Uso de inibidor de TNF no tratamento da artrite reumatoide mostra efeitos benéficos na gestação

Avery Hurt

Notificação

4 de agosto de 2022

Recém-nascidos de mulheres com artrite reumatoide (AR) bem controlada que utilizaram um inibidor do fator de necrose tumoral (TNF, sigla do inglês tumor necrosis factor) durante a gestação apresentaram maior peso ao nascer do que os de outras pacientes, sem aumento do risco de desfechos adversos, de acordo com achados de um estudo de coorte prospectivo holandês publicado on-line em 11 de julho no periódico Annals of the Rheumatic Diseases.

O estudo foi composto por 188 pacientes do estudo denominado Preconceptional Counseling in Active RA (PreCARA), ainda em andamento, que acompanhou pacientes com doenças reumáticas inflamatórias antes e durante a gestação. As mulheres inscritas no estudo PreCARA foram monitoradas de perto e tratadas com uma abordagem terapêutica que visava atingir uma atividade de doença mínima, da qual fazia parte o uso de inibidores de TNF.

Muitas pesquisas sobre inibidores de TNF durante a gestação foram limitadas ao primeiro trimestre e focaram principalmente em malformações congênitas. Além disso, a maioria dos estudos anteriores avaliando os inibidores de TNF durante a gestação era composta por pacientes com diferentes doenças de base, dificultando a interpretação dos resultados.

O médico Dr. Hieronymus T. W. Smeele e colaboradores, do Erasmus University Medical Center, nos Países Baixos, avaliaram as participantes trimestralmente antes da gestação, no primeiro, segundo e terceiro trimestres gestacionais, e em 6, 12 e 26 semanas pós-parto. Nessas consultas, além de serem submetidas ao exame articular, as pacientes preenchiam questionários e tinham amostras de sangue coletadas. A atividade de doença foi determinada utilizando o Escore de Atividade de Doença (DAS-28, do inglês Disease Activity Score) em 28 articulações. Foram excluídos os nascimentos de gestações gemelares e os diagnósticos diferentes de artrite reumatoide.

Bebês maiores

O estudo descobriu que o uso de inibidores de TNF durante a gestação (n = 92 mulheres) não aumentou o risco de defeitos congênitos ou cesarianas de emergência. Embora a artrite reumatoide esteja tipicamente associada a recém-nascidos pequenos para a idade gestacional (PIG), os inibidores de TNF foram associados a um aumento significativo no peso ao nascer e menor incidência de recém-nascidos PIG, mesmo quando a comparação foi ajustada por fatores de confusão, como a atividade de doença. Simultaneamente, os inibidores de TNF não foram associados ao alto peso ao nascer ou a recém-nascidos grandes para a idade gestacional (GIG).

Os resultados mostraram que os efeitos foram maiores quando os inibidores de TNF foram utilizados no terceiro trimestre. No entanto, é difícil determinar os efeitos de acordo com o trimestre, pois as participantes que utilizaram os inibidores de TNF durante o terceiro trimestre provavelmente também o fizeram no primeiro e segundo trimestres. Os autores do estudo ressaltaram que esses resultados precisam ser replicados.

“O sistema imunitário não é importante apenas na patogênese da artrite reumatoide”, escreveram os autores do estudo, “mas também para garantir e manter uma gestação normal”. Eles apontaram que muitos desfechos gestacionais adversos considerados decorrentes da placentação inadequada, como a restrição de crescimento intrauterino, recém-nascidos PIG e distúrbios hipertensivos da gestação, podem envolver um aumento de citocinas pró-inflamatórias, como o TNF. “É tentador especular que o tratamento [com inibidores de TNF] durante a gestação promoveria a placentação e, dessa forma, o crescimento fetal e o aumento do peso de nascimento, por meio de uma alteração do equilíbrio entre citocinas pró e anti-inflamatórias, e através do aumento do número e da função de células T reguladoras”, escreveram os autores. Eles também levantaram a hipótese de que o tratamento com inibidores de TNF induziria alterações epigenéticas fetais que influenciariam positivamente o crescimento fetal. 

Dados são bem-vindos

Este é um estudo interessante e bem executado, que se somará ao corpo de pesquisas, ainda pequeno, sobre gestação e doenças reumáticas, disse ao Medscape o Dr. Kevin Byram, médico, professor assistente de medicina na divisão de reumatologia e imunologia e diretor associado do programa de residência em reumatologia na Vanderbilt University, nos Estados Unidos.

“Historicamente, as gestantes foram excluídas dos ensaios clínicos, não apenas sobre a artrite reumatoide, mas sobre outras doenças reumáticas, então não temos muitos dados de ótima qualidade”, disse ele, acrescentando que a parte mais interessante do estudo foi ele ter mostrado que não houve aumento do risco de desfechos adversos.

“Não tenho certeza do que pensar sobre o aumento do peso ao nascer. Será interessante ver se a hipótese de que poderia haver um papel para essa molécula na prevenção do baixo peso ao nascer será confirmada.”

O trabalho foi apoiado pela ReumaNederland. O estudo PreCARA é um estudo iniciado por pesquisador financiado pela empresa UCB. Os autores informaram não ter conflitos de interesses.

Ann Rheum Dis. Publicado on-line em 11 de julho de 2022. Texto completo.

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