Relato descreve dois casos de doença meningocócica invasiva por Men X em SP em dois meses

Roxana Tabakman

Notificação

14 de setembro de 2022

Duas crianças, de sete meses e seis anos, foram internadas na cidade de São Paulo por doença meningocócica invasiva (DMI) causada pela rara bactéria Neisseria meningitidis sorogrupo X (Men X). Os casos, sem nexo entre eles, ocorreram em novembro de 2021 e janeiro de 2022, e foram descritos no 28º Volume do Emerging Infectious Diseases, [1] o periódico dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, publicado em setembro. Ainda não há vacina disponível contra este sorogrupo.

“O sorogrupo X é raro fora da África. No Brasil, apenas seis casos foram reportados nos últimos 15 anos, e agora houve dois casos em dois meses”, disse ao Medscape a autora correspondente, Dra. Ana Paula S. Lemos, Ph.D., pesquisadora do Instituto Adolfo Lutz na área da microbiologia médica, e que atua principalmente no estudo epidemiológico das meningites bacterianas.

“A doença meningocócica é peculiar porque, a despeito de ser uma doença rara, gera muito pânico quando acontece, porque é imprevisível, ocorre de maneira muito súbita, e na maioria dos casos em indivíduos previamente saudáveis – na grande maioria das vezes em crianças”, explicou o professor de pediatria e infectologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Dr. Marco Aurélio Sáfadi, que não participou da pesquisa.

O Dr. Marco Aurélio considera os casos de Men X um motivo de alerta, mas não vê uma preocupação específica com o sorogrupo X neste momento. “A preocupação é com os outros [sorogrupos], que são mais frequentes. O sorogrupo X é mais um player, e pode se tornar uma potencial causa de doença entre nós”.

A Dra. Ana Paula considera que este é o momento de chamar atenção, estar atento, e ter vigilância, “como fazemos para enquanto os casos estiverem acontecendo fazer uma intervenção de bloqueio.”

Raridade

Com exceção do continente africano, o sorogrupo X é raríssimo no restante do mundo. E mesmo na África, até os anos 80 haviam sido registrados poucos casos de doença causada por esse sorogrupo. Desde 1990, o Men X vem sendo associado a surtos e epidemias em Burkina Faso, Togo, Níger, Quênia e Uganda. Nos anos 2006 e 2007, alguns países africanos enfrentaram uma explosão de casos do sorogrupo X.

Casos de infecção pelo Men X também já foram notificados na Europa. “É tão raro que se você buscar na literatura, vai encontrar dois estudos mostrando poucos casos, sempre correlacionando com isolados da coleção africana", explicou a pesquisadora.

No Brasil, houve nove casos nos últimos 15 anos e, portanto, a ocorrência de dois casos em um período tão curto é algo digno de acompanhamento. “Talvez sejam apenas dois casos pontuais, e pare por aí”, disse a Dra. Ana Paula. “Mas devemos estar alertas, porque os diferentes grupos têm comportamentos distintos, e temos que observar”, complementou.

A equipe do Instituto Adolfo Lutz buscou logo recuperar a história do grupo X no país, reavaliando, com novas tecnologias de análise genômica, uma coleção de isolados com amostras dos últimos 30 anos. O grupo de pesquisa identificou sete isolados de N. meningitidis do grupo X (resultados ainda não publicados).

“No estudo retrospectivo, foi identificado que essa linhagem já circulava pelo menos desde 2013. Isso é importante. Não foi, portanto, uma introdução, [o subgrupo X já] estava circulando”, afirmou a pesquisadora.

Vacinação

As vacinas são extremamente eficientes para prevenir a doença meningocócica, mas nenhuma contempla todos os grupos de meningococos. De forma geral, as vacinas propiciam uma proteção específica para o sorogrupo contemplado no imunizante.

