Impacto do painel genético no câncer de mama: uma análise brasileira

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

3 de agosto de 2022

Tempos atrás, a testagem genética para determinar a predisposição ao câncer de mama avaliava apenas os genes que costumam sofrer mais mutações, principalmente BRCA1 e BRCA2, mas a incorporação dos painéis multigênicos à prática clínica mudou essa realidade. Um estudo publicado em março no periódico Scientific Reports Nature Research traz uma análise do impacto dessa ferramenta no Brasil, algo que ainda não havia sido mensurado. [1]

Pesquisadores do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), entre outras instituições, constataram que o uso do painel multigênico praticamente duplica a chance de identificar alterações genéticas em pacientes com câncer de mama. O trabalho também revelou um padrão único em pacientes brasileiras com câncer de mama: a alta prevalência de uma mutação no gene TP53 associada à síndrome de Li-Fraumeni.

Os pesquisadores avaliaram 1.663 pacientes com câncer de mama que realizaram um painel multigênico entre 2015 e 2017 no Brasil. O estudo contou com participantes de todas as regiões brasileiras – Sudeste foi a mais representada (n = 863), e Norte, a menos (n = 26). A média de idade ao diagnóstico de câncer de mama foi de 42,9 anos.

A pesquisa também teve um grupo controle, formado por 18.919 brasileiros sem câncer de mama. Os dados analisados foram extraídos de um banco de dados genômico do Laboratório Mendelics Análise Genômica S.A., em São Paulo.

Cada participante realizou um painel de sequenciação de nova geração (NGS, sigla do inglês) personalizado, solicitado a critério médico. A análise contemplou de 20 a 38 genes.

Os resultados mostram que 20,1% das mulheres com câncer de mama tinham pelo menos uma variante patogênica ou potencialmente patogênica. No total, os autores identificaram 354 dessas variantes em 23 genes.

Os genes que apresentaram mutações com mais frequência foram: BRCA1 (27,4%), BRCA2 (20,3%), TP53 (10,5%), MUTYH monoalélico (9,9%), ATM (8,8%), CHEK2 (6,2%) e PALB2 (5,1%). A variante brasileira TP53 R337H (c.1010G>A, p.Arg337His) foi detectada em 1,6% das pacientes com câncer de mama e em 0,1% dos controles, e foi fortemente associada a aumento do risco de câncer de mama.

Segundo o Dr. Rodrigo Guindalini, médico oncologista clínico, oncogeneticista do ICESP e do IDOR e um dos autores da pesquisa, o uso do painel multigênico praticamente duplicou a chance de encontrar alterações genéticas em pacientes brasileiras com câncer de mama.

"Na realidade, não duplicamos o número de casos. Essas alterações sempre existiram, porém ninguém as investigava”, destacou em entrevista ao Medscape, lembrando que achados similares foram reportados em todos os países que avaliaram o impacto dos painéis multigênicos em suas populações.

Por outro lado, a constatação de que o gene TP53 ocupa o terceiro lugar no ranking dos genes com mais mutações em pacientes com câncer de mama foi algo único. “A mutação deste gene é extremamente rara fora do Brasil. Normalmente, em estudos internacionais [o TP53] aparece entre as últimas posições”, disse o médico.

Considerando toda a população testada, 2,2% dos casos de câncer de mama foram decorrentes de mutações no TP53. Segundo o Dr. Rodrigo, o percentual encontrado nas participantes brasileiras é bem superior ao observado em pacientes no resto do mundo (< 1%).

Os achados, no entanto, não chegaram a surpreender os pesquisadores. Desde 2000, já se sabe que a alteração genética nesse gene é mais frequente em pacientes que residem nas regiões Sul e Sudeste do Brasil do que no resto do mundo, mas “faltavam dados mais robustos”, afirmou o pesquisador, acrescentando que, provavelmente, a taxa elevada é associada à imigração, séculos atrás, de portugueses portadores dessa alteração genética.

A mutação no gene TP53 causa a síndrome de Li-Fraumeni. De acordo com o Dr. Rodrigo, trata-se de uma condição que aumenta não só o risco de câncer de mama, mas também o risco de tumores nos ossos, nos músculos, no sistema nervoso central (SNC), na glândula adrenal e de leucemias. “É algo extremamente complexo de ser abordado do ponto de vista de saúde pública”, destacou, lembrando que estes pacientes precisam de acompanhamento rigoroso. “Quando as crianças nascem, temos de submetê-las a rastreamento de ressonância de corpo inteiro, e ressonância de crânio. No caso das mulheres, há indicação de cirurgia profilática das mamas, e todos os pacientes têm de ser acompanhados anualmente, com hemogramas, devido ao risco de leucemia”, disse.

Atualmente, a testagem genética de predisposição ao câncer de mama está contemplada no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), mas ainda não foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Na prática, destacou o médico, “a maioria das pacientes brasileiras que deveria testar não é testada”.

Segundo o Dr. Rodrigo, em alguns casos, a testagem genética pode promover mudanças nas condutas cirúrgica e clínica. “Em vez de fazer cirurgia de uma mama, podemos oferecer cirurgia bilateral, por exemplo. Há ainda quimioterápicos que só entram no arsenal terapêutico quando temos um teste identificando a mutação”, disse.

Outro aspecto importante é o impacto na família das pacientes. “Todos os descendentes [de uma pessoa com alterações genéticas] têm 50% de chance de apresentar a mesma alteração, e parentes próximos também têm chances. Identificar essa alteração antes do surgimento de qualquer doença permite colocar essas pessoas em protocolos de rastreamento diferenciados para detectar tumores precocemente, ou mesmo em protocolos de prevenção, que podem reduzir em até 95% as chances de câncer”, explicou o médico.

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