Covid-19 prolongada em crianças: ainda não há respostas

Sara Novak

Notificação

1 de agosto de 2022

Emma Sherman, uma menina de 13 anos do Reino Unido, acordou um dia e percebeu uma aura caracterizada por vertigem, escotomas e luzes piscantes em seu campo visual. Era maio de 2020 e ela também apresentava náuseas e cefaleias incapacitantes. Em agosto, a vertigem era tão grande que ela não conseguia manter a cabeça erguida e ficava deitada no colo da mãe por várias horas, cansada demais para ir à escola.

A adolescente, ex-ginasta competitiva e que esperava fazer um teste para um grupo de líderes de torcida, agora estava em uma cadeira de rodas e nem parecia ela mesma. Geralmente causada por uma infecção, Emma foi diagnosticada com síndrome de taquicardia ortostática postural induzida pela covid-19, e apresentou sintomas de taquicardia, náuseas muito intensas, vertigem e fadiga.

“Eu gostava muito de esportes antes de ter covid-19, e depois da doença mal conseguia andar”, disse Emma.

Até mesmo pequenos movimentos faziam seu coração disparar. Seus longos cabelos castanhos ficaram grisalhos e caíram em tufos. No hospital, ela fez exames laboratoriais para várias doenças.

"Eles fizeram todos os tipos de exames conhecidos, além de uma ressonância magnética cerebral", disse a mãe de Emma, Marie Sherman. "Tudo estava normal."

O pediatra de Emma determinou que a adolescente teve covid-19 prolongada após ter apresentado uma infecção leve em março, cerca de 2 meses antes do início dos sintomas misteriosos. Porém, além de um teste de anticorpos positivo, os médicos encontraram poucas evidências do que estava causando os sintomas de Emma.

Para Emma e outras pessoas com covid-19 prolongada, não existem medicamentos indicados para tratamento específico. Em vez disso, os cuidadores buscam amenizar os sintomas, que incluem náusea, vertigem, fadiga, cefaleia e taquicardia, disse a médica Dra. Laura Malone, codiretora da Hopkins Kennedy Krieger Pediatric Post-COVID-19 Rehabilitation Clinic, nos Estados Unidos.

“Atualmente utiliza-se uma abordagem baseada em reabilitação focada na melhora dos sintomas e do funcionamento global para que as crianças possam retornar ao maior número possível de suas atividades habituais”, disse ela.

Depressão e ansiedade são comuns, embora os médicos estejam com dificuldades para descobrir se a covid-19 causa alterações no cérebro ou se os sintomas psiquiátricos são resultantes dos estressores cotidianos. Há poucas pesquisas mostrando como as crianças podem desenvolver depressão por causa da covid-19 prolongada. A Dra. Laura disse que cerca de metade dos seus pacientes do ambulatório de covid-19 prolongada do Kennedy Krieger Institute também apresentam problemas psiquiátricos.

Os pacientes com cefaleia, vertigem e náuseas recebem medicamentos sintomáticos e recomendações para uma dieta saudável com frutas e vegetais adicionais, gorduras monoinsaturadas, baixo teor de sódio, alimentos não processados e grãos integrais. Crianças com arritmias ou taquicardias são encaminhadas ao cardiologista e possivelmente recebem a prescrição de betabloqueadores, enquanto crianças com problemas respiratórios podem ser encaminhadas ao pneumologista. Aquelas com depressão são encaminhadas ao psiquiatra.

Ainda assim, muitos pacientes como Emma vão ao médico com sintomas "fantasmas" que não aparecem em exames laboratoriais ou de imagem.

"Não vimos nenhuma evidência de danos estruturais no cérebro, por exemplo", disse a Dra. Laura. "Quando realizamos ressonâncias magnéticas, elas geralmente são normais."

É possível que o vírus persista em alguns pacientes, disse o médico Dr. Rajeev Fernando, infectologista e membro da Harvard Medical School, nos Estados Unidos. O forte sistema imunológico das crianças, geralmente, luta contra problemas que podem ser percebidos. Porém, no interior do organismo, os fragmentos mortos do vírus persistem, flutuando em locais ocultos e ativando o sistema imunológico muito após a ameaça ter desaparecido.

O vírus pode estar no trato gastrintestinal e no cérebro, o que poderia ajudar a explicar por que sintomas como névoa cerebral e náuseas podem persistir em crianças.

"O sistema imunológico não reconhece se os fragmentos virais estão vivos ou mortos. Ele continua ‘pensando’ que está lutando contra a covid-19 ativa", disse o Dr. Rajeev.

Há poucos dados sobre quanto tempo duram os sintomas, disse o Dr. Rajeev, bem como quantas crianças apresentam esses sintomas e por que algumas são mais vulneráveis do que outras. Algumas pesquisas descobriram que cerca de 5% a 15% das crianças com covid-19 podem desenvolver covid-19 prolongada, mas as estatísticas variam globalmente.

"Crianças com covid-19 prolongada foram amplamente ignoradas. E já que estamos falando disso atualmente, temos um trabalho a fazer”, disse o Dr. Rajeev.

Com relação à Emma, ela se recuperou em janeiro de 2021, voltando para a escola e os amigos, embora seu cardiologista a tenha aconselhado a faltar às aulas de ginástica.

"Pela primeira vez em meses, estava me sentindo eu mesma novamente", disse ela.

Entretanto, o novo coronavírus encontrou Emma novamente. Embora ela tenha sido totalmente vacinada no final de 2021, quando a variante Ômicron varreu o mundo ela se infectou novamente.

"Emma foi um alvo fácil quando a onda Ômicron chegou ", disse sua mãe.

Ela estava acamada com febre alta e tosse. Os sintomas gripais eventualmente desapareceram, mas as alterações gastrintestinais permaneceram. Desde então, Emma teve náuseas muito intensas e perdeu a maior parte do peso que ela havia recuperado.

Marie, no entanto, encontrou acolhimento em um grupo chamado Long COVID Kids , uma organização sem fins lucrativos na Europa e nos Estados Unidos. O grupo está aumentando a conscientização sobre a síndrome em crianças para aumentar o financiamento, estimular a compreensão e melhorar o tratamento e os desfechos.

"Não há nada pior do que ver seu filho sofrer e não poder fazer nada a respeito", disse ela. "Digo a Emma o tempo todo: se eu pudesse entrar no seu corpo e trocar de lugar com você, faria isso em um piscar de olhos."

Emma espera um recomeço com a mudança da família para o sul da Espanha nas próximas semanas.

“Sinto falta das coisas mais simples, como correr, ir à feira com meus amigos e simplesmente me sentir bem”, disse ela. "Tenho uma longa lista de coisas que vou fazer quando tudo isso passar."

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