Notícias sobre o primeiro transplante cardíaco de uma pessoa infectada pelo VIH para outra

Marcia Frellick

Notificação

4 de agosto de 2022

Pela primeira vez, o coração de um doador infectado pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) foi transplantado para um receptor vivendo com VIH, de acordo com o Montefiore Health System, mantenedor da instituição na qual o transplante foi realizado.

O procedimento, feito nos Estados Unidos, foi possível graças à aprovação, em 2013, do HIV Organ Policy Equity Act, ou HOPE Act, a lei de equidade da política de órgãos em VIH, mas houve um hiato de quase nove anos até o primeiro transplante bem-sucedido.

"Este é um marco para as pessoas vivendo com VIH que necessitam de transplante cardíaco", explicou ao Medscape o Dr. Ulrich P. Jorde, médico chefe da Seção de Insuficiência Cardíaca, Transplante Cardíaco e Suporte Circulatório Mecânico do Montefiore.

Nos EUA, entre 60.000 e 100.000 pessoas podem se beneficiar de um coração novo, mas foram realizados apenas 3.800 transplantes em 2021; portanto, há um grande interesse em aumentar o número de doadores. De acordo com relatos de casos, poucas pessoas vivendo com VIH receberam transplantes cardíacos desde 2003.

A espera pode ser muito longa, disse o médico, e "muitas vezes pessoas morrem porque não conseguimos encontrar um coração".

Transplante cardíaco e renal simultâneos

De acordo com o comunicado de imprensa do Montefiore, a paciente, de cerca de 60 anos, apresentou insuficiência cardíaca em grau avançado e recebeu o coração e um rim simultaneamente no início da primavera nos EUA, ou seja, por volta de março de 2022.

Após a cirurgia de quatro horas, ela permaneceu internada por cinco semanas e agora está em acompanhamento ambulatorial no Montefiore pelos médicos que realizaram o transplante, para monitoramento", afirmou o comunicado.

"Alguns meses depois, parece que tudo vai muito bem com este coração", disse o Dr. Ulrich.

O transplante é uma boa notícia para vários grupos, comentou.

Pacientes vivendo com VIH na fila do transplante podem ter mais chances de obter o órgão rapidamente, já que órgãos de pessoas infectadas pelo VIH só podem ser transplantados para pacientes vivendo com VIH, e apenas para indivíduos na lista de centros participantes da HOPE Act.

Quem não tem a infecção pelo VIH e está na lista de espera também será beneficiado quando um indivíduo vivendo com VIH receber um transplante e for removido da lista.

As pessoas vivendo com VIH que desejam ser doadoras de órgãos saberão que, se seu coração for doado, poderá salvar uma vida e inspirarão outros indivíduos a doar seus órgãos.

"Todo mundo sai ganhando", comemorou o médico.

Critérios estritos de elegibilidade

Para atender aos critérios de elegibilidade, o receptor positivo para VIH deve estar com a doença bem controlada, explicou o Dr. Ulrich. A carga viral deve ser indetectável e o receptor também deve atender aos critérios de elegibilidade específicos para o transplante cardíaco. Os receptores interessados vão para a lista de espera geral de transplante cardíaco.

"Isso foi feito para transplante de rim e fígado. Nunca foi feito para um transplante cardíaco", disse ele.

A razão pela qual a inovação veio mais tardiamente para os corações, esclareceu, é que a margem de erro com o transplante cardíaco é extremamente estreita.

"Se houver uma rejeição grave em um transplante cardíaco, a pessoa pode morrer. Se houver uma rejeição grave em um transplante renal, a pessoa volta à diálise", exemplificou.

Também é preciso ter o paciente certo, observou ele.

O paciente deve estar disposto a correr o risco de participar de algo que nunca foi feito, além de ter uma confiança excepcional em seu médico.

"O verdadeiro pioneiro e herói aqui não sou eu, nem o cirurgião; é a paciente. A paciente disse: 'Quero viver. Confio em você. Estou disposta a correr o risco'", disse o Dr. Ulrich.

Confiança cresceu ao longo dos anos

A confiança no transplante cardíaco de um doador positivo para VIH para um receptor vivendo com VIH aumentou com o passar dos anos. Há evidências de sucesso em longo prazo de transplantes de fígado e rins de pacientes positivos para VIH, e os medicamentos para suprimir o vírus melhoraram.

A Dra. Julie Doberne, Ph.D., e médica do Departamento de Cirurgia Cardiovascular e Torácica da Duke University, nos Estados Unidos, pesquisou os desfechos de sobrevida do transplante cardíaco para receptores vivendo com VIH versus receptores sem infecção pelo VIH.

Sobre o comunicado, ela disse: "Este é um avanço importante nas áreas de transplante de órgãos, tratamento do VIH e da insuficiência cardíaca avançada. O transplante cardíaco continua sendo o padrão-ouro para o tratamento da insuficiência cardíaca em estágio avançado. Por ano, centenas de pessoas com insuficiência cardíaca morrem aguardando um coração.”

"Evidências na literatura sobre o transplante abdominal mostram que o transplante de doador com VIH para receptor com VIH é seguro, e este primeiro procedimento nestas condições pode marcar um aumento, no futuro, da disponibilidade de órgãos para pacientes vivendo com VIH que possuam insuficiência cardíaca", complementou.

No entanto, ela disse que não espera um aumento repentino de transplantes.

Ela salientou que "há estipulações rigorosas no HOPE Act limitando os centros de transplante cardíaco de participarem do transplante de órgãos de doadores com VIH".

Um dos critérios, segundo ela, está relacionado ao número de transplantes realizados por um centro no qual o doador é VIH negativo e o receptor é VIH positivo.

"Como muito poucos centros têm volume suficiente para superar esse requisito, apenas dois centros nos Estados Unidos [ Montefiore e New York-Presbyterian/Columbia ] estão atualmente autorizados a listar pacientes para transplante cardíaco de doador positivo para VIH e receptor vivendo com VIH. Trata-se de um processo demorado até que um centro consiga se qualificar para isso."

Os Drs. Ulrich P. Jorde e Julie Doberne informaram não ter conflitos de interesses.

Marcia Frellick é jornalista freelancer e reside em Chicago. Ela já escreveu para o Chicago Tribune, Science News e Nurse.com, e foi editora do Chicago Sun-Times, do Cincinnati Enquirer e do St. Cloud (Minnesota) Times. Siga-a no Twitter .

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