COMENTÁRIO

Varíola símia: comunicar, qualificar, testar e isolar – e, se possível, vacinar

Dr. Julio Croda

4 de agosto de 2022

Dois meses após a caracterização do surto de varíola símia (monkeypox) fora do continente africano, já temos mais de 15 mil casos em mais de 70 países. De acordo com dados do Reino Unido, mais de 99% dos pacientes são homens (96,2% homens que fazem sexo com homens [HSHs]), com média de idade de 37 anos. [1] Também no Reino Unido, foi identificado que um grupo pequeno de indivíduos com múltiplos parceiros poderia explicar o crescimento sustentado dos casos de varíola símia na região, independentemente de relações homo ou heterossexuais. [2] Portanto, é importante deixar claro que o comportamento de risco para a manutenção da transmissão sustentada da doença é principalmente possuir múltiplos parceiros.

É importante que essa informação chegue de forma qualificada aos grupos mais vulneráveis e aos profissionais de saúde, para não gerar mais estigma. Devemos elaborar estratégias de comunicação, prevenção e testagem para a população sob risco.

Até o momento, sabemos que o período de incubação estimado é de nove dias e que pacientes assintomáticos eventualmente apresentam swab anal positivo e, portanto, podem transmitir a doença. [3]

Dados epidemiológicos sugerem que, assim como aconteceu no surto na África, seja necessário um contato íntimo e prolongado para a transmissão do vírus e que exposições a superfícies como mesas, cadeiras e vasos não estejam associadas a contaminação. Os dados de sequenciamento viral mostram uma diferença genética discreta do vírus, que, por si só, ainda não explica o surto atual. Não conhecemos a taxa de mutação do monkeypox, não entendemos que ganho funcional pode representar cada mutação. É interessante o fato de os dados do sequenciamento realizado nos Estados Unidos (Flórida e Virgínia) serem semelhantes aos dados sequenciados na Nigéria em 2017. [4] Isso indica que as diferenças genéticas observadas podem não ser responsáveis pelo aumento da transmissibilidade.

O atual surto de varíola símia está sendo caracterizado clinicamente como eventual lesão isolada no pênis ou proctite, que muitos descrevem como uma apresentação atípica da doença, entretanto, é importante entender que as lesões ocorrem no local de inoculação e, como o surto atual está mais associado ao contato íntimo sexual, é esperado que as lesões sejam mais frequentes na área genital.

Após dois meses, o risco de transmissão do monkeypox por aerossóis, como ocorre com o SARS-CoV-2, ainda não foi comprovado. Portanto, o impacto na população geral provavelmente será menor do que o dos vírus respiratórios. Dessa forma, é importante qualificar os profissionais de saúde para identificar comportamentos de risco e proceder com uma anamnese e exame físico adequados na busca de possíveis sintomas, sinais e lesões associadas à varíola símia, bem como orientação e isolamento adequados.

No contexto do surto atual, é fundamental garantir teste diagnóstico em tempo oportuno, tanto para os contatos íntimos sexuais quanto para os contatos domiciliares. A testagem garante o isolamento e a adesão à recomendação de evitar contato íntimo sexual durante o período de incubação do vírus. Portanto, os laboratórios clínicos deverão estar capacitados para ofertar em tempo oportuno o diagnóstico de varíola símia. Do ponto de vista de controle, as intervenções que poderão ser propostas são: busca ativa de casos e contatos, diagnóstico precoce, orientação e, eventualmente, utilização de vacinas para grupos de risco e para contato íntimo de casos suspeitos. No momento, o número de doses de vacinas é limitado e apenas alguns países possuem acesso. No que diz respeito ao tratamento, os dados são escassos. Recentemente, uma revisão sistemática aceita pelo BMJ Global Health[5] demonstrou que a maioria das recomendações são baseadas em antivirais (cidofovir, tecovirimat e brincidofovir) e sintomáticos, muitos dos quais são inacessíveis à maioria da população mundial.

Mais um agravo põe à prova nosso sistema de vigilância em saúde, após anos enfrentando uma pandemia. A estratégia no cenário atual não é diferente: comunicar, qualificar, testar e isolar.

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