COMENTÁRIO

Por que é tão difícil evitar o suicídio de médicos?

Batya Swift Yasgur

Notificação

2 de agosto de 2022

O Dr. Kip Wenger, médico osteopata, emergencista e diretor médico dos sistemas da Team Health, nos Estados Unidos, foi solicitado a atender uma paciente no serviço de emergência. Ele se espantou ao perceber quem era a paciente: uma amiga e colega de profissão, de 33 anos de idade.

Ela sangrava por conta de diversas lesões autoinfligidas e acabou morrendo. "Eu fiquei devastado, e simplesmente não conseguia entender o que tinha acontecido", disse o Dr. Kip ao Medscape.

É importante que os médicos estejam atentos aos sinais de alerta de seus colegas, como atrasos, irritabilidade e impaciência com as equipes, faltas aos plantões, erros ou aumento na quantidade de reclamações por parte dos pacientes, disse o médico.

O Dr. Kip havia jantado com ela algumas semanas antes e observou algumas mudanças sutis. Ele a conhecia como uma "pessoa positiva e otimista", mas sua atitude foi diferente durante o jantar.

"Não havia sinais de alerta típicos – ela mencionou planos para o futuro, como comprar uma bicicleta nova –, mas ela não era a pessoa de sempre, e pareceu chorosa quando a abracei no final da noite", disse o médico. Mais tarde, outra colega comentou que essa amiga compartilhou que estava se sentindo "sem esperança".

O âmbito do problema

Segundo a American Society for Suicide Prevention, cerca de 300 a 400 médicos se suicidam por ano nos Estados Unidos. Embora um estudo sugira um número mais baixo, os relatórios oficiais provavelmente subestimam a quantidade de suicídios, disse para o Medscape a autora do estudo, Dr. Katherine Gold, médica e professora associada de medicina da família, ginecologia e obstetrícia na Michigan Medicine, University of Michigan nos EUA.

O Dr. Peter Yelllewlees, professor de psiquiatria na UC Davis, nos EUA, concordou. E sugeriu que algumas colisões misteriosas, ou acidentes automobilísticos que envolvem apenas um carro, possam ser suicídios. O Dr. Perry Lin, médico e preceptor assistente do Heritage College of Osteopathic Medicine, Ohio University e codiretor nacional do Physician Suicide Awareness Committee of the American Association of Suicidology, disse que alguns atestados de óbito determinam "acidente” como causa básica da morte porque o médico que fez o atestado, possivelmente de um colega, relutou em colocar a real causa da morte, a fim de proteger a memória do seu colega e/ou os sentimentos da família.

Em geral, e entre os médicos, homens brancos com mais de 65 anos "representam o maior percentual de pessoas que se suicidam nos EUA", disse Dr. Perry.

Mas as pessoas mais jovens também estão em risco, acrescentou o médico. Um dos períodos mais comuns de potencial suicídio são os primeiros meses de residência. Isso se encaixa nos resultados do relatório de 2022 do Medscape Suicide: A Tragedy of the Profession . Nesse relatório, houve diferença entre a frequência de ideação suicida entre os médicos mais jovens em comparação aos médicos mais velhos (14% dos médicos < 35 anos versus 8% dos médicos ≥ 45 anos).

Obstáculos à prevenção do suicídio de médicos

"A melhor coisa que pode acontecer na nossa profissão é a intervenção a montante – se as pessoas procurarem ajuda antes de chegar ao ponto de cometer o suicídio, reconhecendo que estão sob estresse e pressão, e podem estar descendo ladeira abaixo", disse Dr. Perry. Mas pesquisas sugerem que muitos médicos não fazem isso.

O Dr. Gary Price, presidente da Physicians Foundation nos EUA, disse que sua organização identificou barreiras que coíbem os médicos de procurar ajuda.

A principal preocupação é que, em muitos estados dos EUA, os formulários de registro para o exercício da medicina ainda perguntam se o médico faz algum tratamento psiquiátrico. Os médicos acham que podem estar arriscando a própria licença de trabalho caso admitam que recebem apoio para questões psiquiátricas. Essa preocupação foi revelada pelos médicos que responderam ao relatório de 2022 do Medscape Suicide: A Tragedy of the Profession, muitos dos quais não procuraram tratamento para depressão, burnout ou ideação suicida para não ter repercussões em sua posição profissional ao renovar a autorização de trabalho ou ao procurar credenciamento.

Embora as organizações e as sociedades profissionais estejam se esforçando para resolver essas questões, um estudo recente concluiu que quase 70% dos estados e territórios dos EUA ainda indagam aos médicos sobre a sua saúde mental, e 28% pedem diagnósticos (além das atuais deficiências) – em franca violação da lei Americans With Disabilities Act.

