Vale a pena praticar exercício físico além do tempo recomendado pelas diretrizes?

Patrice Wendling

Notificação

1 de agosto de 2022

Um novo estudo sugere que ir além das orientações atuais sobre a intensidade moderada e vigorosa da atividade física pode acrescentar anos à vida das pessoas.

Os estadunidenses são orientados a fazer um mínimo de 150 a 300 minutos por semana de exercícios regulares de intensidade moderada ou 75 a 150 minutos por semana de exercícios regulares de forte intensidade, ou uma combinação equivalente de ambos, segundo as US Department of Health and Human Services Physical Activity Guidelines (diretrizes de atividade física do departamento de saúde e serviços humanos dos EUA).

Os resultados de mais de 100.000 adultos estadunidenses acompanhados por 30 anos mostraram que as pessoas que fizeram o dobro da atividade física regular de intensidade moderada ou forte atualmente recomendada semanalmente apresentaram o risco mais baixo de morte em longo prazo.

Adultos que informaram fazer quatro vezes os níveis mínimos de atividade recomendados não apresentaram nenhum benefício evidente a mais em termos de mortalidade, mas também nenhum prejuízo, segundo o estudo publicado em 25 de julho no periódico Circulation.

"Acho que estamos mais preocupados com a extremidade inferior e as pessoas que não estão fazendo nem o mínimo, mas isso deve ser tranquilizador para as pessoas que gostam de fazer muito exercício", disse para o Medscape o autor sênior do estudo o médico Dr. Edward Giovannucci, Sc.D., da Harvard T.H. Chan School of Public Health nos EUA.

Alguns estudos sugerem que o exercício prolongado e de alta intensidade (como maratonas, triátlons e longos percursos de bicicleta) podem estar associados a aumento do risco de fibrilação atrial, calcificação da artéria coronária e morte súbita cardíaca.

Uma análise recente do Copenhagen City Heart Study também descreveu uma associação em forma de U entre a morte por todas as causas em longo prazo e entre 0 a 2,5 horas e > 10 horas de atividades desportivas de lazer por semana.

A maioria dos estudos que sugere danos, no entanto, tem usado apenas uma medida de atividade física capturando uma mistura de pessoas que fazem regularmente altos níveis de exercícios e pessoas que fazem esporadicamente, o que possivelmente pode ser prejudicial, disse Dr. Edward. "Conseguimos ver uma atividade sistemática em longo prazo e constatamos que não havia contraindicação".

O estudo foi feito com 116.221 participantes do Nurses' Health Study e do Health Professionals Follow-up Study entre 1988 e 2018, que completaram até 15 questionários (mediana de 11) sobre sua saúde e atividade física de lazer, atualizados a cada dois anos.

A maioria era branca (96%), 63% eram do sexo feminino e a média de idade e de índice de massa corporal ao longo do acompanhamento foi de 66 anos e 26 kg/m2. Durante 30 anos de acompanhamento, houve 47.596 mortes.

"Qualquer esforço vale a pena"

A análise constatou que as pessoas que cumpriam as diretrizes de atividade física vigorosa em longo prazo (75 a 150 min/semana) reduziram seu risco ajustado de morte por doença cardiovascular em 31%, por causas sem relação com a doença cardiovascular em 15%, e por todas as causas em 19%, quando comparadas a quem não fez atividades de forte intensidade em longo prazo.

As pessoas que fizeram duas a quatro vezes o mínimo recomendado (150 a 299 min/semana) apresentaram um risco 27% a 33% menor de morte por doença cardiovascular, 19% menor risco de morte por doença cardiovascular e 21% a 23% menor risco de morte por todas as causas.

Níveis mais elevados não parecem ter risco de morte mais baixo. Por exemplo, 300 a 374 min/semana de atividade física vigorosa foram associados a um risco 32% menor de morte por doença cardiovascular, 18% menor de risco para morte sem ser por doença cardiovascular e 22% menor de risco de morte por qualquer causa.

A análise também constatou que as pessoas que atenderam às diretrizes de atividade física moderada apresentaram menor risco de doença cardiovascular, doença não cardiovascular e morte por todas as causas, quer estivessem ativos 150 a 244 min/semana (22%, 19% e 20%, respectivamente) ou 225 a 299 min/semana (21%, 25% e 20%, respectivamente), em comparação às pessoas quase sem nenhuma atividade de intensidade moderada.

Os que se fizeram duas a quatro vezes o mínimo recomendado (300 a 599 min/semana) tiveram um risco 28% a 38% menor de morte por doença cardiovascular, 25% a 27% menor de morte sem ser por doença cardiovascular e 26% a 31% menor risco de morte por todas as causas.

