Em uma tacada só: fármacos usados para a cessação do tabagismo podem ajudar a reduzir o consumo de álcool

Marcus A. Banks

Notificação

12 de agosto de 2022

Medicamentos que ajudam a parar de fumar parecem ter outro benefício: reduzir o consumo excessivo de álcool.

Pesquisadores nos Estados Unidos e na Rússia descobriram que vários medicamentos usados para reduzir a ânsia por nicotina (tanto de venda controlada como de venda livre) diminuem os níveis de consumo de tabaco e de álcool em uma tacada só. As pessoas que pararam de fumar foram as que mais reduziram o consumo alcoólico.

O consumo excessivo de tabaco e de álcool muitas vezes andam de mãos dadas, de acordo com a primeira autora do estudo, Dra. Hilary Tindle, médica da área de medicina interna e diretora fundadora do Vanderbilt Center for Tobacco, Addiction and Lifestyle no Vanderbilt University Medical Center, nos Estados Unidos.

“Se um medicamento para parar de fumar contribuir para [a cessação] do uso de tabaco e de álcool, será uma grande vitória. É um medicamento a menos para tomar”, disse a Dra. Hilary ao Medscape.

O estudo foi publicado on-line em 05 de agosto no periódico JAMA Network Open.

O uso de terapias de cessação de nicotina direcionadas a neurônios específicos mostrou uma redução do consumo excessivo de álcool em ratos, sugerindo a possibilidade de associação neuronal entre beber e fumar, explicou a Dra. Hilary. Além disso, disse a médica, muitos dos estímulos que induzem ao tabagismo intenso também incentivam o consumo excessivo de álcool. Esses gatilhos variam de pessoa para pessoa, mas podem incluir observar outras pessoas fumando e bebendo em um bar ou sentir o cheiro da fumaça de cigarro ou do álcool. Assim, uma terapia que aborde um problema pode fornecer lastro psicológico para lidar com o outro, ela destacou.

Todos 400 participantes do novo estudo (263 homens; média de idade, 39 anos) tinham vírus da imunodeficiência humana (VIH) e moravam em São Petersburgo, na Rússia. Antes da inscrição no estudo, os participantes fumavam em média 21 cigarros por dia e faziam uso excessivo de álcool em média nove vezes (dias) por mês. “Consumo excessivo” foi definido como pelo menos cinco doses de álcool em um dia para homens e pelo menos quatro doses em um dia para mulheres.

Os pesquisadores randomizaram os participantes entre quatro grupos. O primeiro grupo recebeu vareniclina (um medicamento para cessação do tabagismo) + placebo em forma de spray bucal, mimetizando as soluções do tipo contendo nicotina; o segundo, recebeu placebo de vareniclina + spray bucal ativo; o terceiro, recebeu citisina (outro medicamento para cessação do tabagismo) + spray bucal placebo; e o quarto grupo recebeu citisina placebo + spray bucal ativo.

O desfecho primário foi a redução na quantidade de dias de consumo excessivo de álcool nos últimos 30 dias, em comparação com o início do estudo, após três meses. Em todos os grupos, independentemente da estratégia de cessação do tabagismo, o consumo excessivo de álcool caiu para uma média de aproximadamente duas vezes em 30 dias, em comparação com nove vezes antes do início do estudo. Não houve diferença significativa entre as abordagens, de acordo com os pesquisadores.

Os níveis de tabagismo também caíram por até 12 meses, em alguns casos chegando à abstinência, de acordo com os pesquisadores. Em três meses, 84 dos 400 participantes (21%) pararam de beber, o que os pesquisadores verificaram bioquimicamente. De acordo com o relato dos participantes, a abstinência alcoólica se manteve seis e doze meses após o fim do estudo.

Os pesquisadores disseram que esperavam que a vareniclina e a citisina contribuíssem mais do que a reposição de nicotina para reduzir a quantidade de dias de consumo excessivo de álcool ou a cessação do consumo de álcool.

“Ficamos bastante surpresos em ver que não houve diferença quanto ao nível de contribuição para a redução do consumo de álcool de nenhum desses medicamentos”, disse a Dra. Hilary. O spray bucal usado no estudo não pode ser comprado sem prescrição médica nos Estados Unidos, mas a médica informou que os substitutos de nicotina de venda livre são considerados eficazes e podem ser encontrados em forma de pastilha, adesivo ou spray.

Análises post hoc dos resultados do estudo mostraram um potencial círculo virtuoso: as pessoas que cessaram o uso de tabaco aparentemente reduziram o consumo de álcool de forma mais significativa do que as que diminuíram o ritmo, mas não pararam totalmente de fumar.

“Isso aumenta a base de evidências de que há benefícios nos medicamentos para parar de fumar. Há um verdadeiro valor em ajudar as pessoas a pararem de fumar”, comentou a Dra. Stephanie O'Malley, Ph.D., professora de psiquiatria Elizabeth Mears e House Jameson na Yale University School of Medicine, nos EUA, que estudou o uso da vareniclina para o transtorno do uso de álcool.

A Dra. Hilary observou que a citisina está disponível na Rússia, mas não nos Estados Unidos. Um dos motivos para o grupo ter realizado o estudo em São Petersburgo foi a possibilidade de estudar uma opção adicional para parar de fumar, disse ela. Outro benefício deste local, ela acrescentou, é o fato de os pesquisadores russos terem construído relacionamentos com pacientes com VIH, um grupo muitas vezes negligenciado na pesquisa clínica sobre dependência.

“Muitos indivíduos com uma série de comorbidades fumam, provavelmente em uma taxa maior do que a população em geral”, disse a Dra. Stephanie. “Pacientes com comorbidades geralmente não são recrutados para ensaios clínicos, então acho que é um estudo muito importante dessa perspectiva”.

A Dra. Hilary ajudou contribuiu para a elaboração dos estudos de fase 3 da cistisina nos Estados Unidos. A Dra. Stephanie informou não ter conflitos de interesses.

JAMA Netw Open. Publicado on-line em 05 de agosto de 2022. Texto completo

Marcus A. Banks é jornalista, mora em Nova York e cobre notícias de saúde com foco em novas pesquisas oncológicas. Ele assina artigos publicados no Medscape, Cancer Today, The Scientist, Gastroenterology and Endoscopy News, Slate, TCTMD e Spectrum.

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