Você sabe diagnosticar alergias a Cannabis?

Lorraine L. Janeczko

Notificação

15 de agosto de 2022

À medida que mais lugares legalizam o uso medicinal e recreativo da Cannabis e a sua popularidade aumenta, os médicos precisam aprender a diagnosticar e controlar alergias associadas a essa substância, segundo um documento-síntese de um consenso internacional.

As reações alérgicas à Cannabis incluem rinite, conjuntivite, asma, reações cutâneas e anafilaxia causada pela semente de cânhamo. Dentre as formas de exposição à substância estão: fumar, ingerir, inalar pólen ou fumaça de Cannabis e contato com a pele, além de alergias ocupacionais.

"A Cannabis pode causar reações de hipersensibilidade dos tipos 1 e 4. Os alérgenos oficialmente reconhecidos incluem a profilina, um alérgeno de classe 10 relacionado à patogênese alérgica, e uma proteína de transferência de lipídios inespecífica”, escreveram a nutricionista Dra. Isabel J. Skypala, Ph.D., do Imperial College London, no Reino Unido, e seus colaboradores no periódico Allergy.

"A Cannabis é a droga recreativa mais utilizada no mundo. A Cannabis sativa e a Cannabis indica foram criadas seletivamente para desenvolver suas propriedades psicoativas. O aumento do uso em muitos países foi acelerado pela pandemia de covid-19", acrescentaram os autores.

Diagnosticar a alergia a Cannabis é difícil

Cerca de 192 milhões de pessoas (3,9% da população mundial) utilizam Cannabis sativa medicinal ou recreativa, porém, a ilegalidade dificulta pesquisas e gera desafios diagnósticos.

A história clínica é a avaliação mais importante na alergia a Cannabis dependente de imunoglobulina E (IgE), mas os pacientes nem sempre admitem o uso ilegal de Cannabis. Os autores recomendam a criação de um formulário de ingestão padronizado com perguntas relacionadas à Cannabis.

Nenhum extrato comercial está disponível para ensaios clínicos, portanto, testes cutâneos de leitura imediata não padronizados com brotos, folhas ou sementes de Cannabis podem ser a única opção, se disponíveis. No entanto, a reatividade cruzada em pacientes sensíveis ao pólen e alimentos vegetais pode positivar testes cutâneos clinicamente insignificantes de testes cutâneos.

Embora os testes cutâneos com extratos de Cannabis pré-preparados possam ser mais bem padronizados e projetados para concentrar componentes alérgenos conhecidos, nem sempre estão disponíveis nos ambulatórios e, assim como os testes cutâneos, a sensibilização do paciente pode afetar os resultados. Nenhum teste comercial de anticorpos IgE (sIgE) específicos para Cannabis sativa ou Cannabis indica está disponível para uso clínico.

Os autores recomendam avaliações iniciais com testes cutâneos utilizando extrato nativo e/ou quantificação de IgE específica para cânhamo e, se necessário, cálculo da relação IgE específica/IgE total, diagnóstico molecular e/ou teste de ativação de basófilos ou teste de ativação passiva de mastócitos, se disponíveis. Resultados negativos indicam que a alergia a Cannabis é muito improvável.

Eles não recomendam o teste de provocação com Cannabis inalada, devido a possíveis questões legais e ao risco da fumaça de Cannabis inalada desencadear hiperresponsividade inespecífica, e não confirmar a alergia. Além disso, não se sabe qual a confiabilidade dos testes de provocação oral para produtos comestíveis à base de Cannabis ou de sementes de cânhamo e a sensibilização a outros alérgenos, incluindo mofo, pólen e alimentos.

Educação continuada e pesquisa são necessárias 

A alergia a Cannabis pode virar um importante problema de saúde pública, escreveram os autores. Mais dados reais são necessários, protocolos de testes e tratamentos precisam ser desenvolvidos, e os profissionais de saúde precisam aprender a se comunicar com seus pacientes para poder fornecer o atendimento ideal.

O artigo sobre alergia a Cannabis é um passo inicial. Para ajudar a capacitar os profissionais de saúde e promover pesquisas sobre alergias a Cannabis, membros do American College of Asthma Allergy and Immunology (ACAAI), da European Academy of Allergy and Clinical Immunology (EAACI) e da Canadian Society of Allergy and Clinical Immunology (CSACI) formaram o Cannabis Allergy Interest Group (CAIG).

