Universidade oferece formação para guias em tratamentos com psicodélicos

Alicia Ault

Notificação

3 de agosto de 2022

Em setembro, a University of California, Berkeley, começará a treinar a sua primeira classe de "facilitadores de viagens", que aprenderá a guiar as pessoas em suas experiências terapêuticas com psicodélicos destinadas a resolver uma gama de problemas de saúde mental.

O programa de treinamento do UC Berkeley Center for the Science of Psychoedelics (BCSP) tem como objetivo criar um quadro de facilitadores que estarão prontos para ajudar se e quando substâncias como a psilocibina, o MDMA e a LSD forem aprovadas nos Estados Unidos, disse a Dra. Tina Trujillo, Ph.D., professora associada da UC Berkeley's School of Education, aos repórteres em uma coletiva de imprensa.

As drogas alucinógenas estão na lista Drug Enforcement Administration's (DEA's) Schedule I por serem consideradas como não tendo nenhum uso médico atualmente aceito e terem alto potencial de abuso. Mas houve uma explosão de pesquisa com psicodélicos, usados junto com terapia, como tratamento da depressão grave, do transtorno de estresse pós-traumático, do transtorno por uso de substância e outros quadros de saúde mental. Cerca de 100 ensaios clínicos estão em andamento.

"As estimativas são que vamos precisar de 100.000 facilitadores treinados em psicodélicos, quando a psilocibina e o MDMA forem aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, o que deve acontecer nos próximos cinco anos ou mais", disse Michael Pollan, cofundador do BCSP. Ele é autor How to Change Your Mind (vendido no Brasil com o título “Como mudar sua mente”), um livro de 2018 sobre psicodélicos, que foi adaptado para uma série de documentários de quatro partes que atualmente é apresentada na Netflix.

Programa de nove meses

Os 24 primeiros estagiários – uma mistura de médicos, enfermeiros, psicoterapeutas e assistentes sociais – farão nove meses de capacitação e treinamento nas "dimensões técnica, cultural, mística e ética da facilitação psicodélica", informou a Dra. Tina.

O BCSP's Certificate Program in Psychedelic Facilitation terá "ênfase tanto na ciência ocidental quanto nas tradições espirituais", disse a professora.

Os estagiários farão 150 horas de formação teórica e 25 horas de prática e participarão de um retiro final de cinco dias. O programa inicialmente se concentrará apenas na psilocibina, em parte porque o BCSP participa de vários ensaios aprovados pela FDA que testam essa droga.

Em um estudo – que pretende recrutar participantes no outono do hemisfério norte – os pesquisadores usarão a ressonância magnética funcional para examinar os correlatos neurais da experiência psicodélica de pessoas que recebem baixas doses de psilocibina.

Os estagiários elegíveis terão a oportunidade de participar nos ensaios clínicos com psilocibina da Berkeley e "aprimorar os seus conhecimentos iniciais", afirmou a Dra. Tina.

No final do treinamento, os alunos receberão um certificado, "não uma licença ou autorização para sair e exercer o que aprenderam", disse ela. A Dra. Tina observou que, por fim, quando a facilitação for legalizada, os titulares de certificados poderão exercer em unidades de pesquisa clínica ou em unidades de saúde.

Crescente aceitação pela psiquiatria

Michael disse que houve uma mudança radical na aceitação dos psicodélicos como potenciais tratamentos.

"A virada de destruidor de mentes dos jovens nos anos 60 para medicamento eficaz nos anos 2020 é tão repentina quanto confusa para muita gente", disse o escritor, indicando que o centro de Berkeley espera fornecer informações baseadas em evidências para jornalistas, o público e os médicos.

Michael disse que quando seu livro foi lançado, ele esperava a oposição da "psiquiatria oficial". Em vez disso, foi convidado a participar de grandes rodas de conversa. Os psiquiatras são "muito abertos ao potencial dos psicodélicos", ponderou o escritor.

"A razão para isso, muito francamente, é por estarem desesperados", complementou. "As ferramentas da psiquiatria convencional para lidar com coisas como depressão e ansiedade e dependência não são muito boas, e algumas estão falhando", disse o escritor.

Michael mencionou alguns outros indicadores de aceitação. No Oregon, a partir de 2023, a psilocibina estará disponível para qualquer pessoa com mais de 21 anos, mas apenas para utilização em unidades licenciadas com facilitadores certificados, e a substância deverá ser produzida por um fabricante autorizado.

Em novembro, o Colorado perguntará aos eleitores se querem seguir o modelo do Oregon e legalizar a psilocibina. Se for aprovada, outra iniciativa de voto no Colorado descriminalizaria a posse.

Michael notou que Cory Booker, o senador democrata de Nova Jersey, e Rand Paul, um senador republicano conservador de Kentucky, encontraram uma causa comum, introduzindo legislação para permitir que pacientes terminais tenham acesso a psicodélicos e a outras drogas do Schedule I.

Cerca de 400 empresas estão fazendo pesquisas com psicodélicos. Os pesquisadores precisam ter autorização da DEA para obter e estudar as substâncias, disse aos repórteres Andrea Gomez, professora assistente de neurobiologia da UC Berkeley.

Andrea disse que o interesse crescente no potencial dessas drogas pôde fazer com que mais pesquisadores "saltassem os obstáculos" para conseguir as autorizações. As comportas se abririam de verdade se os National Institutes of Health começassem a financiar os estudos, complementou.

Alicia Ault é jornalista freelancer de Lutherville, Maryland, cujo trabalho foi publicado em publicações como JAMA e Smithsonian.com. Você pode encontrá-la no Twitter em @aliciaault.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....