O benefício da mortalidade pareceu alcançar um platô, com 600 min/semana de atividade física moderada mostrando associações semelhantes a 300 a 599 min/semana.

"O ponto ideal parece ser duas a quatro vezes os níveis recomendados, mas para pessoas sedentárias, acho que uma das mensagens mais importantes que eu dou para os meus pacientes é que qualquer esforço vale a pena; que qualquer atividade física, mesmo que menos do que a recomendada, tem alguma redução de mortalidade", disse em uma entrevista a médica Dra. Erin Michos, diretora associada de cardiologia preventiva na Johns Hopkins University School of Medicine nos EUA.

Na verdade, as pessoas que referiram fazer apenas 20 a 74 minutos de exercícios de intensidade moderada por semana tiveram risco 19% menor de morrer por qualquer causa e 13% menor de morrer de doença cardiovascular, em comparação aos que se exercitaram menos.

As recomendações atuais da American Heart Association são de pelo menos 150 minutos por semana de exercícios aeróbicos de intensidade moderada ou 75 minutos por semana de exercícios aeróbicos de forte intensidade, ou uma combinação de ambos.

"Isso sugere que mais é provavelmente melhor, na faixa de duas a quatro vezes que, então talvez devêssemos subir um pouco as nossas metas, o que mais ou menos o que o Department of Health and Human Services já fez", disse Dra. Erin, que não participou do estudo.

Ex-presidente da American Heart Association, a médica Dra. Donna Arnet, Ph.D., que não participou do estudo, disse em uma declaração que "há muito sabemos que níveis moderados ou intensos de exercício físico podem reduzir o risco de uma pessoa tanto de doença cardiovascular aterosclerótica quanto de morte".

"Também vimos que fazer mais de 300 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada ou mais de 150 minutos de exercício físico aeróbico de forte intensidade por semana pode reduzir ainda mais o risco de doença cardiovascular aterosclerótica, assim faz sentido o fato de aqueles minutos extras de exercício também poder diminuir a mortalidade", acrescentou.

Misturar e combinar

O Dr. Edward notou que os efeitos conjuntos dos dois tipos de exercício sobre a mortalidade não foram avaliados em estudos anteriores e "há algumas perguntas, por exemplo, sobre se fazer muita atividade moderada é suficiente ou se você pode obter mais benefícios fazendo também uma atividade de forte intensidade".

Análises conjuntas das duas intensidades de exercício constataram que a atividade física de forte intensidade adicional foi associada a menor mortalidade entre os participantes com níveis insuficientes (inferiores a 300 min/semana) de exercícios de intensidade moderada, mas não entre aqueles com pelo menos 300 min/semana de exercício de intensidade moderada.

"A principal mensagem é que você pode obter essencialmente todo o benefício apenas fazendo exercícios regulares de intensidade moderada", disse Dr. Edward. "Não há nenhum benefício mágico de fazer exercícios regulares de forte intensidade. Mas se alguém quiser fazer exercícios de forte intensidade, pode obter o benefício em cerca de metade do tempo. Assim se você tiver somente duas a três horas por semana para se exercitar e puder fazer, digamos, duas ou três horas de corrida, você pode obter o benefício máximo".

As análises de sensibilidade também mostraram uma associação homogênea entre a atividade física de lazer em longo prazo e a mortalidade, sem ajuste por índice de massa corporal e/ou ingestão calórica.

"Algumas pessoas pensam que o efeito do exercício é baixar o seu peso corporal ou mantê-lo baixo, o que poderia ser um dos benefícios, mas independentemente disso, você obtém benefícios, mesmo que não tenha efeito sobre o seu peso", disse. "Então, definitivamente, isso é importante."

A Dra. Erin disse que exercícios regulares de forte intensidade podem parecer assustadores para muitas pessoas, mas que os exercícios regulares de intensidade moderada podem ser feitos. Caminhadas rápidas, dança de salão, ioga ativo e natação de lazer são exemplos.

"O bom é que você pode realmente combinar ou substituir ambos e obter reduções similares da mortalidade com atividades físicas moderadas, porque muitos pacientes podem não querer fazer atividades vigorosas", disse. "Não querem andar ou correr na esteira; isso é muito intimidante ou estressante".

Este estudo foi financiado pelos National Institutes of Health. Os autores do e a Dra. Erin Michos informaram não ter conflitos de interesse financeiros relevantes.

Circulation. Publicado em 25 de julho de 2022. Abstract

Siga Patrice Wendling no Twitter: @pwendl .

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