A insônia frequentemente anda de mãos dadas com a depressão em idosos

Susan Kreimer

Notificação

22 de setembro de 2022

À medida que as pessoas envelhecem, os sinais e sintomas de insônia geralmente aparecem. Elas podem se mexer e se virar por horas, esforçando-se para adormecer ou permanecer dormindo. Despertares noturnos e matinais frequentes são muito comuns em idosos. Isso, por sua vez, contribui para taxas mais altas de depressão, isolamento social e problemas de saúde física. A combinação de insônia e depressão pode ser bastante prejudicial para a qualidade de vida de um idoso.

“O sono ruim pode levar ao mau funcionamento diurno, o que inclui dificuldade de memória, irritabilidade e sonolência diurna”, disse o Dr. Douglas Kirsch, médico e diretor clínico de medicina do sono da Atrium Health, nos Estados Unidos, e ex-presidente da American Academy of Sleep Medicine.

Ao longo do tempo, a deficiência de sono tem sido associada a maior risco não apenas de depressão, mas também de ansiedade, hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus tipo 2, infarto do miocárdio, quedas e acidentes, transtornos por uso de substância e morte prematura. Também pode ser um fator de risco de doença de Alzheimer.

“A insônia crônica afeta a saúde geral”, destacou a Dra. Josepha A. Cheong, professora de psiquiatria da University of Florida College of Medicine e médica psiquiatra do Malcom Randall Veterans Affairs Medical Center, ambos nos EUA.

Pesquisas mostram que o sono desempenha um papel no armazenamento de memórias e tem uma função restauradora.

“A falta de sono prejudica o raciocínio, a aptidão para resolução de problemas e a atenção aos detalhes, entre outros efeitos”, disse a Dra. Josepha, acrescentando que durante o sono o líquido cefalorraquidiano funciona para “eliminar” os resíduos metabólicos que se acumulam durante o dia.

Terapia comportamental: uma intervenção de primeira linha comprovada

A boa notícia é que o tratamento da insônia pode ajudar a aliviar a depressão e problemas relacionados.

“A insônia é um fator de risco de depressão”, explicou Natalia S. David, psicóloga especializada em medicina comportamental do sono no Peter O'Donnell Jr. Brain Institute do University of Texas Southwestern Medical Center, nos EUA. “Portanto, reduzir a insônia em idosos deve ser um foco de atenção clínica.”

A terapia cognitivo-comportamental para insônia é o tratamento de primeira linha e padrão-ouro para insônia, conforme recomendado pela American Academy of Sleep Medicine .

“É muito difícil tratar a insônia com medicamentos e é por isso que as intervenções comportamentais e cognitivas são preferidas, com resultados duradouros quando comparadas a apenas tratamento medicamentoso”, disse Natalia.

Os hipnóticos só devem ser usados para tratar a insônia aguda – com duração inferior a três meses. Confiar nessa classe terapêutica em longo prazo pode causar mais problemas de sono, resultando potencialmente em dependência e comprometimento cognitivo. Natalia disse que pesquisas indicam que aqueles que usaram medicamentos para dormir tiveram um risco duas vezes maior de demência.

Quebrando o círculo vicioso da insônia

Kathleen Primm, 68 anos, residente no Texas, EUA, fez o curso de sete semanas de terapia cognitivo-comportamental para insônia da Natalia, recomendado por seu médico especialista em sono, no início deste ano.

Kathleen disse que sofre de ansiedade, e seu médico notou que ela também tem oscilações de humor. Seus problemas de sono se intensificaram durante a pandemia de covid-19. Mesmo que ela não cochilasse durante o dia, só conseguia dormir de duas a três horas por noite.

“Foi apenas um círculo vicioso”, disse a professora substituta de educação fundamental especial sobre sua insônia. “Mas eu fiz o curso e achei muito benéfico.”

Depois de implementar mudanças comportamentais, Kathleen gradualmente abandonou o medicamento para dormir e agora consegue ter até oito horas de sono por noite.

Ela também aprendeu a não ficar na cama por mais de 20 minutos se não conseguir adormecer. Em vez disso, ela vai para a sala, clareia a mente e faz exercícios respiratórios, inspirando e expirando até se sentir relaxada o suficiente para voltar para a cama e adormecer. Ela também usa um aplicativo de celular que reproduz áudios relaxantes de chuva.

Um ensaio clínico randomizado recente da David Geffen School of Medicine da University of California, em Los Angeles (EUA), mostrou que a terapia cognitivo-comportamental para insônia preveniu a depressão em adultos da comunidade com 60 anos ou mais com insônia. Em 291 idosos sem depressão, mas com transtorno de insônia, dois meses de terapia cognitivo-comportamental para insônia “resultaram em redução da probabilidade de depressão incidente e recorrente durante 36 meses de acompanhamento em comparação com um controle comparador ativo, com terapia de educação do sono”.

