Nova terapia produz respostas "sem precedentes" no tratamento neoadjuvante no câncer de cólon com dMMR

Liam Davenport

Notificação

13 de setembro de 2022

Respostas patológicas "sem precedentes" foram observadas após a administração de um ciclo neoadjuvante de 4 semanas com ipilimumabe e nivolumabe em pacientes com câncer de cólon com reparo de mismatch deficiente (dMMR, do inglês deficient mismatch repair), segundo relatos de pesquisadores sobre os novos resultados do ensaio clínico NICHE-2.

O estudo envolveu 112 pacientes com câncer de cólon com dMMR que receberam um ciclo de ipilimumabe em baixa dose e dois ciclos de nivolumabe, seguidos de cirurgia.

Os resultados mostraram que 95% dos pacientes tiveram uma resposta patológica maior e 67% tiveram uma resposta patológica completa à imunoterapia.

Até o momento, nenhum dos pacientes teve recidiva da doença após um acompanhamento mediano de 13,1 meses.

A médica apresentadora do estudo, Dra. Myriam Chalabi, oncologista do Nederlands Kanker Instituut, nos Países Baixos, descreveu os achados como "sem precedentes", especialmente porque muitos dos pacientes tinham doença em estágio 3 de alto risco e a taxa de recidiva da doença esperada nesses pacientes, com a quimioterapia adjuvante padrão, teria sido normalmente em torno de 15%.

"É importante ressaltar que o tratamento foi muito bem tolerado", ela acrescentou.

A Dra. Myriam apresentou os novos resultados durante uma sessão presidencial na Reunião Anual de 2022 da European Society for Medical Oncology (ESMO), realizada em Paris, na França.

A imunoterapia neoadjuvante "tem o potencial de se tornar o padrão de tratamento" nesses pacientes, disse ela, acrescentando que o "futuro nunca foi tão promissor" no manejo do câncer de cólon com dMMR.

Cerca de 10% a 15% dos cânceres de cólon apresentam dMMR, e cerca de 33% deles estão associados à síndrome de Lynch, observou ela.

Ela também pediu às empresas farmacêuticas que busquem aprovação para imunoterapia nessa população de pacientes, ao som de aplausos calorosos do público.

Comentando os resultados, o médico Dr. Andrés Cervantes, Ph.D., professor de medicina na Universitat de València, na Espanha, disse em um comunicado de imprensa da ESMO que o estudo "inovador questiona a necessidade de cirurgia e quimioterapia pós-operatória em todos os pacientes nos quais o tumor primário desapareceu."

Ele observou que a quimioterapia adjuvante se manteve como o tratamento padrão, "apesar de a quimioterapia não ser tão ativa e não ser observado um desaparecimento completo do tumor na peça cirúrgica”.

De forma geral, o Dr. Andrés disse que o status de dMMR é um “forte preditor do efeito positivo observado nesta imunoterapia de curta duração”, acrescentando que “a determinação do dMMR pode ser facilmente realizada através de imuno-histoquímica em um laboratório tradicional de patologia, sem a necessidade de testes moleculares complexos."

A "toxicidade mínima" observada no estudo "também pode facilitar a implementação dessa estratégia, potencialmente poupando os pacientes da cirurgia".

Detalhes dos novos resultados 

No estudo NICHE-2, pacientes com câncer de cólon em estágio T3c com dMMR e/ou comprometimento linfonodal, mas sem metástases e sinais de obstrução, receberam uma dose de ipilimumabe 1 mg/kg e duas doses de nivolumabe 3 mg/kg antes da cirurgia em até 6 semanas da inscrição.

Os 112 participantes tinham uma idade média de 60 anos e pouco mais da metade eram mulheres. Desses pacientes, 74% tinham doença de alto risco em estágio 3, incluindo 64% dos pacientes com tumores clínicos T4a ou T4b e 62% com câncer em estágio radiológico N2.

O tempo médio entre a primeira dose de imunoterapia e a cirurgia foi de 5,4 semanas.

Foram observados eventos adversos relacionados ao sistema imunológico em 61% dos pacientes, mas apenas 4% deles apresentaram eventos adversos de grau 3 ou 4. Consequentemente, 2% dos pacientes tiveram uma demora na cirurgia, o que significa que o estudo atingiu seu desfecho primário de segurança.

Ao final do estudo, todos os pacientes foram operados, sendo que 100% deles tiveram ressecções R0.

Foi observada uma resposta patológica em 99% dos pacientes, sendo que 95% tiveram uma resposta patológica maior, definida como 10% ou menos de tumor viável residual, e 4% uma resposta parcial, definida como de 10% a 50% de tumor viável residual. Foi observada uma resposta patológica completa, incluindo o leito tumoral e os linfonodos, em 67% dos participantes.

Houve uma diferença significativa limítrofe, nos pacientes com resposta patológica completa, entre os 66 pacientes com tumores esporádicos e os 32 com síndrome de Lynch, de 58% versus 78% (P = 0,056).

Na reunião, o médico debatedor Dr. James Larkin, Ph.D., oncologista clínico e consultor do Royal Marsden, no Reino Unido, que não participou do estudo, concordou que os resultados foram "impressionantes", com "o tratamento breve (...) [mostrando] um efeito importante."

No entanto, ele enfatizou que será "importante" observar os dados pré-especificados de sobrevida livre de doença após 3 anos e questionou se a dose única baixa de ipilimumabe seria, de fato, necessária.

O Dr. James também enfatizou que as estratégias de preservação de intestino no câncer de cólon são menos "claras" do que no câncer retal e exigiriam acompanhamento contínuo com colonoscopias e, potencialmente, biópsias. Ele também disse ser "essencial" obter a opinião dos pacientes sobre o desejo de preservar o órgão.

O estudo foi financiado pela Bristol Myers Squibb. A Dra. Myriam informou não ter conflitos de interesses. As informações sobre conflitos de interesses dos outros autores estão listadas no resumo. O Dr. James informou vínculos com as empresas Eisai, Novartis, Merck, Pfizer, BMS, iOnctura, Debiopharm, Incyte, MSD, Pierre Fabre, Ibsen, Roche, EUSA Pharma, AstraZeneca, GSK, Calithera, Ultimovacs, Seagen e Nektar Therapeutics.

ESMO 2022. Abstract LBA7. Apresentado em 11 de setembro de 2022.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....