Tratamento prolongado de privação de androgênio com o acréscimo da radioterapia melhora os resultados no câncer de próstata

Roxanne Nelson

Notificação

14 de setembro de 2022

Para homens com câncer de próstata que fazem prostatectomia radical e radioterapia pós-operatória, o acréscimo do tratamento de privação de androgênio durante 24 meses melhora os resultados, mais do que os da supressão androgênica durante seis meses.  

As conclusões são provenientes do ensaio clínico RADICALS-HD, que vem sendo realizado há 15 anos no Reino Unido, Dinamarca, Canadá e Irlanda.

Os resultados mostram que o tratamento de privação de androgênio feito por 24 meses foi melhor do que o tratamento feito por seis meses para melhorar a sobrevida livre de metástases (72% versus 78% em 10 anos) e também retardou o tempo até o tratamento de privação de androgênio de resgate (razão de risco de 0,73).

Entretanto, a duração mais prolongada do tratamento de privação de androgênio não melhorou a sobrevida global (razão de risco de 0,88).

"Falando em termos gerais, os homens que estão fazendo radioterapia pós-operatória para o câncer de próstata geralmente se saem bem e não evoluem com metástases em 10 anos", disse o primeiro autor, o médico Dr. Chris Parker,  consultor em oncologia clínica na Royal Marsden NHS Foundation Trust em Londres, Reino Unido. "Mas o acréscimo de dois anos de tratamento hormonal é mais eficaz do que seis meses de supressão".

"Até agora, os pacientes e os médicos precisaram depender de opiniões para escolher se acrescentavam ou não o tratamento de privação de androgênio à radioterapia", comentou Dr. Chris. Estes novos resultados ajudarão médicos e pacientes no futuro a tomar uma decisão baseada em evidências, acrescentou.

Os resultados foram apresentados em um Presidential Symposium durante o European Society for Medical Oncology (ESMO) Congress 2022.

O protocolo RADICAL foi projetado como um único protocolo de ensaio clínico, formado por duas coortes separadas. A primeira coorte, denominada RADICALS-RT, abordou o momento da radioterapia para homens que tinham feito prostatectomia radical recentemente e comparou a radioterapia adjuvante versus a radioterapia de resgate.

Os resultados em tela vêm da parte RADICALS-HD do ensaio, que foi uma comparação tripla de 0 meses vs. 6 meses vs. 24 meses do tratamento de privação de androgênio.

"Os objetivos do ensaio clínico foram testar a eficácia do acréscimo do tratamento hormonal à radioterapia pós-operatória e comparar o tratamento de curto prazo ao tratamento prolongado", disse Dr. Chris.

Não há benefício para o tratamento de privação de androgênio em curto prazo

O Dr. Chris e colaboradores designaram aleatoriamente 2.839 pacientes pós-operatórios que ainda não tinham feito radioterapia a um de três grupos: sem tratamento de privação de androgênio (nenhum), seis meses do tratamento de privação de androgênio (breve) ou 24 meses do tratamento de privação de androgênio (prolongado). A mediana de idade dos pacientes foi de 66 anos, com 23% dos pacientes com câncer em estádio pT3b/T4 e 20% com pontuação de Gleason de 8 a 10. A média do antígeno específico da próstata antes do início da radioterapia foi de 0,22 ng/mL.

O desfecho primário foi a sobrevida livre de metástases, e os desfechos secundários foram o tempo até o tratamento de privação de androgênio de resgate e a sobrevida global.

Nesta coorte, 1.480 pacientes foram incluídos na avaliação "nenhum vs. breve" e 1.523 pacientes na avaliação "breve vs. prolongado". Os autores observaram que, embora os grupos do estudo tenham sido equilibrados em cada comparação, os fatores de risco foram mais favoráveis em nenhum-vs.-breve em comparação a curto-vs.-prolongado.

Com uma mediana de acompanhamento de nove anos, seis meses do tratamento de privação de androgênio não melhoraram a sobrevida livre de metástases (de acordo com 268 eventos de sobrevida livre de metástases) em comparação a ausência do tratamento de privação de androgênio (razão de risco de 0,89; 79% vs. 80% sem eventos em 10 anos). Embora o tempo de resgate do tratamento de privação de androgênio tenha sido tardio (razão de risco de 0,54), a sobrevida global não foi melhorada (razão de risco de 0,88).

Na coorte de curto vs. prolongado, o tratamento de privação de androgênio por 24 meses melhorou a sobrevida livre de metástases (de acordo com 313 eventos de sobrevida livre de metástases; razão de risco de 0,77). O tempo do tratamento de privação de androgênio foi tardio, mas a sobrevida global também não foi melhor.

"Não houve melhora com o acréscimo de seis meses do tratamento de privação de androgênio, mas houve um benefício para curto-vs.-prolongado", disse Dr. Chris. "A sobrevida livre de metástases melhorou 23%".