Com o intuito de coletar mais dados reais, o grupo planeja criar um registro e um biobanco para armazenar amostras da Europa, Estados Unidos e Canadá, e desenvolver diretrizes internacionais sobre diagnóstico e manejo de alergia a Cannabis. O grupo também está realizando uma pesquisa entre os membros de suas três sociedades sobre conhecimentos, atitudes e práticas relacionadas à alergia a Cannabis.

Adaptando o tratamento aos objetivos do paciente

O único tratamento atual para alergia a Cannabis é evitar o uso e, quando isso não for possível, como na exposição ocupacional, os autores recomendam tratar os sintomas com anti-histamínicos, corticoides intranasais e inalatórios, colírios anti-histamínicos, estabilizadores de mastócitos e epinefrina autoinjetável.

O Dr. David Lo, Ph.D., reitor associado sênior de pesquisa e professor distinto na Divisão de Ciências Biomédicas da Riverside School of Medicine, University of California, nos Estados Unidos, disse ao Medscape que há alergias a praticamente qualquer material orgânico, incluindo os vegetais, como no caso das alergias alimentares.

“A maioria das pessoas não desenvolve alergia a esses elementos, mas quando isso ocorre, geralmente é devido a alguma proteína ou fragmento no material”, disse ele em um e-mail.

“As alergias a extratos de plantas como a Cannabis podem ser evitadas, se o objetivo principal for a liberação de um ingrediente ativo como o tetraidrocanabinol (THC) ou compostos relacionados”, explicou o Dr. David, que não participou da elaboração do consenso. “Nesse caso, uma versão altamente purificada (ou melhor ainda, uma versão sintética) seria utilizada. Dessa forma, a proteína que é alvo da alergia estaria ausente.” 

"Por outro lado, se o objetivo for utilizar um extrato no qual o componente ativo seja sabidamente uma proteína ou um fragmento de proteína, fica mais difícil, e pode ser necessário sintetizar uma proteína recombinante que não possua o alérgeno na sua composição", ele acrescentou.

A purificação extrema a partir do material vegetal bruto é possível, mas, frequentemente, difícil de ser realizada, disse o Dr. David.

"É por isso que vemos tantos rótulos de alimentos informando que eles foram produzidos em uma fábrica na qual são processados amendoins ou nozes. Os alérgenos podem ser detectados pelo sistema imunológico e potencialmente desencadear anafilaxia, mesmo em concentrações extremamente baixas.

“No entanto, no caso da Cannabis, é improvável que o ingrediente ativo desejado seja uma proteína. Muito provavelmente, são compostos como o THC ou produtos químicos relacionados”, observou ele. "As versões sintéticas são a solução ideal para pessoas com alergias conhecidas, porém elas provavelmente são muito caras."

Aumento da conscientização e desafios atuais

A médica Dra. Tiffany Owens, professora assistente de alergia e imunologia no Ohio State University Wexner Medical Center, nos Estados Unidos, definiu o consenso como uma revisão importante e completa da literatura disponível, resumindo informações atualizadas sobre alergia a Cannabis.

“Muitos médicos não alergologistas podem não estar cientes de que a alergia a Cannabis é um possível problema”, disse ela em um e-mail. "Espero que este relatório ajude a expandir os diagnósticos diferenciais para incluir a alergia a Cannabis quando for apropriado, e ajude os pacientes a receberem orientações e tratamento adequados.

“Ainda é difícil para alguns médicos e pacientes discutirem a alergia a Cannabis, devido a preocupações sobre a legalidade da aquisição, posse e uso da planta, falta de conhecimento dos médicos sobre o uso de Cannabis e hesitação dos pacientes em discutir seu uso de Cannabis”, acrescentou a Dra. Tiffany, que também não participou do estudo.  

“Será importante continuar auxiliando médicos e pacientes com informações baseadas em evidências sobre os riscos e benefícios da Cannabis”, disse ela. "Estou interessada em ver quais futuras modalidades de testes de alergia se tornarão disponíveis."

A Dra. Isabel e vários coautores informaram vínculos financeiros com a indústria farmacêutica. O Dr. David e a Dra. Tiffany informaram não possuir conflitos de interesses. O estudo recebeu apoio financeiro da International Cannabis Allergy Collaboration, do American College of Allergy, Asthma and Immunology, da Canadian Society of Allergy and Clinical Immunology e da European Academy of Allergy and Clinical Immunology.

Allergy. Publicado on-line em 31 de janeiro de 2022. Texto completo.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube.

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....