Risco de câncer é mais alto para homens do que para mulheres: por quê?

Liam Davenport

Notificação

17 de agosto de 2022

Em comparação com as mulheres, os homens têm um risco significativamente maior de serem diagnosticados com 11 tipos diferentes de câncer, e esse risco é três vezes maior em relação a certos tipos de câncer, como de esôfago, laringe, estômago e bexiga.

Mas por quê? Segundo uma nova análise, os comportamentos de risco e a exposição a cancerígenos explica apenas parte dessa diferença.

"Há diferenças na incidência de câncer que não podem ser explicadas apenas pelas exposições ambientais", comentou a primeira autora do estudo, Dra. Sarah S. Jackson, Ph.D., da Divisão de Epidemiologia e Genética do Câncer do National Cancer Institute nos Estados Unidos.

"Isso sugere a existência de diferenças biológicas intrínsecas entre homens e mulheres, que influenciam a suscetibilidade ao câncer", ela acrescentou em uma declaração.

O estudo foi publicado on-line em 08 de agosto no periódico Cancer.

"A compreensão dos mecanismos biológicos relacionados com o sexo que levaram ao predomínio do câncer entre os homens em sítios anatômicos compartilhados [presentes em pessoas de ambos os sexos] pode ter implicações importantes para a etiologia e a prevenção", sugeriram os pesquisadores.

Em uma entrevista, a Dra. Sarah disse que os resultados "não corroboram modificações no atual protocolo de prevenção do câncer" para fazer face às disparidades da prevalência do câncer entre homens e mulheres.

"Antes de qualquer recomendação, são necessárias mais pesquisas", disse a pesquisadora para o Medscape. "Por exemplo, precisamos de mais pesquisas sobre a resposta imunitária feminina. Se descobrirmos os mecanismos pelos quais as mulheres têm uma vantagem imunitária, talvez possamos desenvolver tratamentos para reforçar o sistema imunitário com o intuito de prevenir e tratar o câncer.

"Também deveríamos começar a divulgar os achados sobre a incidência, o rastreamento e a sobrevida do câncer por sexo, garantindo assim que não estamos deixando de ver importantes associações específicas aos sexos".

Análises abrangentes

Os pesquisadores "merecem ser aplaudidos" pela "minuciosidade e completude de suas análises", disseram os autores do editorial que acompanha o estudo, Dra. Jingqin R. Luo, Ph.D., e Dr. Graham A. Colditz, DrPH, ambos médicos afiliados à Washington University School of Medicine nos EUA.

Esse trabalho "reforçou nosso entendimento sobre as disparidades sexuais no câncer, especialmente no que diz respeito às contribuições dos fatores de risco".

Entretanto, como a população do estudo era em grande parte idosa, e omitiu doenças concomitantes, como hipertensão arterial sistêmica, hipercolesterolemia e doença cardiovascular, há algumas limitações "pertinentes", comentaram os editorialistas.

A contribuição dos fatores de risco de disparidades sexuais "provavelmente se dá via interações complexas", e os editorialistas questionaram se a modelagem estatística utilizada no estudo foi "excessivamente rigorosa". Outros aspectos que precisam ser considerados são a raça e os determinantes socioeconômicos da saúde, sugeriram eles.

No entanto, eles destacaram que as disparidades em relação ao sexo têm sido "observadas em quase todos os aspectos do continuum do câncer", sendo necessária uma "abordagem multifacetada” como estratégia.

"A inclusão estratégica do sexo como variável fisiológica deve ser aplicada ao longo de todo o continuum do câncer, desde a previsão do risco e a prevenção primária, o rastreamento, a prevenção secundária, até o tratamento da doença e o acompanhamento do paciente", concluíram Dra. Jingqin e Dr. Graham.

Detalhes das análises

Em seu artigo, Dra. Sarah e colaboradores indicaram que a probabilidade de câncer ao longo da vida é "aproximadamente igual" para os homens e as mulheres, de 40% versus 39%, respectivamente.

No entanto, o número de casos de câncer nos sítios anatômicos compartilhados entre os sexos é "significativamente mais alto" entre os homens, com risco relativo mais de duas vezes maior do que o risco relativo para as mulheres.

Alguns estudos anteriores indicaram diferenças em termos de tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, alimentação, acesso e utilização dos recursos de saúde e rastreamento do câncer entre homens e mulheres, que justificariam a disparidade sexual, observaram os pesquisadores, mas poucos utilizaram dados a nível individual.

