Anti-inflamatórios não esteroides ligados a risco de insuficiência cardíaca no diabetes

Richard Mark Kirkner

Notificação

5 de setembro de 2022

Pacientes com diabetes que tomam anti-inflamatórios não esteroides, mesmo durante pouco tempo, podem ter um aumento de cerca de 50% do risco de insuficiência cardíaca, segundo resultados de um estudo de registro nacional dinamarquês com mais de 330.000 pacientes, apresentado no congresso anual da European Society of Cardiology.

"De acordo com os dados deste estudo, até mesmo o uso de anti-inflamatórios não esteroides por pouco tempo – até 28 dias – pelos pacientes com diabetes mellitus tipo 2 está associado a maior risco de hospitalização pela primeira vez por insuficiência cardíaca", disse em uma entrevista o médico chefe do estudo, Dr. Anders Holt.

"Além disso, parece que pacientes acima de 79 anos de idade ou com altos níveis de hemoglobina glicada (A1c), bem como os novos usuários de anti-inflamatórios não esteroides, são particularmente suscetíveis." O pesquisador acrescentou que não foi observada essa associação em pacientes com menos de 65 anos de idade e níveis normais de hemoglobina glicada.

O Dr. Anders é cardiologista na Københavns Universitet e no Herlev-Gentofte Hospital na Dinamarca, e no departamento de epidemiologia e bioestatística na University of Auckland, Nova Zelândia. O médico Dr. Jarl Emmanuel Strange, Ph.D., seu colega na Københavns Universitet, apresentou o abstract em 26 de agosto.

"Esta é uma observação bastante importante dado que, infelizmente, os anti-inflamatórios não esteroides continuam a ser prescritos com liberalidade para os pacientes com diabetes e estes fármacos têm um risco", disse a médica Dra. Rodica Busui, Ph.D., codiretora do JDRF Center of Excellence at the University of Michigan, nos Estados Unidos, e eleita presidente de medicina e ciência da American Diabetes Association. A Dra. Rodica também é a principal autora de um documento de consenso das sociedades American Diabetes Association/American College of Cardiology sobre a insuficiência cardíaca no diabetes.

O estudo levantou a hipótese de que a retenção de líquidos” seja um efeito colateral conhecido, mas pouco valorizado", do uso de anti-inflamatórios não esteroides e que o uso dessa classe por pouco tempo possa levar pacientes com diabetes tipo 2 à insuficiência cardíaca, que tem sido ligada à miocardiopatia subclínica e à disfunção renal.

"Segundo este estudo, particularmente as análises dos subgrupos, aparentemente a insuficiência cardíaca de início recente associada ao uso dos anti-inflamatórios não esteroides por pouco tempo poderia ser mais do que 'apenas sobrecarga de líquidos’", disse o Dr. Anders. "São necessárias novas pesquisas sobre os mecanismos específicos que provocam estas associações."

O estudo identificou 331.189 pacientes com diabetes tipo 2 em cadastros nacionais dinamarqueses de 1998 a 2018. A mediana de idade foi de 62 anos e 23.308 dos pacientes (7%) foram internados com insuficiência cardíaca durante o acompanhamento, disse o Dr. Anders. Destes, 16% pegaram pelo menos uma prescrição de anti-inflamatório não esteroide em dois anos e 3% afirmaram ter pegado pelo menos três prescrições.

O acompanhamento do estudo foi iniciado 120 dias após o diagnóstico inicial de diabetes tipo 2 e concentrou-se nos pacientes que não tinham diagnóstico prévio de insuficiência cardíaca ou doença reumatológica. Os pesquisadores relataram pacientes que receberam uma, duas, três ou quatro prescrições de anti-inflamatórios não esteroides no prazo de um ano após o início do acompanhamento.

O estudo utilizou um desenho de caso cruzado, que, segundo o abstract, "usa cada participante como seu próprio controle, tornando-o adequado para estudar o efeito da exposição em curto prazo em eventos imediatos, enquanto mitiga a confusão não avaliada".

O Dr. Anders observou que o uso de anti-inflamatórios não esteroides por pouco tempo foi associado ao aumento do risco de hospitalização por insuficiência cardíaca (razão de chances [RC] de 1,43; intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,27 a 1,63). Os pesquisadores identificaram risco ainda maior em três subgrupos: idade de pelo menos 80 anos (RC de 1,78; IC 95% de 1,39 a 2,28), altos níveis de hemoglobina glicada tratados com um hipoglicemiante ou menos (RC de 1,68; IC 95% de 1,0 a 2,88) e pacientes sem uso prévio de anti-inflamatórios não esteroides (RC de 2,71; IC 95% de 1,78 a 4,23).

Na coorte, o celecoxibe e o naproxeno raramente foram utilizados (0,4% e 0,9%, respectivamente), enquanto 3,3% dos pacientes receberam diclofenaco ou 12,2% receberam ibuprofeno. Esses dois últimos anti-inflamatórios não esteroides apresentaram RC de 1,48 e 1,46, respectivamente, de hospitalização por insuficiência cardíaca de início recente – utilizando janelas de exposição de 28 dias (IC 95% de 1,1 a 2,0 e de 1,26 a 1,69, respectivamente). Não houve aumento do risco para o celecoxibe ou o naproxeno.

"Idade avançada e altos níveis de hemoglobina glicada, bem como ser novo usuário, foram relacionados com as associações mais fortes, junto com o uso conhecido de inibidores do sistema renina-angiotensina e diuréticos", disse o Dr. Anders. "Pelo contrário, pareceu seguro – a partir dos nossos dados – prescrever anti-inflamatórios não esteroides de curta duração para os pacientes com menos de 65 anos de idade e para os pacientes com níveis normais de hemoglobina glicada.”

"Vale ressaltar", acrescentou, “que a doença cardíaca estrutural subclínica entre pacientes com diabetes tipo 2 poderia desempenhar um papel importante".

Os resultados são excepcionais, disse a Dra. Rodica. "Embora existam algumas limitações no desenho do estudo em geral quando se olha para os dados extraídos dos registros, o tamanho muito grande da amostra e o fato de o registro nacional dinamarquês coletar dados de forma sistemática tornaram os achados muito relevantes, especialmente agora que temos confirmado que a insuficiência cardíaca é a complicação cardiovascular mais prevalente entre os pacientes com diabetes, como destacamos no mais recente consenso das sociedades American Diabetes Association/American College of Cardiology sobre a insuficiência cardíaca no diabetes."

O estudo recebeu financiamento da Danish Heart Foundation e de várias fundações particulares. O Dr. Anders Holt e colaboradores informaram não ter conflitos de interesse. A Dra. Rodica Busui informou ter relações financeiras com as empresas AstraZeneca, Boehringer Ingelheim–Lilly Alliance, Novo Nordisk, Averitas Pharma, Nevro, Regenacy Pharmaceuticals e Roche Diagnostics.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com Medscape Professional Network.

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