"Doença mental é diferente de deficiência mental", disse ao Medscape o Dr. Ryan Mire, médico internista em Nashville nos EUA. "Como médicos, estamos confortáveis com os conselhos de acreditação perguntando se o médico tem alguma doença que possa prejudicar o seu atendimento aos pacientes, mas não sobre um histórico de doença mental."

A segunda barreira, segundo o Dr. Gary, é que os comitês de credenciamento hospitalar algumas vezes fazem perguntas semelhantes, assim como as seguradoras comerciais e os seguros profissionais.

Outro obstáculo é o fato de, em alguns estados, o tratamento psiquiátrico do médico poder ser identificado por advogados em casos de processo por imperícia médica, mesmo se a história psiquiátrica do médico não tiver tido nenhum efeito no atendimento ao paciente. Mas isso é raro, disse o Dr. Daniel Shapiro, Ph.D., médico e autor de “Delivering Doctor Amelia”, um livro sobre o tratamento prestado pelo autor a uma médica que buscou tratamento psiquiátrico após um erro médico e consequente processo por imperícia. "Nunca vi isso acontecer".

A última barreira é que muitos empregadores exigem que seus funcionários sejam atendidos na própria instituição ou sistema de saúde. "Os médicos podem relutar em obter ajuda onde trabalham, com colegas e amigos sabendo sobre a sua doença ou participando do seu atendimento", disse o Dr. Gary.

Em 2022, o American College of Physicians publicou um conjunto de ferramentas para ajudar os membros a incentivar os conselhos de acreditação a remover as perguntas sobre a saúde mental dos formulários e incluir textos que estimulem o tratamento, disse o Dr. Ryan.

Camadas de vulnerabilidade

Existem poucos dados sobre o risco relativo entre raças ou etnias específicas, "mas sabemos que o racismo é um fator de estresse social", disse o Dr. Ryan. "Obviamente, as pessoas de populações historicamente desfavorecidas tendem a apresentar estressores sociais como discriminação e racismo que acrescentam uma camada extra de problemas."

A interseccionalidade pode conferir um risco ainda maior. "Por exemplo, se você for uma médica de uma raça historicamente marginalizada fazendo residência e lidando com o ‘currículo oculto’ de tentar ser resiliente, você tem várias camadas de vulnerabilidade."

Há poucos dados sobre quais especialidades ou ambientes de trabalho estão associados a maior risco. "Naturalmente, há desafios em todos os segmentos da medicina e em diferentes idades, estágios e ambientes de trabalho, que fazem interseção com os fatores de risco pessoais de cada médico", disse o Dr. Ryan, que preside o American College of Physicians e é preceptor assistente de educação médica clínica do University of Tennessee Health Science Center, nos EUA.

A Dra. Pamela Wibe é médica aposentada no Oregon. Ela passou por um período suicida de cerca de 11 anos na carreira, o que a motivou a abraçar uma nova visão do exercício da medicina e a mudar seu modelo de prática. Após uma série de suicídios de médicos na sua região, ela começou a falar e escrever abertamente sobre o suicídio dos médicos, e desde sua aposentadoria do atendimento, ela está disponível em tempo integral para os médicos angustiados. "Quando me dirijo a uma conferência de uma especialidade médica específica ou a um grupo de uma determinada região geográfica, me concentro nas vulnerabilidades específicas dessa especialidade ou região", disse Dra. Pamela.

O que aumenta as chances de suicídio?

"Muitos fatores, dentro e fora do ambiente profissional, influenciam a decisão de alguém cometer suicídio; afinal, os médicos têm os mesmos problemas que as outras pessoas, como família, finanças e a própria saúde", disse o Dr. Ryan. Quando se trata de fatores não relacionados com o trabalho, os problemas conjugais e a doença psiquiátrica aumentam particularmente o risco, acrescentou o Dr. Perry.

Mas certos fatores são específicos ao exercício da medicina, com o burnout e a depressão sendo os primeiros da fila.

Dr. Daniel, vice-decano para o corpo docente e os assuntos administrativos do Penn State College of Medicine, nos EUA, e Garner James Cline, professor de humanismo médico, fazem avaliações de burnout em todo o país. "Simples rastreamentos para depressão realizados antes da pandemia mostraram uma incidência de depressão maior entre os médicos de 10%", disse ele ao Medscape. "Agora, estamos vendo uma prevalência de depressão de 30% a 33%, mesmo entre os profissionais que não atuaram na linha da frente da pandemia."