Já há uma vacina específica contra o Men X, a NmCV-5, mas ainda está na fase 2 de pesquisa. Segundo a Dra. Ana Paula, os ensaios feitos com 376 crianças de 12 a 18 meses mostraram boa resposta para o X. [2]

“Mesmo que hoje tivéssemos uma vacina contra o sorogrupo X, a situação epidemiológica não justificaria seu uso em nível nacional”, completou.

Ela ressaltou que também houve um estudo avaliando se a vacina contra o sorogrupo B poderia ser eficaz contra o sorogrupo X. “Foi um estudo pontual. Mas deveria ser feito um estudo da linhagem que está circulando [agora], para ver se [o imunizante utilizado contra o sorogrupo B] serviria ou não”, avaliou.

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece a vacina meningocócica C desde 2010. Houve uma redução muito importante no número de casos atribuídos ao C entre as crianças. E hoje em dia, “os casos basicamente ocorrem em adultos ou em crianças muito pequenas para receber a vacina”, afirmou o Dr. Marco Aurélio.

 A vacina contra os sorogrupos ACWY, que amplia essa proteção para mais grupos de meningococo, também é oferecida pelo sistema público brasileiro à população adolescente. No entanto, o pediatra pontuou que o que circula de forma relevante no Brasil, e a principal causa de doença meningocócica, é o sorogrupo B. Mas a vacina contra este sorogrupo só está disponível no sistema privado.

Haverá mais casos?

Não há como responder a esta pergunta de forma específica. Mas diante da suspensão da obrigatoriedade do uso de máscaras e das demais medidas de prevenção não farmacológicas contra a transmissão do SARS-CoV-2, relacionadas com a pandemia de covid-19, é provável que ocorra uma alta nos casos de DMI.

“No Brasil, de cerca de 1.000 casos de doença meningocócica em 2019, passamos a registrar 200 casos em 2021. Esse fenômeno aconteceu no mundo todo”, comentou a Dra. Ana Paula, que esteve envolvida em uma pesquisa que contou com o Brasil e 25 outros países, e cujos resultados revelaram uma queda na incidência de DMI causada por Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e N. meningitidis durante a pandemia. [3]

“É de se supor que vamos voltar a ver uma recrudescência da doença, que é de transmissão respiratória”, antecipou o Dr. Marco Aurélio. Ele destacou o agravante da redução das taxas de cobertura vacinal de modo geral, e da vacina de meningococo em particular. “As nossas taxas [de vacinação] entre adolescentes estão muito baixas.”

Além disso, criou-se na população uma janela imunológica, que é a ausência de exposição da população a essas cepas de meningococo que ficavam na garganta e induziam anticorpos que de alguma maneira ajudavam para prevenir a doença meningocócica. “Com essa ausência de circulação durante esses anos da pandemia acumulou-se uma população maior de pessoas suscetíveis a essas doenças”, alertou o Dr. Marco Aurélio.

A letalidade da DMI é entre 10% e 20%, sem diferenças em relação aos quadros clínicos associados à infecção pelos diferentes sorogrupos (exceto o sorogrupo W que alcança 25%). Aproximadamente um a cada cinco pacientes com DMI morre, mesmo recebendo tratamento adequado. Entre os que sobrevivem, uma porcentagem importante sofre sequelas neurológicas e/ou amputação de membros.

Para os autores do artigo publicado no Emerging Infectious Diseases, que descreve os dois casos de Men X em São Paulo, a vigilância ativa para a DMI, bem como o acréscimo de iniciativas de vigilância em algumas regiões, serão medidas necessárias para garantir uma boa resposta de saúde pública em termos de prevenção e controle. [1]

Os Drs. Marco Aurélio Sáfadi e Ana Paula S. Lemos informaram não ter conflitos de interesses relevantes ao tema.

Roxana Tabakman é bióloga, jornalista freelancer e escritora residente em São Paulo, Brasil. Autora dos livros A Saúde na Mídia, Medicina para Jornalistas, Jornalismo para Médicos (em português) e Biovigilados (em espanhol). A acompanhe no Twitter: @roxanatabakman.

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