Assim, [os autores] examinaram os registros do estudo prospectivo National Institutes of Health - AARP Diet and Health Study , lançado em 1995 com um questionário inicial enviado aos 3,5 milhões de membros da AARP entre 50 e 71 anos de idade, residentes em seis estados dos EUA. Na época, 617.119 pessoas preencheram o questionário inicial (17,6% do total).

O estudo em tela se concentrou nos 334.905 participantes que também preencheram um questionário de acompanhamento entre 1996 e 1997, contemplando informações mais detalhadas sobre alimentação e outros fatores do estilo de vida.

Depois de excluir quem já havia recebido um diagnóstico de câncer, disse não ter boa saúde, tinha ingestão calórica extremamente alta ou baixa, ou informou incongruência de gênero, os pesquisadores avaliaram 294.100 pessoas (58% de homens e 42% de mulheres; mediana de idade: 63,5 anos).

Depois de mais de uma década de acompanhamento (média de 11,5 pessoa-anos para os homens e 12,4 pessoa-anos para as mulheres), a equipe encontrou 26.693 tipos de câncer incidentes em 21 sítios anatômicos compartilhados. Destes, 17.951 eram homens e 8.742 mulheres.

Os cinco tipos de câncer mais comuns foram quase os mesmos: os três primeiros foram câncer de pulmão, câncer de cólon e câncer de pele entre homens e mulheres, e o quinto mais comum foi o câncer renal também entre ambos. O câncer de bexiga ficou em quarto lugar entre os homens, posição ocupada pelo câncer de pâncreas entre as mulheres.

Após o ajuste por covariáveis demográficas, estilo de vida e alimentação, os pesquisadores constataram que os tipos de câncer com as relações de risco mais elevadas entre homens e mulheres foram o adenocarcinoma do esôfago (10,80), câncer de laringe (3,53), câncer do gástrico (cárdia; 3,49) e câncer de bexiga (3,33).

Por outro lado, os homens tiveram menor risco de câncer da tiroide, numa relação de risco vs. mulheres de 0,55 e câncer da vesícula biliar, numa relação de risco de 0,33.

A equipe disse que, em geral, o aumento do risco relativo entre os homens se manteve após o ajuste por covariáveis para 11 tipos de câncer, mas a relação deixou de ser significativa para muitos outros, como o câncer de pulmão, de pâncreas, do intestino delgado, de cólon, da cavidade oral, o carcinoma de células escamosas do esôfago e outros tipos de câncer de cabeça e pescoço.

A modelagem de regressão de riscos proporcionais de Cox usando o método de Peters-Belson indicou que as diferenças dos fatores de risco entre os sexos explicaram pelo menos algumas das diferenças observadas entre homens e mulheres em sete sítios de câncer.

Estes foram câncer de pulmão, cólon, reto, trato biliar (exceto vesícula biliar), pele, bexiga e adenocarcinoma do esôfago, com 11,2% da variância explicada pelas diferenças dos fatores de risco de adenocarcinoma do esôfago, subindo para 49,4% para o câncer de pulmão.

Curiosamente, não houve interação significativa entre a incidência de câncer em nenhum dos sítios anatômicos e consumo de bebidas alcoólicas, tabagismo, índice de massa corporal e faixa etária.

A Dra. Sarah disse para o Medscape que as diferenças entre os sexos nos desfechos do câncer "representam uma área muito promissora de pesquisa" e que sua equipe "quer absolutamente estudar melhor essas associações".

"O conjunto de dados que usamos é formado em grande parte de adultos brancos não hispânicos. Gostaríamos de ver se o mesmo viés está presente em outros grupos étnicos, o que forneceria mais evidências de uma base biológica para essas diferenças".

"Também gostaríamos de explorar a contribuição dos hormônios sexuais e da genética para a incidência do câncer em pesquisas futuras", acrescentou Dra. Sarah.

O estudo foi financiado pelo Intramural Research Program of the National Institutes of Health, National Cancer Institute. A Dra. Sarah S. Jackson Ph.D., fez este trabalho como bolsista de pós-doutorado na Division of Cancer Epidemiology and Genetics, National Cancer Institute. A Dra. Sarah S. Jackson informou ter vínculos comerciais com a empresa Merck & Co. sem relação com o trabalho enviado.

O editorial foi parcialmente apoiado por um National Cancer Institute Cancer Center Support Grant. A Dra. Jingqin R. Luo informou receber subsídios dos National Institutes of Health sem relação com o trabalho submetido. O Dr. Graham A. Colditz informou o recebimento de subsídios da Breast Cancer Research Foundation e do National Cancer Institute sem relação com o trabalho submetido. Não foram informadas outras relações financeiras relevantes.

Cancer. Publicado on-line em 08 de agosto de 2022. Abstract Editorial  

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