aumento de idade de 1,85) versus aqueles sem hepatite C (RRa de 1,30).

Especificamente, em comparação com os participantes sem hepatite C, o risco estimado de IAM tipo 1 foi 17% maior em pessoas com hepatite C de 50 a 59 anos e 77% maior naquelas com 60 anos ou mais. Nenhuma dessas associações foi estatisticamente significativa, embora os autores tenham sugerido que isso provavelmente se deva ao menor número de participantes nas categorias de idade mais avançada.

Mesmo sem hepatite C, o risco de IAM tipo 1 aumentou em participantes que tinham fatores de risco tradicionais. O risco foi significativamente maior em pessoas entre 40 e 49 anos de idade com diabetes, hipertensão arterial sistêmica, doença renal crônica, uso de inibidores de protease e tabagismo. Já em pessoas entre 50 e 59 anos de idade, o risco de IAM tipo 1 foi significativamente maior nos indivíduos com hipertensão, uso de inibidores de protease e tabagismo.

Nos pacientes com 60 anos ou mais, a hipertensão e baixas contagens de linfócitos CD4 foram associadas a um aumento significativo do risco de IAM tipo 1.

“Os médicos que atendem pessoas com VIH devem saber se seus pacientes estão infectados pelo VHC”, disse a Dra. Keri, “e fornecer apoio em relação ao tratamento da hepatite C e maneiras de reduzir o risco cardiovascular, incluindo medidas como cessação do tabagismo, perda de peso, manutenção de um peso saudável e tratamento do uso de substâncias”.

Efeito cumulativo é real?

A cardiologista voluntária da American Heart Association, Dra. Nieca Goldberg, professora clínica associada de medicina na NYU Grossman School of Medicine e diretora médica da Atria NY, ambas nos EUA, disse que o aumento do risco de IAM tipo 1 com a coinfecção "faz sentido", pois tanto o VIH quanto o VHC estão associados à inflamação.

No entanto, disse ela ao Medscape, "o fato de os autores não terem ajustado os dados por outros fatores de risco para IAM mais tradicionais é uma limitação. Gostaria de ver um estudo que considerasse outros fatores de risco para verificar se o VHC realmente tem um efeito cumulativo".

Enquanto isso, assim como a Dra. Keri, ela disse: "Os médicos devem coletar uma história clínica detalhada que inclua infecções crônicas e fatores de risco cardíaco tradicionais".

A Dra. Keri concordou que são necessários mais estudos. "Existem dois caminhos que estamos muito interessados em seguir. O primeiro é entender como os fatores de risco metabólicos para IAM se alteram após o tratamento da hepatite C, e estamos trabalhando nisso."

"Por fim", disse ela, "queremos comparar o risco de IAM em pessoas com VIH que tiveram sucesso no tratamento da hepatite C com aquelas que não tiveram um tratamento de hepatite C bem-sucedido".

No estudo atual, esses pacientes foram acompanhados por quase duas décadas, observou a autora. "Embora não precisássemos esperar tanto, gostaríamos de ter um período de possível acompanhamento de aproximadamente 10 anos (a partir de 2016, quando o medicamento sofosbuvir/velpatasvir se tornou disponível) para termos um tamanho de amostra grande o suficiente para observar um número suficiente de IAMs nos primeiros cinco anos após um tratamento bem-sucedido da hepatite C."

Não foi relatado nenhum conflito de interesses relevante nem qualquer financiamento comercial.

J Am Heart Assoc. Publicado on-line em 21 de setembro de 2022. Abstract.

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