COMENTÁRIO

Se exercitar vai salvar sua vida?

Dr. F. Perry Wilson

Notificação

17 de agosto de 2022

Esta transcrição foi editada para maior clareza.

Bem-vindo ao Fator de Impacto, sua dose semanal de comentários sobre um novo estudo clínico. Sou o Dr. Francis Perry Wilson da Yale School of Medicine.

Cento e cinquenta minutos por semana. É o tempo mínimo recomendado de atividades físicas de intensidade moderada que o governo federal aconselha o povo estadunidense a fazer para otimizar sua saúde.

Cento e cinquenta minutos por semana. Esse número não foi escolhido ao acaso. Há um monte de dados observacionais mostrando que as pessoas mais ativas fisicamente têm melhores desfechos de saúde. As pessoas que alcançam a marca semanal de 150 minutos têm redução de cerca de 30% da mortalidade global, mesmo ao controlar o estado de saúde inicial.

Mas somente cerca de metade dos estadunidenses fazem tanto exercício, como você pode ver aqui, com os jovens se saindo melhor que os mais velhos, e os homens fazendo um pouco mais de exercícios do que as mulheres.

Como fazer com que mais pessoas se exercitem? Talvez seja preciso tornar isso mais fácil.

Parte da razão pela qual muita gente não alcance a meta é que 150 minutos parecem desanimadores. As diretrizes de atividade física sugerem que esses 150 minutos sejam "distribuídos ao longo da semana". Mas nem todos nós temos 30 minutos por dia, de segunda a sexta-feira, para fazer uma caminhada rápida em uma esteira ou uma corrida em volta do quarteirão.

Seria bom alcançar a meta semanal de uma vez só?

O termo científico acordado para este comportamento – fazer todo o seu exercício semanal em uma ou duas grandes sessões – é o padrão "atleta de fim de semana". E no JAMA Internal Medicine desta semana, um grande estudo pergunta se os atletas de fim de semana estão tão protegidos da morte quanto as pessoas que dividem suas atividades físicas de maneira mais uniforme.

O estudo aproveita mais de 350.000 respostas à US National Health Interview Survey, representativa da população geral dos EUA. Os pesquisadores, liderados pelo Dr. Yafeng Wang, Ph.D., mesclaram esses dados de pesquisa com o National Death Index, que captura a data e a causa de morte de todas as mortes nos Estados Unidos.

Como são os atletas de fim de semana?

A imagem que me vem à mente é algo assim. Este é um grupo de pessoas do meu laboratório fazendo uma corrida na lama beneficente na semana passada. Foi espetacular.

Mas os dados não correspondem à fotografia.

No estudo do JAMA Internal Medicine, comparando as pessoas que se exercitam regularmente durante toda a semana aos atletas do fim de semana, este últimos eram mais novos, com maior probabilidade de ser homens, menor probabilidade de ser brancos, tinham um nível mais baixo de escolaridade e um nível de renda total mais baixo. Penso que isto fala um pouco a favor da ideia de que a possibilidade de ter 30 minutos por dia para se exercitar é um marcador de privilégio. Nem todos têm empregos com esse tipo de horário, ou creches para permitir 30 minutos de "tempo para mim".

Então – os principais resultados.

Em geral, os pesquisadores descobriram que, em comparação às pessoas que não alcançam a meta de 150 minutos por semana de atividade física, os que o fazem têm uma probabilidade significativamente menor de morrer – cerca de 15% menor. Tiveram 23% menos doença cardiovascular e 12% menos câncer também.

A duração de cada sessão de exercício parecia ser um pouco importante. O que quer dizer que o benefício em termos de mortalidade foi observado entre as pessoas que faziam mais de 20 minutos de cada vez. Acho que preciso aumentar esse ritmo cardíaco.

Então, aqueles atletas de fim de semana, com 150 minutos em um ou dois dias, se dariam melhor que de todos? Não realmente. Os autores compararam os atletas de fim de semana aos regularmente ativos e não encontraram diferença estatística nas taxas de mortalidade. A conclusão? Sim, o exercício de fim de semana é provavelmente suficientemente bom, mas não melhor do que um padrão mais bem dividido.

