Vacina intranasal entra no radar de cientistas nos EUA para o combate à covid-19

Kerry Dooley Young

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4 de agosto de 2022

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Cientistas que buscam ficar na vanguarda da luta contra o SARS-CoV-2, um vírus em constante evolução, estão analisando novas estratégias, como o desenvolvimento de vacinas intranasais, de acordo com palestrantes da White House Summit on the Future of COVID-19 Vaccines, realizada pelo governo dos Estados Unidos.

Em 26 de julho, pesquisadores foram convidados a compartilhar uma atualização pública sobre os esforços para tentar se manter à frente do SARS-CoV-2 na segunda conferência sobre o futuro das vacinas anticovídicas, realizada na sede oficial do Executivo dos EUA, a Casa Branca.

Cientistas e autoridades federais estadunidenses procuram valer-se do sucesso do desenvolvimento das primeiras vacinas anticovídicas, que foram autorizadas para uso nos Estados Unidos menos de um ano após o início da pandemia.

Mas as variantes emergentes estão corroendo essa conquista. Há meses, profissionais dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e da Food and Drug Administration (FDA), ambos dos Estados Unidos, estão de olho na diminuição na eficácia das vacinas após o surgimento da variante Ômicron. E há uma constante preocupação sobre a evolução do SARS-CoV-2.

"Nossas vacinas são excelentes", disse o Dr. Ashish K. Jha, médico coordenador de resposta à covid-19 da Casa Branca, na conferência. "[Mas] precisamos melhorar."

Entre as estratégias sendo consideradas, há as vacinas intranasais, com a ideia de que isso possa estimular a resposta imunitária ao SARS-CoV-2.

Na conferência, a Dra. Akiko Iwasaki, Ph.D., professora da Yale University, disse que esta via de administração pode ser útil para a prevenção do contágio e a redução da gravidade dos sintomas em indivíduos infectados pelo SARS-CoV-2.

"Estamos impedindo que o vírus se espalhe logo na entrada", disse ela na conferência. "É como colocar um guarda para patrulhar o lado de fora da casa contra invasores versus colocar um guarda nos corredores, na esperança de que ele detenha o invasor."

A Dra. Akiko é uma das fundadoras da Xanadu Bio, uma empresa criada em 2021 com o objetivo de desenvolver estratégias terapêuticas para eliminar o SARS-CoV-2 já na região nasal e sinusal, antes que o vírus atinja as regiões inferiores do trato respiratório. Em um editorial publicado em 21 de julho no periódico Science Immunology , a Dra. Akiko e o Dr. Eric J. Topol, médico, diretor do Scripps Research Translational Institute e editor-chefe da edição em inglês do Medscape, alertam sobre a necessidade urgente de mais investimentos por parte do governo dos EUA nessa abordagem de combate ao SARS-CoV-2 no país.

Intitulado "Operation Nasal Vaccine – Lightning speed to counter COVID-19", o editorial pontua o "sucesso sem precedentes" do rápido desenvolvimento das duas primeiras doses de vacinas de ARNm. Os autores observaram que essas conquistas foram "potencializadas pelo investimento estatal [nos EUA] de 10 bilhões de dólares na Operação Warp Speed".

“Durante o primeiro ano da pandemia, a evolução substancial do vírus foi lenta, sem consequências funcionais, mas desde então, vimos uma sucessão de importantes variantes de preocupação, com crescente transmissibilidade e evasão imunológica, culminando na variante Ômicron e suas subvariantes", escreveram.

Os recentes desdobramentos "deram destaque às vacinas nasais como alternativa, que tem uma atração por alcançar a imunidade da mucosa, complementando e provavelmente reforçando a imunidade circulante obtida pelas doses administradas por via intramuscular", acrescentou a dupla de editorialistas.

Um revés precoce

Cientistas dos National Institutes of Health e da Biomedical Advanced Research and Development Authority (BARDA), ambos dos EUA, vêm avaliando, há algum tempo, uma gama de modelos de vacina de última geração, inclusive os que desencadeiam imunidade de mucosa, noticiou o Washington Post em abril.

Na conferência, vários participantes, incluindo o Dr. Ashish, enfatizaram o papel das parcerias público-privadas, fundamentais para o rápido desenvolvimento das vacinas de primeira geração. Eles frisaram que o apoio contínuo do governo dos Estados Unidos será necessário para obter avanços nesta área.

Um dos palestrantes, o Dr. Biao He, Ph.D., fundador e presidente da CyanVac e Blue Lake Biotechnology, falou sobre o apoio federal recebido ao longo dos anos para desenvolver vacinas intranasais. Sua empresa, com sede no estado da Geórgia, nos EUA, já tem uma vacina intranasal, a CVXGA1-001, em estudo de fase 1 (NCT04954287).

A CVXGA-001 baseia-se na tecnologia já utilizada em um produto veterinário, uma vacina intranasal usada há muito tempo para prevenir a traqueobronquite infecciosa canina, disse o Dr. Biao na conferência. Porém, mesmo com descobertas emergentes, já há ao menos um revés na área de vacinas experimentais intranasais contra a covid-19.

A empresa de biotecnologia Altimmune anunciou em junho de 2021 que suspenderia o desenvolvimento da vacina intranasal AdCOVID após resultados frustrados no estudo de fase 1. A vacina pareceu ser bem tolerada, mas os dados de imunogenicidade demonstraram resultados abaixo do esperado em voluntários saudáveis, especialmente em comparação às respostas observadas com vacinas já liberadas, informou a Altimmune em um comunicado.

No documento, o Dr. Scot Roberts, Ph.D., diretor científico da Altimmune, afirma que os participantes do estudo não apresentaram imunidade por vacinação nem infecções anteriores. “Acreditamos que a imunidade prévia em humanos possa ser importante para uma resposta imunitária robusta à AdCOVID”, comentou.

Na conferência, o Dr. Marty Moore, Ph.D., cofundador e diretor científico da Meissa Vaccines, sediada no estado da Califórnia, pontuou os desafios para as vacinas intranasais e também destacou seu ponto de vista sobre o potencial dessa abordagem. A empresa Meissa também tem uma vacina intranasal em estudo de fase 1 (NCT04798001).

"Ninguém aqui [presente na conferência] pode afirmar que as vacinas anticovídicas de aplicação na mucosa funcionam. Ainda não chegamos lá. Precisamos de dados sobre a eficácia clínica para responder a essa pergunta", disse ele.

Mas há potencial para um “nocaute na covid-19, uma vacina que evite a transmissão” com a estratégia de administração intranasal, complementou.

"A mutação viral está ocorrendo mais rápido do que a nossa capacidade de manejar vacinas, e a quantidade de pessoas tomando o reforço vacinal [nos EUA] não está sendo suficiente. As vacinas injetáveis são ótimas para a prevenção contra a doença grave, mas não são tão boas em impedir que a infecção" ocorra, disse o Dr. Marty.

Kerry Dooley Young é jornalista freelancer que reside em Miami Beach, na Flórida. Ela é a referência da Association of Health Care Journalists para tópicos sobre a segurança do paciente. Siga-a no Twitter .

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