Novos insights sobre como a dieta ocidental pode causar câncer colorretal

Megan Brooks

Notificação

5 de agosto de 2022

Novas pesquisas apontam para uma forte associação entre o padrão de dieta ocidental e um subgrupo de câncer colorretal com presença abundante de Escherichia coli que expressa a enzima policetídeo sintase (pks+, do inglês polyketide synthase positive), indicando uma potencial ligação entre dieta, microbiota intestinal e carcinogênese colorretal, segundo os pesquisadores.

Descobriu-se recentemente que a E. coli pks+ produtora de colibactina causa mutações no ácido desoxirribonucleico (ADN) de células colônicas, informou ao Medscape o médico pesquisador do estudo Dr. Shuji Ogino, Ph.D., do departamento de patologia do Brigham and Women's Hospital, nos Estados Unidos.

"Nossos achados associaram as dietas ocidentais à E. coli no câncer colorretal. Nosso estudo respalda a hipótese de que a dieta ocidental poderia causar câncer colorretal através dessa bactéria", disse o Dr. Shuji.

O estudo foi publicado on-line no periódico Gastroenterology.

Interação entre dieta e bactérias patogênicas

Foi demonstrado que dietas ocidentais, ricas em carne vermelha, carnes processadas, açúcar e grãos refinados, e pobres em vegetais e legumes, induzem inflamação sistêmica e intestinal.

"Considerando a possível interação entre dieta e bactérias patogênicas, é de particular interesse estudar a dieta ocidental em relação à E. coli pks+ no tecido tumoral colorretal", escreveu a equipe do estudo.

Os pesquisadores calcularam os escores de dieta ocidental utilizando dados de frequência alimentar obtidos a cada quatro anos de 134.775 adultos participantes do Health Professionals Follow-up Study e do Nurses' Health Study.

A equipe detectou a E. coli pks+ em 111 lesões de um total de 1.175 tumores colorretais. No restante dos tumores não houve detecção da bactéria.

Os resultados mostraram que a associação dos escores de dieta ocidental com a incidência de câncer colorretal variou de acordo com os níveis de E. coli pks+ e foi mais forte em tumores contendo níveis mais elevados de E. coli pks+.

As razões de risco em análises multivariadas de indivíduos com os escores de dieta ocidental mais altos (versus aqueles com escores mais baixos) foram de 3,45 para tumores com alto nível de E. coli pks+, 1,22 para lesões com baixo nível de E. coli pks+ e 1,10 para neoplasias colorretais sem E. coli pks+ detectável.

“Nossos achados fornecem evidências que corroboram o papel da microbiota intestinal na mediação da associação patogênica entre dieta e câncer colorretal”, escreveram os autores.

Embora sejam necessários mais estudos, o Dr. Shuji disse que os achados têm possíveis implicações clínicas.

"Pessoas que seguem o padrão de dieta ocidental têm maior risco de câncer colorretal. Esses indivíduos de alto risco, devido à sua dieta, provavelmente precisam de acompanhamento mais detalhado do que pessoas de baixo risco. Certamente eles precisam de rastreamento personalizado do câncer", disse o Dr. Shuji.

O estudo também ressalta a importância das modificações na alimentação para prevenção do câncer, complementou o médico.

Orientação alimentar é recomendada

Convidada a comentar o estudo, a médica Dra. Aasma Shaukat, mestra em saúde pública, da divisão de gastroenterologia e hepatologia da NYU Langone Health, nos Estados Unidos, disse que o estudo "aumenta nossa compreensão de como a dieta pode influenciar o risco de câncer colorretal".

"Embora esses achados não influenciem as recomendações de rastreamento, sugerem que devamos continuar a recomendar uma dieta pobre em carne vermelha e açúcar refinado para prevenção do câncer colorretal, associada a outras mudanças no estilo de vida", disse a Dra. Aasma ao Medscape.

Também trazendo uma perspectiva externa, a nutricionista Amanda Bode, do Cleveland Clinic Center for Human Nutrition, nos Estados Unidos, observou que os fatores nutricionais da dieta ocidental neste estudo apontados como causadores do aumento da inflamação, que leva a danos ao ADN e provoca o câncer colorretal, não são "surpreendentes".

"Há evidências substanciais, de muitos outros estudos, de que padrões alimentares como o consumo de carne vermelha, grãos refinados e açúcar aumentam o risco de câncer colorretal", disse a nutricionista Amanda ao Medscape.

“Como nutricionista oncológica, vejo que o estudo reforça a orientação que eu normalmente daria a um paciente para prevenção ou aumento de sobrevida no câncer colorretal”, acrescentou a nutricionista.

“Além das recomendações de limitar o consumo de carne processada e comer menos grãos refinados e açúcar, um nutricionista pode ajudar a identificar problemas com o microbioma intestinal e individualizar as intervenções nutricionais considerando as preferências de cada paciente”, observou ela.

Por exemplo, um nutricionista pode ajudar um paciente a identificar alimentos cotidianamente consumidos conhecidos pela associação a um alto risco de câncer colorretal e substituí-los por alimentos que melhoram as bactérias intestinais benéficas, explicou.

“Trabalhar para melhorar todo o padrão alimentar parece impactar mais o risco de doenças do que somente manter o foco em um alimento individual”, disse a nutricionista.

O estudo foi apoiado parcialmente por verbas das seguintes instituições: National Institutes of Health dos EUA, Cancer Research UK, Stand Up to Cancer, Project P Fund, Friends of the Dana-Farber Cancer Institute, Bennett Family Foundation e Entertainment Industry Foundation através do National Colorectal Cancer Research Alliance. O Dr. Shuji Ogino, a Dra. Aasma Shaukat e a nutricionista Amanda Bode informaram não ter conflitos de interesses. 

Gastroenterology. Publicado on-line em 24 de junho de 2022. Abstract

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