Agora, esses estudos não são tão simples como puderam parecer à primeira vista. Os pacientes com doença crônica podem se exercitar menos por causa da doença, e ser mais propensos a morrer por causa da doença. Isso faria o exercício parecer protetor, quando na realidade a capacidade de se exercitar é apenas um marcador de boa saúde geral.

No intuito de evitar essa causalidade reversa, os autores excluíram os pacientes que tinham sido diagnosticados com câncer, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica ou acidente vascular cerebral no início do estudo. Além disso, excluíram as mortes ocorridas dois anos após a realização da pesquisa, com a ideia de que talvez uma doença não diagnosticada já estivesse presente e limitando a capacidade de exercício. Isso é epidemiologia inteligente.

Naturalmente, muitas coisas determinam a sua capacidade de fazer exercícios e podem fazer você viver mais por muito tempo. Uma grande coisa? Dinheiro. Não é segredo que, pelo menos nos EUA, ter alta renda está associado a melhores desfechos em termos de saúde. Quem ganha bem, também pode ter recursos para pagar a academia ou a babá para cuidar das crianças enquanto se exercita.

Para abordar esse fator de confusão, e outros que poderiam relacionar a prática de exercícios e a morte de modo ilegítimo, os resultados que mostrei foram ajustados por renda, idade, sexo, raça, etnia, estado civil, escolaridade, tabagismo, ingestão de bebidas alcoólicas, outras comorbidades, mobilidade e saúde autoavaliada.

Mas o ajuste estatístico é uma faca de dois gumes. Embora queiramos ajustar por coisas, como renda, que estão relacionadas à nossa exposição (exercício) e ao resultado (morte), não queremos ajustar por coisas que se encontram ao longo do caminho da causalidade da exposição ao resultado.

Tome o índice de massa corporal, por exemplo. À primeira vista, você pode pensar que devemos ajustar pelo índice de massa corporal ao avaliar a relação entre o exercício e a morte. Pessoas com maior índice de massa corporal podem se exercitar menos e, em geral, têm piores desfechos de saúde. Isso é classicamente um fator de confusão.

Mas o exercício pode reduzir o índice de massa corporal. Na verdade, uma das razões pelas quais o exercício pode ser benéfico é porque reduz o índice de massa corporal. Se ajustarmos algo que faz parte da causalidade, chegaremos à conclusão errada. É por isso que a estratégia de "ajustar por tudo" é realmente ruim.

Os autores parecem reconhecer isso, deixando o índice de massa corporal fora de sua análise primária, mas incluindo o ajuste pelo IMC em uma análise de sensibilidade.

Mas a lição do índice de massa corporal pode se aplicar a alguns dos fatores que eles ajustaram também na análise primária. O exercício pode realmente diminuir o tabagismo? Ou o consumo de bebidas alcoólicas? Se for este o caso, isso pode estar nesse caminho da causalidade do exercício à sobrevivência – não é algo que nós queremos ajustar.

Portanto, precisamos olhar para essa estimativa final de benefício – redução de 15% da mortalidade – com um olhar um pouco cético. O número verdadeiro poderia ser um pouco mais alto. Provavelmente, também poderia ser mais baixo.

Naturalmente, a atividade física, como intervenção clínica, tem a melhor relação entre o risco e o benefício que você possa imaginar. A mensagem deste artigo, sob toda a epidemiologia e estatística, é simples: faça algum exercício, sempre que você puder. É bom para você.

O Dr. Francis Perry Wilson, é professor associado de medicina e diretor do Clinical and Translational Research Accelerator da Yale School of Medicine. Seu trabalho de divulgação científica pode ser encontrado no Huffington Post, na NPR e aqui no Medscape. Ele tuita como @fperrywilson e mantém um repositório de seu trabalho em www.methodsman.com .

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