O nivolumabe poderia prevenir câncer de cavidade oral em pacientes de alto risco?

Liam Davenport

Notificação

14 de setembro de 2022

O inibidor de ponto de controle imunológico nivolumabe parece prevenir a transformação da leucoplasia proliferativa oral, uma doença pré-cancerosa de alto risco, em câncer oral, sugerem os resultados de um estudo de fase 2.

“Acreditamos que a imunoterapia como estratégia preventiva, seja como prevenção de primeira linha ou até secundária, deva ser mais explorada”, disse o pesquisador Dr. Glenn J. Hanna, médico e diretor do Center for Salivary and Rare Head and Neck Cancers, Dana-Farber Cancer Institute, nos Estados Unidos.

A pesquisa foi apresentada no Congresso da European Society for Medical Oncology de 2022 em Paris, França.

A leucoplasia oral é a uma placa esbranquiçada de “risco questionável de câncer” que afeta cerca de 4% da população global, explicou o Dr. Glenn. No entanto, cerca de 5% dos casos de leucoplasia evoluem para leucoplasia proliferativa oral, uma forma agressiva da doença caracterizada por lesões multifocais. Tem alto risco de transformação em carcinoma espinocelular oral, aproximando-se de 10% ao ano, e a taxa de sobrevida livre de câncer em cinco anos é estimada em 47%.

Embora não existam terapias eficazes para prevenir a progressão para o câncer de cavidade oral, a doença tem um “microambiente imunológico rico”, potencialmente possibilitando um bloqueio de morte programada (programmed death, PD)-1, explicou o Dr. Glenn.

Sua equipe realizou um estudo de fase 2 de braço único que incluiu 33 pacientes com leucoplasia proliferativa com ≥ 2 lesões multifocais, ou lesões contíguas de ≥ 3 cm, ou uma única lesão ≥ 4 cm com qualquer grau de displasia epitelial. A idade mediana foi de 63,2 anos, e 55% eram mulheres. Pouco mais da metade (52%) nunca fumou.

O principal subsítio da doença foi a língua oral em 39% dos participantes, seguido pela gengiva bucal em 30%, e 24% dos pacientes tinham um diagnóstico anterior de carcinoma espinocelular.

Após uma biópsia pré-tratamento em um a três locais, os pacientes receberam quatro doses de nivolumabe a cada 28 dias, seguidas de nova biópsia. Em cada consulta, os pacientes realizavam fotografias intrabucais das lesões, que também eram medidas.

O tempo médio desde a inscrição no estudo até a primeira dose de nivolumabe foi de 9 dias. A maioria (88%) dos pacientes completou todas as quatro doses de nivolumabe.

O tempo médio desde a primeira dose de nivolumabe até a biópsia pós-tratamento foi de 115 dias, variando de 29 a 171 dias.

A taxa de resposta global, definida como uma diminuição ≥ 40% em uma pontuação composta combinando o tamanho e o grau de displasia entre as avaliações pré e pós-tratamento, foi observada em 36,4% dos pacientes.

Após um acompanhamento mediano de 14,7 meses, a mediana de sobrevida livre de câncer não foi alcançada, com eventos de câncer registrados em 21,2% dos pacientes. O tempo mediano desde a última dose de nivolumabe até o primeiro evento de carcinoma espinocelular foi de 3,7 meses.

A sobrevida livre de câncer em um ano foi calculada em 77,7%, e permaneceu inalterada em dois anos. No acompanhamento final, todos os pacientes ainda estavam vivos.

A análise adicional das biópsias revelou que as lesões tinham escores positivos combinados do ligante 1 de morte programada (PD-L1) que variaram de 0 a 80, com 66,7% dos pacientes com pontuação ≥ 1. Uma pontuação de corte ≥ 20 não revelou quaisquer diferenças significativas nas taxas de sobrevida livre de câncer.

Voltando à questão da segurança, o Dr. Glenn disse que o nivolumabe foi associado a “toxicidade aceitável” nessa “população sem câncer”, com 21,2% dos pacientes apresentando um evento adverso de grau 3-4.

Os eventos adversos mais comuns de qualquer grau foram fadiga (55%), diarreia (27%), níveis elevados de alanina transaminase (18%), níveis elevados de aspartato transaminase (18%) e outras alterações da pele (18%).

Com uma taxa relativamente baixa de eventos adversos e um “benefício clínico” em até um terço dos pacientes, o Dr. Glenn disse que este foi o “primeiro estudo de nosso conhecimento a demonstrar a eficácia potencial do bloqueio anti-PD-L1 em pacientes com doença pré-cancerosa oral de alto risco”.

Discutindo este estudo no congresso, a Dra. Amanda Psyrri, Ph.D., médica e professora de oncologia clínica no Attikon University Hospital, na Grécia, que não participou da pesquisa, disse que os dados eram “muito interessantes”, mas ela expressou algumas reservas sobre a forma como o estudo foi conduzido.

De acordo com ela, o escore composto para medir as taxas de resposta foi “definido arbitrariamente” e seu valor prognóstico “não foi demonstrado” e apontou que respostas variáveis de lesões do mesmo paciente levaram a mudanças nos escores.

Além disso, o intervalo de tempo entre o término do tratamento e a nova biópsia da lesão foi “altamente variável” e o período de acompanhamento foi curto.

Consequentemente, a Dra. Amanda acredita que a importância dos achados é “incerta”, especialmente porque vários pacientes que responderam ao nivolumabe de qualquer maneira evoluíram para o câncer, um achado que precisa de mais pesquisas.

O estudo foi financiado pela Bristol Myers Squibb. O Dr. Gleen informou conflitos de interesse com BMS, Bicara, Exicure, Gateway for Cancer Research, GSK, Kite, NantKwest, Regeneron, Sanofi Genzyme, Maverick e Merck.

Congresso da ESMO de 2022. Apresentado em 12 de setembro de 2022.  Abstract 650O.

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