Alto consumo de ultraprocessados é associado a aumento do risco de demência

Fran Lowry

Notificação

3 de agosto de 2022

Nova pesquisa associa a adoção de uma dieta rica em alimentos ultraprocessados a aumento do risco de demência.

Em um estudo de coorte prospectivo, os indivíduos que consumiram mais refrigerante, batata chips e outros alimentos ultraprocessados apresentaram mais risco de demência do que os participantes que consumiram esses alimentos em menor quantidade.

Além disso, a cada 10% a mais no consumo de ultraprocessados, as chances de qualquer tipo de demência aumentaram em 25%.

Um achado interessante foi que a substituição de alimentos ultraprocessados por não processados ou minimamente processados foi associada a um risco menor.

“Os alimentos ultraprocessados são feitos para serem práticos e saborosos, no entanto, eles diminuem a qualidade da alimentação das pessoas”, disse em um comunicado à imprensa o primeiro autor do estudo, Dr. Huiping Li, Ph.D., da Universidade Médica de Tianjin na China.

"Esses alimentos também podem conter aditivos alimentares, além de moléculas oriundas do processo de embalagem ou de aquecimento, sendo que outros estudos já demonstraram que todas essas substâncias possuem efeitos negativos nas habilidades cognitivas e de memória. Nossa pesquisa não apenas descobriu que os alimentos ultraprocessados estão associados a um aumento no risco de demência, também constatou que a substituição por alternativas saudáveis pode diminuir o risco de demência", disse o Dr. Huiping.

Os achados foram publicados on-line em 27 de julho no periódico Neurology.

Associações prejudiciais 

Os alimentos ultraprocessados são ricos em açúcar, gordura e sal, e pobres em proteínas e fibras. Alguns exemplos são: refrigerantes, salgadinhos, balas, sorvete, salsicha, frango frito, iogurte, feijão enlatado, molho de tomate, ketchup, maionese, guacamole e homus enlatados, pães embalados e cereais aromatizados.

Estudos anteriores mostraram uma associação entre o consumo desses alimentos e taxas mais altas de câncer, doença cardiovascular, diabetes e morte por todas as causas. O Dr. Huiping e sua equipe quiseram testar a associação entre os ultraprocessados e a demência.

Os autores identificaram 72.083 indivíduos do UK Biobank, um grande banco de dados com informações de saúde de meio milhão de residentes do Reino Unido. A média de idade dos participantes era de 61,6 anos e 31.403 (43,7%) haviam cursado o ensino médio ou superior. Ninguém tinha sinais de demência no início do estudo.

Os participantes completaram o Oxford WebQ (um questionário dietético on-line sobre hábitos alimentares em 24 horas) no início do estudo e, posteriormente, em outros momentos específicos. Eles também fizeram no mínimo duas avaliações sobre a ingestão alimentar em 24 horas.

Ao longo de 10 anos de acompanhamento, 518 participantes desenvolveram demência. Destes, 287 foram diagnosticados com doença de Alzheimer, 119 com demência vascular e 112 com demência não especificada.

Os pesquisadores determinaram a quantidade de alimentos ultraprocessados consumida diariamente pelos participantes e os dividiram em quatro grupos iguais, do menor ao maior consumo.

Em média, os alimentados ultraprocessados compuseram 9% da dieta diária dos indivíduos do grupo com o menor consumo (média de 225 gramas por dia). Já no grupo com o maior consumo, os ultraprocessados compuseram 28% da dieta diária (média de 814 g/dia).

Os indivíduos com o maior consumo de alimentos ultraprocessados tenderam a ser mais jovens, brancos, não fumantes e abstêmios ao consumo de bebidas alcoólicas. Também apresentaram maior índice de massa corporal e maior ingestão calórica total, entretanto, obtiveram pontuações mais baixas no Índice de Privação de Townsend, calculado a partir de um conjunto de dados individuais sobre local de residência, taxa de desemprego, propriedade de automóvel/residência e superlotação doméstica.

