Síndrome metabólica aumenta risco de demência antes dos 60 anos

Richard Mark Kirkner

Notificação

2 de agosto de 2022

Quanto maior o número de componentes da síndrome metabólica em indivíduos de meia-idade, maior o risco de demência. Embora essa relação pareça desaparecer após os 70 anos, é isso que sugere uma análise post hoc dos dados de um grande estudo de coorte europeu.

Em uma publicação on-line no periódico Diabetes Care, uma equipe de pesquisadores europeus relatou que o acompanhamento do estudo de coorte Whitehall II, que contou com mais de 10 mil servidores públicos na Inglaterra, estabelecido no final da década de 1980, também descobriu que as doenças cardiovasculares contribuíram apenas parcialmente para o risco de demência dos participantes.

Os autores constataram que a cada componente a mais da síndrome metabólica antes dos 60 anos foi associado a um aumento de 13% no risco de demência (razão de risco [RR] de 1,13; intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,05 a 1,23) e, dos 60 aos 70 anos, o risco aumentou 8% (RR de 1,08; IC 95% de 1,00 a 1,16). Entretanto, nos indivíduos a partir de 70 anos, a relação não foi estatisticamente significativa (RR de 1,04; IC 95% de 0,96 a 1,13).

O estudo utilizou a "definição estabelecida mais recente" de síndrome metabólica, ou seja, os participantes foram diagnosticados com síndrome metabólica caso apresentassem três ou mais dos seguintes cinco componentes: obesidade abdominal, altos níveis de triglicerídeos, níveis baixos de lipoproteína de alta densidade (do inglês HDL, high-density lipoprotein) do colesterol, hipertensão e glicemia de jejum elevada, segundo o primeiro autor do estudo, Dr. Marcos D. Machado-Fragua, Ph.D., informou em uma entrevista por e-mail.

"Nossa pergunta de pesquisa foi sobre a associação entre síndrome metabólica e demência de início tardio. Descobrimos que a presença de um componente da síndrome metabólica e de risco metabólico antes dos 60 anos (mas não após essa idade) está associada ao maior risco de demência", disse o Dr. Marcos, que faz pós-doutorado no Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale, na França.

A coorte do estudo foi composta de 10.308 servidores públicos londrinos entre 35 e 55 anos. A cada quatro/cinco anos após a inscrição no estudo, de 1991 a 2016, os participantes preencheram um questionário e foram submetidos a um exame clínico. O sistema de prontuário eletrônico do National Health Service (NHS) do Reino Unido localizou os desfechos de todos os participantes (exceto de 10 deles) até março de 2019.

O estudo identificou os componentes individuais da síndrome metabólica que representavam o maior risco de demência em três faixas etárias:

  • < 60 anos: aumento da circunferência abdominal (RR de 1,39; IC 95% de 1,07 a 1,81), baixos níveis de HDL do colesterol (RR de 1,30; IC 95% de 1,02 a 1,66) e hipertensão (RR de 1,34; IC 95% de 1,09 a 1,63).

  • de 60 a 70 anos: baixos níveis de HDL do colesterol (RR de 1,26; IC 95% de 1,02 a 1,57) e glicemia de jejum elevada (RR de 1,40; IC 95% de 1,12 a 1,74).

  • > 70 anos: glicemia de jejum elevada (RR de 1,38; IC 95% de 1,07 a 1,79).

O estudo revelou que o risco de demência foi significativamente alto para participantes com menos de 60 anos que apresentavam pelo menos um (RR de 1,99; IC 95% de 1,08 a 3,66) ou dois (RR de 1,69, IC 95% de 1,12 a 2,56) componentes da síndrome metabólica, mesmo na ausência de doenças cardiovasculares.

"O estudo em tela contribui para a compreensão da associação entre síndrome metabólica e demência devido a três novos aspectos", disse o Dr. Marcos. "Primeiramente, testamos pontos de corte alternativos para definir 'alto risco metabólico', e os achados mostraram um aumento do risco de demência já com a presença de um componente da síndrome metabólica.”

“Em seguida, a avaliação dos componentes da síndrome metabólica em pacientes de meia-idade e idosos permitiu a análise do papel da idade na prevalência do risco metabólico de incidência de demência em idades mais avançadas. Por último, nossos achados mostraram um alto risco de demência para indivíduos sem doença cardiovascular no período de acompanhamento, sugerindo que a associação entre alto risco metabólico e incidência de demência não seja totalmente explicada por doenças cardiovasculares.”

O Dr. Marcos acrescentou que, "por enquanto, a cura para a demência permanece indefinida, por isso é importante pensar em estratégias de prevenção. Nossos achados apoiam o direcionamento dessas estratégias aos componentes da síndrome metabólica em indivíduos de meia-idade, mesmo naqueles com menos de três componentes da síndrome”.

Aplicabilidade "confusa"

Em uma entrevista, o médico Dr. Yehuda Handelsman questionou a aplicabilidade dos achados do estudo à prática clínica. "A síndrome metabólica é uma manifestação clínica de resistência à insulina", disse ele. "Quanto mais critérios de síndrome metabólica um indivíduo possuir, mais resistente à insulina ele será. Há na literatura artigos [sugerindo] que a resistência à insulina seja uma causa importante de demência."

O achado de maior risco de demência antes dos 70 anos, comparado ao risco após essa idade, torna a aplicabilidade "ainda mais confusa", disse ele. Os resultados são ainda mais nebulosos para os médicos norte-americanos, que substituíram o termo "síndrome metabólica" por "síndrome cardiometabólica", disse o Dr. Yehuda, que é diretor médico e primeiro pesquisador do Metabolic Institute of America, e presidente do Diabetes CardioRenal & Metabolism Institute, ambos nos Estados Unidos.

A confusão também envolve um dos componentes da síndrome metabólica. No estudo, é utilizada a circunferência abdominal, embora a definição mais tradicional da síndrome use o índice de massa corporal.

Apesar disso, a síndrome metabólica poderia ser utilizada como "uma espécie de calculadora de risco" para doenças cardiovasculares, diabetes e demência, disse ele. Dois pontos fortes do estudo, segundo o Dr. Yehuda, foram o tamanho e o escopo do trabalho, acompanhando 28 anos de dados. Todavia, um ponto fraco foi o desenho observacional. "Esse tipo de estudo não avalia nenhuma intervenção verdadeira para modificar o risco", disse ele.

O Dr. Marcos e os coautores informaram não possuir conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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