O Dr. Gary Price, cirurgião e preceptor assistente de cirurgia no Yale – New Haven Hospital, em Connecticut (EUA), concordou, observando que o burnout entre os médicos passou de 40% para 60% desde o início da pandemia. Mas o burnout nem sempre leva ao suicídio. É quando o burnout evolui para depressão, torna-se mais grave e não é tratado que o risco de suicídio aumenta, disse o Dr. Gary ao Medscape.

Além disso, ser médico não é "apenas uma profissão", mas "uma vocação e uma identidade", disse a Dra. Katherine. Os problemas relacionados com o trabalho (por exemplo, um processo de erro médico, queixas ao conselho de medicina, perda da autorização de exercer a medicina, exigências de trabalho cambiantes) podem aumentar o risco de suicídio.

E os problemas relacionados com o trabalho podem informar a localização do suicídio, disse a Dra. Pamela, que é autora do livro “Physicians Suicide Letters – Answered”. "Um catalisador relacionado com o trabalho aumenta a probabilidade de que a pessoa tente ou cometa suicídio no local de trabalho. Médicos se jogaram de telhados do hospital, se deram tiros ou se esfaquearam em estacionamentos de hospitais, ou se enforcaram em capelas do hospital. Talvez porque estejam escolhendo morrer no lugar onde foram mais machucados."

Você não tem culpa

"Se você estiver sentindo vontade de se matar, pode se sentir inteiramente sozinho, mas se houver algo que eu possa lhe dizer, é que você não está sozinho, e há muitas coisas que você pode fazer para mitigar sua dor e seu desespero", disse a Dra. Pamela. "E você não é defectivo. É o sistema de atendimento da saúde que é defectivo. Você não tem nada do que se envergonhar."

Algumas instituições têm um "sistema de compadres" que coloca os médicos trabalhando em dupla para apoio mútuo. Um parceiro que perceba sinais pode conversar com o outro para obter ajuda. Os médicos também podem ser colocados em dupla com um "compadre", mesmo sem uma estrutura institucional formal.

Um "compadre" é uma etapa na direção certa, mas o Dr. Daniel adverte que, em casos de depressão ou ideação suicida graves, pode ser necessário consultar um profissional capacitado. Vários estados oferecem conexão com recursos locais. Os programas de assistência aos funcionários podem ser úteis, embora muitos médicos não confiem nos programas da sua própria instituição. Ou os médicos podem pedir aos colegas que recomendem um "médico de médicos", que se especializou em tratar médicos, sugeriu Dr. Peter, autor do “Physician Suicide: Cases and Commentaries”.

No relatório de 2022 do Medscape, Suicide: A Tragedy of the Profession, quase todos os que responderam referindo ter colegas com ideações suicidas disseram que ofereceram ajuda, inclusive suporte emocional, assistência prática, encaminhamento, conversa com os membros da família ou mesmo levar o colega pessoalmente ao serviço de emergência ou a um terapeuta.

Para melhorar a capacidade de os médicos se ajudarem mutuamente, o Dr. Perry recomenda a "formação de guardião", que tem demonstrado reduzir o suicídio. "Esta estratégia utiliza um modelo entre colegas; mas, em vez de um único ‘compadre’, todos são ‘guardiões’ treinados em abordagens, como “perguntar, persuadir e encaminhar” (do inglês: Question, Persuade, Refer [QPR]). Os “guardiões” são ensinados a reconhecer os sinais de alerta do suicídio, questionar o indivíduo potencialmente suicida, convencê-lo a obter ajuda e encaminhá-lo".

Outras formas de evitar o suicídio

Dr. Perry aconselha os médicos a "criarem um plano de segurança personalizado e a escreverem sinais e pistas de que possam estar seguindo o caminho errado e o que podem fazer, como exercícios respiratórios, relaxamento e identificar pessoas para conversar, locais para ir ou números de telefone para ligar caso essas medidas iniciais não forem suficientes". O plano é privado e permite que o médico determine em que ponto a ajuda é necessária e quem deve ser consultado. "Às vezes, quando uma pessoa está em sofrimento agudo, até procurar um número de telefone pode parecer uma tarefa impossível. Mas tê-lo no papel reduz a dificuldade, fazendo com que seja mais alcançável."

Os recursos devem ser publicados nos locais onde os médicos se reúnem, para que aqueles que ainda não têm um plano de segurança tenham acesso fácil a essas informações, sugeriu Dr. Perry.

Além disso, pode ser dada atenção à obtenção de apoio caso algum colega tenha se suicidado, sugeriram os especialistas. Quer oferecido pela instituição, quer por uma combinação de colegas, orientação espiritual ou psicoterapia, pode-se precisar de ajuda para lidar com o trauma, a culpa e a tristeza que costumam acompanhar este tipo de perda.

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