Durante a terapia cognitivo-comportamental para insônia são ensinados métodos práticos para dormir melhor. Uma técnica comumente usada é chamada de compressão do sono, explicou o Dr. Douglas. Ao selecionar uma janela de tempo limitada e personalizada para dormir – geralmente menor do que a atribuída pelo paciente anteriormente –, o médico orienta o sono do indivíduo para torná-lo mais eficiente. Gradualmente, essa janela é estendida para uma quantidade mais típica de tempo de sono, disse ele.

O processo geralmente segue um ciclo de seis a oito semanas para a maioria dos pacientes, mas pode levar mais tempo em alguns casos difíceis. Às vezes, medicamentos e terapia cognitivo-comportamental para insônia são usados em conjunto para pacientes que precisam de ambos os tipos de tratamento para dormir bem. Recentemente, tem havido interesse em avaliar o uso da telemedicina para conduzir a terapia cognitivo-comportamental para insônia, principalmente devido ao número limitado de terapeutas treinados, disse o Dr. Douglas.

Um aplicativo gratuito para celular, o CBT-i Coach, fornece diferentes ferramentas para estabelecer melhores hábitos de sono, bem como para identificar possíveis fatores que possam estar causando insônia.

A terapia cognitivo-comportamental para insônia não envolve o uso de medicamentos e é considerada eficaz, disse a Dra. Josepha, que é certificada em psiquiatria geriátrica e atua como diretora de psiquiatria do American Board of Psychiatry and Neurology. Ela acrescentou que cerca de 70% a 80% dos pacientes com insônia primária apresentam melhoras com essa terapia, adormecendo mais rápido depois de ir para a cama e acordando menos durante a noite.

“Se praticada de forma consistente, a terapia cognitivo-comportamental para insônia produz resultados constantes ao longo do tempo”, disse a médica.

Identificando os sinais desses distúrbios sobrepostos

Os geriatras geralmente atendem pacientes com distúrbios do sono, os quais afetam mais as mulheres do que os homens.

“Os distúrbios do sono são complexos, principalmente em idosos, porque muitos fatores podem afetar o sono, como medicamentos, apneia do sono e até mesmo alterações que acompanham o envelhecimento normal”, disse a Dra. Yoon Hie Kim, médica especialista em medicina geriátrica da Duke Health, nos EUA. “Várias doenças clínicas também podem perturbar o sono, como distúrbios neurocognitivos, dor, noctúria e síndrome das pernas inquietas”.

Apesar da prevalência de distúrbios do sono e depressão em idosos, é provável que não sejam diagnosticados nessa faixa etária. Os distúrbios do sono afetam até metade da população idosa, enquanto a depressão varia entre os ambientes e ocorre em taxas mais altas em lares de idosos, disse a Dra. Yoon.

“Esses distúrbios podem não ser muito evidentes para o paciente, mas podem ser a causa raiz de muitos problemas que afetam o funcionamento diário”, destacou.

A depressão em idosos pode ser difícil de ser reconhecida porque eles podem ter sinais e sintomas diferentes do que os mais jovens. Para alguns idosos com depressão, o principal sintoma não é tristeza ou humor deprimido – é uma sensação de letargia ou falta de interesse em atividades, hobbies ou socialização, disse a Dra. Michelle Drerup, diretora de medicina comportamental do sono na Cleveland Clinic, nos EUA.

Outros sinais e sintomas comuns são dores inexplicáveis ou agravadas, perda de peso ou perda de apetite, sentimentos de desesperança ou desamparo, falta de motivação, problemas de sono e perda de autoestima (preocupações em ser um fardo, sensação de inutilidade ou autoaversão), fixação na morte ou pensamentos suicidas e negligência nos cuidados pessoais (pular refeições, esquecer medicamentos ou desconsiderar a higiene pessoal), detalhou a Dra. Michelle.

Os sinais e sintomas decorrentes dos distúrbios do sono e do transtorno depressivo maior podem se sobrepor e podem incluir fadiga, alterações de humor, sonolência diurna e diminuição da concentração.

“É fundamental que o sono e o humor sejam avaliados quando alguém está passando por uma avaliação de comprometimento cognitivo, pois melhorar os sintomas do sono e do humor pode resultar em melhora da função”, disse a Dra. Yoon. “Uma consulta de bem-estar focada em cuidados preventivos pode ser uma boa oportunidade para rastrear sistematicamente distúrbios do sono ou do humor.”

Susan Kreimer é jornalista freelance em saúde residente em Nova York.

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