Além disso, esses indivíduos apresentaram níveis mais baixos de atividade física e escolaridade, além de menores escores de alimentação saudável.

Risco significativamente maior 

Os resultados mostraram que um nível mais alto de ingestão de alimentos ultraprocessados foi associado a um risco significativamente maior de demência.

Comparados com os participantes que consumiram a menor quantidade de ultraprocessados, os indivíduos na categoria de maior consumo apresentaram um aumento de 50% no risco de demência (razão de risco [RR] de 1,51; intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,16 a 1,96; P < 0,001).

O risco de demência vascular foi ainda maior: mais de duas vezes maior do que o risco dos participantes que consumiram a menor quantidade de ultraprocessados (RR de 2,19; IC 95% de 1,21 a 3,96; P < 0,01).

No geral, em comparação com os participantes sem demência, aqueles com demência foram mais propensos a serem homens e idosos. Apresentaram sono mais longo, níveis mais baixos de atividade física, maior histórico familiar de demência, presença de histórico de doença cardiovascular e menor função cognitiva.

As bebidas não alcoólicas e os refrigerantes constituíram o principal grupo alimentar responsável pela ingestão individual de alimentos ultraprocessados: 34% da ingestão total de ultraprocessados na análise do estudo.

O segundo grupo mais comum foi o de alimentos adoçados com açúcar (21%), seguido pelos laticínios ultraprocessados (17%) e pelos salgadinhos (11%).

Os pesquisadores também utilizaram os dados do Biobank UK para estimar o que aconteceria se alguém substituísse 10% dos alimentos ultraprocessados consumidos diariamente por alimentos não processados ou minimamente processados, como frutas frescas, vegetais, legumes, leite e carne.

Eles constataram que essa substituição estaria associada a um risco de demência 19% menor (RR de 0,81; IC 95% de 0,74 a 0,89; P < 0,001) e um risco de demência vascular 22% menor (RR de 0,78; IC 95% de 0,65 a 0,94; P < 0,01).

"Nossos resultados também mostraram que o aumento do consumo de alimentos não processados ou minimamente processados em apenas 50 gramas por dia, o equivalente a meia maçã, uma porção de milho ou uma tigela de farelo de cereal, associado à diminuição dos alimentos ultraprocessados em 50 gramas por dia, equivalente a uma barra de chocolate ou uma porção de palitos de peixe, está associado a uma redução de 3% no risco de demência", disse o Dr. Huiping.

"É animador saber que alterações alimentares pequenas e viáveis podem fazer a diferença no risco de demência de um indivíduo", ele acrescentou.

São necessárias melhores ferramentas de avaliação dietética 

Em um editorial que acompanha o artigo, a Dra. Maura E. Walker, Ph.D., da Boston University, nos Estados Unidos, e a Dra. Nicole L. Santorino, Ph.D., observaram a necessidade de melhores avaliações dietéticas.

A Dra. Maura reiterou o seu ponto de vista em uma entrevista ao Medscape.

Dra. Maura E. Walker

“Embora haja um interesse cada vez maior em pesquisas sobre processamento de alimentos e saúde, também existem desafios na avaliação do nível desse processamento alimentar”, disse ela.

"As ferramentas típicas, que utilizamos para avaliar a dieta em determinadas populações, não foram projetadas considerando o processamento de alimentos, portanto, as informações disponíveis para tentar categorizar os alimentos por nível de processamento podem ser limitadas", ela acrescentou.

Por exemplo, a Dra. Maura observou que os pesquisadores do estudo tinham dados sobre o consumo de iogurte, mas não conseguiam distinguir o iogurte natural do iogurte com adoçantes, "que teria classificações diferentes em termos de processamento”.

"À medida que a pesquisa nutricional evolui para se concentrar nas complexidades da ingestão alimentar, também devemos considerar que podem ser necessárias mais avaliações dietéticas de alta qualidade", disse ela.

O estudo foi financiado pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China. O Dr. Huiping e a Dra. Maura informaram não possuir conflitos de interesses. 

Neurology. Publicado on-line em 27 de julho de 2022. Abstract , Editorial

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