Exame de sangue para identificar vários tipos de câncer: muitos falsos-positivos

Roxanne Nelson

Notificação

13 de setembro de 2022

Os novos resultados de um grande estudo prospectivo dão uma ideia melhor de como um exame de sangue que consegue detectar vários tipos de câncer funciona na "vida real".

"Enquanto esta técnica avança, as pessoas precisam continuar a fazer o rastreamento convencional do câncer, mas isto é um vislumbre do que o futuro pode vir a oferecer", comentou a pesquisadora do estudo, a médica Dra. Deborah Schrag, diretora do Departamento de Medicina do Memorial Sloan Kettering Cancer Center nos Estados Unidos.

Para o estudo PATHFINDER, o exame de sangue Galleri (criado pela Grail) foi feito em 6.621 pessoas saudáveis com mais de 50 anos de idade, com ou sem outros fatores de risco de câncer (como história de tabagismo ou risco genético).

Foi encontrado um sinal positivo de câncer em 92 participantes (1,4%).

Nenhum dos participantes cujo resultado foi positivo sabia ter câncer ao fazer o exame. A investigação diagnóstica subsequente, que poderia ser feita por meio de exames e/ou biópsia, identificou câncer em 38% dos pacientes com resultado positivo do exame.

"Quando o exame foi positivo, as investigações diagnósticas eram normalmente feitas em menos de três meses", comentou Dra. Deborah, acrescentando que "o exame de sangue normalmente previu a origem do câncer".

A Dra. Deborah apresentou os resultados no European Society for Medical Oncology (ESMO) Annual Meeting 2022.

Convidado a comentar o estudo pelo Medscape, o médico Dr. Anthony J. Olszanski, vice-diretor de pesquisa no Fox Chase Cancer Center nos EUA, observou que o uso de um exame de sangue para "encontrar" o câncer já existe há muito tempo na mente dos pacientes. "Não é incomum ouvir pacientes oncológicos perguntar: 'por que meu médico não encontrou meu câncer mais cedo, em um exame de sangue’?"

Como este estudo sugere, encontrar um câncer antes que este se torne aparente nos exames de imagem ou apresente sinais ou sintomas está a um passo de se tornar realidade. "Mas embora este seja um estudo importante, deve-se registrar que apenas cerca de 40% dos pacientes com resultado positivo do exame tiveram comprovadamente câncer", disse o Dr. Anthony. "Inversamente, cerca de 60% dos pacientes com resultado positivo do exame provavelmente sofreram de uma ansiedade considerável que pode persistir mesmo depois da investigação diagnóstica não revelar nenhum câncer".

Outra questão importante é que estes exames podem gerar custos substanciais de saúde. "Menos de dois participantes em 100 tiveram resultado positivo do exame, e esses pacientes fizeram outros exames para esclarecer o resultado", acrescentou. "Também continua sendo pouco claro se a detecção precoce do câncer conduzirá a melhores desfechos".

Se o exame será ou não economicamente vantajoso ainda é uma incógnita, dado que Dra. Deborah destacou que não há uma análise formal de custos neste momento. "Esta técnica ainda não está pronta para o rastreamento de toda a população, mas à medida que a técnica melhorar, os custos vão diminuir", disse a pesquisadora.

Dra. Deborah acrescentou também que este é um conceito novo e o exame mostra que é praticável detectar o câncer por meio de um exame de sangue. "Não foi elaborado para determinar se o exame pode diminuir a mortalidade por câncer, que é obviamente o objetivo do rastreamento, mas isso ainda é prematuro", disse.

Detalhes dos resultados

O teste Galleri utiliza ADN acelular e aprendizagem por máquina para detectar um sinal de câncer comum a mais de 50 tipos de câncer, bem como para prever a origem do sinal de câncer.

Em geral, o teste detectou um sinal de câncer em 1,4 % (n = 92) dos participantes com amostras analisáveis.

No total, 90 participantes fizeram exames diagnósticos (33 verdadeiros-positivos e 57 falsos positivos). Dos verdadeiros positivos, 81,8% fizeram mais algum exame diagnóstico invasivo, bem como os 29,8% de falsos positivos.

A especificidade foi de 99,1%, o valor preditivo positivo foi de aproximadamente 40% e 73% dos verdadeiros positivos apresentaram resolução diagnóstica em menos de três meses.

Dos tipos de câncer diagnosticados, 19 eram tumores sólidos e 17 eram tipos de câncer hematológicos; sete foram diagnosticados em alguém com história de câncer, 26 eram tipos de câncer sem rastreamento convencional e 14 foram diagnosticados em fase inicial.

"O que é emocionante sobre este novo paradigma é que muitos destes eram tipos de câncer para os quais nós não temos um rastreamento convencional," disse Dra. Deborah.

Dra. Deborah notou que, dado o imenso interesse neste estudo, o fabricante está trabalhando para refinar o ensaio clínico e melhorar o exame. Foi feita uma reanálise de todas as amostras utilizando uma versão refinada do teste.

"Importante, a nova análise identificou menos pacientes com sinais positivos, de 1,4% para 0,9%", disse a pesquisadora. "A especificidade melhorou para 99,5%, tal como o valor preditivo positivo – de 38,0% para 43,1% – e é necessário que mais pessoas façam o rastreamento para encontrar um câncer – até 263 de 189".

Falsos positivos preocupantes

Resultados anteriores, e muito semelhantes, do ensaio clínico PATHFINDER foram apresentados no ano passado na reunião anual da American Society of Clinical Oncology e publicados pelo Medscape na época.

O médico Dr. Max Diehn, Ph.D., professor associado de radioterapia oncológica na Stanford University nos EUA, foi convidado como debatedor do estudo.

Dr. Max destacou o fato de que havia mais falsos-positivos do que verdadeiros-positivos e observou que “houve um número expressivo de procedimentos invasivos para pacientes com resultados falsos-positivos que poderiam ter prejudicado estes pacientes que não têm câncer”.

Dr. Max destacou também que a maioria dos verdadeiros-positivos foram para neoplasias linfoides, não para tumores sólidos, e não se sabe se a detecção precoce da neoplasia linfoide tem alguma utilidade clínica. 

O teste Galleri já está disponível nos Estados Unidos e está sendo oferecido por várias redes de saúde nos EUA. No entanto, não foi aprovado pela Food and Drug Administration dos EUA e não está coberto pelos planos de saúde, de modo que as pessoas precisam pagar cerca de 950 dólares por isso, do próprio bolso. 

Embora alguns especialistas estejam entusiasmados com o seu potencial, descrevendo-o como uma "virada de jogo", outros estão preocupados que ainda não existem vias clínicas para lidar com os resultados de um exame de sangue desta natureza, e dizem que o exame ainda não está pronto para a estreia, como relatado anteriormente pelo Medscape

O estudo foi financiado pela Grail, uma subsidiária da Illumina. Dra. Deborah Schrag informou ter relações financeiras com a empresa Grail, o periódico da American Medical Association e a empresa Pfizer. Vários coautores também revelaram ter relações com a indústria farmacêutica. O Dr. Anthony J. Olszanski informou ter sido membro de conselhos consultivos das empresas BMS, Merck e Instill Bio, e fazer ensaios clínicos para essas empresas.

ESMO 2022. Abstract 9030. Apresentado em 11 de setembro de 2022.

Roxanne Nelson é enfermeira e uma premiada escritora médica que escreveu para muitas agências de notícia, contribuindo regularmente para o Medscape.

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