O pesquisador indicou que, com esses resultados, os pacientes ainda tomarão decisões individualizadas em relação às suas opções terapêuticas no pós-operatório. "Alguns vão querer minimizar os efeitos tóxicos e podem decidir que a radioterapia isolada é um bom tratamento”, disse Dr. Chris. "Por outro lado, tem aqueles que querem maximizar a eficácia do tratamento, e eu acho que eles vão escolher dois anos do tratamento hormonal com a radioterapia e estar dispostos a lidar com os efeitos adversos".

Ele acrescentou que, com base nesses resultados, pode tornar-se menos comum no futuro usar seis meses de terapia hormonal.

Interpretação dos resultados

Convidado para comentar os novos dados pelo Medscape, o médico Dr. David J. Byun, radiologista oncológico no NYU Langone Perlmutter Cancer Center nos EUA, explicou que a atual compreensão do papel do tratamento de privação de androgênio no pós-operatório é orientada pelos ensaios clínicos RTOG 9601, GETUG-AFU 16 e SPPORT.

"Entretanto, o papel e a duração ideal do tratamento de privação de androgênio continuam sendo controversos, especialmente nos casos de resgate precoce", disse Dr. David, que não participou do RADICALS-HD.

"Com um antígeno específico da próstata mediano pré-tratamento de 0,22 ng/mL, o RADICALS-HD é um ensaio clínico de radioterapia de resgate adjuvante/precoce que questiona a necessidade e a duração ideal do tratamento de privação de androgênio com um desfecho primário de sobrevida livre de metástases. Embora a randomização de três vias tenha sido preferida, a maioria dos pacientes foi randomizada para não fazer o tratamento de privação de androgênio vs. seis meses do tratamento de privação de androgênio ou seis meses do tratamento de privação de androgênio vs. 24 meses do tratamento de privação de androgênio, limitando a capacidade de comparar adequadamente a ausência do tratamento de privação de androgênio a 24 meses do tratamento hormonal".

Dr. David indicou que ao avaliar os resultados da randomização de ausência do tratamento de privação de androgênio vs. o tratamento de privação de androgênio breve, o "RADICALS-HD parece reforçar a noção de que a radioterapia  de resgate precoce pode não exigir o acréscimo do tratamento de privação de androgênio breve, exceto para postergar o tempo de detecção da progressão bioquímica na maioria dos pacientes".

"Ou seja, seis meses do tratamento de privação de androgênio podem não conferir benefícios de sobrevida clinicamente significativos para os pacientes com baixos níveis de antígeno específico da próstata, nos quais a extensão da doença provavelmente permanece local", disse Dr. David, acrescentando, porém, que os resultados da análise de subgrupo da estratificação do nível de antígeno específico da próstata anterior à radioterapia não estavam disponíveis no momento em que ele revisou os dados.

"A interpretação dos resultados da randomização para o tratamento de privação de androgênio breve e prolongado exigiria contextualizar ainda mais as caraterísticas do paciente", continuou Dr. David. "Por exemplo, como os fatores de risco foram especificamente menos favoráveis em comparação ao grupo de nenhum vs. breve, qual foi a mediana do antígeno específico da próstata antes da radioterapia, qual percentual foi tratado com agonista da gonadorrelina e qual percentual de pacientes teve aumento persistente do antígeno específico da próstata no pós-operatório?"

Em uma discussão do artigo, a médica Dra. Silke Gillessen, Ph.D., diretora do Oncology Institute of Southern Switzerland e chefe do Department of Medical Oncology, Bellinzona na Suíça, enfatizou que a questão principal é quem deve receber o tratamento de privação de androgênio. "A verdadeira questão também é como individualizar o tratamento", disse a especialista.

"Uma abordagem é a genômica e tem sido demonstrado que ter uma pontuação de classificação de genômica mais alta foi associado a maior benefício do tratamento hormonal para a radioterapia de resgate", disse Dra. Silke. "Mas a diferença não foi estatisticamente significativa e o teste é caro".

Outra abordagem mais promissora é a utilização da inteligência artificial (IA) para leitura das lâminas de patologia. "Como esses exames têm validação clínica e se tornam mais amplamente disponíveis, também precisamos considerar uma combinação de fatores clínicos".

Dra. Silke acrescentou que uma metanálise de subgrupos de ensaios clínicos relevantes, como RADICALS-HD, pode ajudar a caracterizar a importância dos fatores clínicos e suas combinações.

O estudo foi financiado pelo Cancer Research UK, Medical Research Council e pelo National Institute for Health and Care Research's Clinical Research Network (NIHR CRN).

O Dr. Chris Parker informa ter relações financeiras com as empresas Bayer, Janssen, Myovant, ITM Radiopharma e AAA. Coautor C. Catton informa interesses financeiros com as empresas AbbVie e TerSera Corp. O coautor H. Payne informa ter interesses financeiros com as empresas AstraZeneca, Astellas, Sanofi-Aventis, Frerring, Bayer e Novartis. Os outros coautores do estudo informaram não ter conflitos de interesse financeiros relevantes.

2022 Congress of the European Society for Medical Oncology (ESMO). Abstract LBA9 . Apresentado em 12 de setembro de 2022.

Roxanne Nelson é enfermeira e uma premiada escritora médica que escreveu para muitas agências de notícias, contribuindo regularmente para o Medscape.

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