Vitamina B6: uma nova abordagem para a depressão e a ansiedade?

Batya Swift Yasgur

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29 de julho de 2022

Suplementos com altas doses de vitamina B6 podem diminuir a ansiedade e a depressão, sugere nova pesquisa.

Os pesquisadores compararam a suplementação durante um mês com vitamina B6 ou B12 à suplementação com placebo em quase 500 adultos. Os resultados mostraram que a suplementação com vitamina B6 foi associada a reduções da ansiedade segundo relatos dos pacientes e tendência à diminuição dos sintomas depressivos.

Além disso, o grupo da vitamina B6 apresentou aumento dos níveis de ácido gama-aminobutírico (GABA), como indicado pelos resultados de um teste visual feito no final do ensaio clínico. Os resultados do teste demonstraram alterações sutis no desempenho visual dos participantes. Os pesquisadores consideraram isso compatível com níveis controlados de atividade cerebral relacionada com o GABA.

No entanto, "antes de os médicos prescreverem altas doses de vitamina B6, é necessário fazer um ensaio clínico em escala integral para verificar os achados, avaliar quaisquer efeitos colaterais e descobrir quais pacientes se beneficiariam ou não", disse ao Medscape o pesquisador do estudo Dr. David Field, Ph.D., professor associado da School of Psychological and Clinical Language Sciences, University of Reading, no Reino Unido.

"Meu estudo relativamente pequeno só pode ser considerado como um estudo demonstrativo preliminar", disse o Dr. David.

O estudo foi publicado on-line em 22 de julho no periódico Journal of Human Psychopharmacology: Clinical and Experimental.

Comer extrato de levedura?

"Pesquisas recentes têm relacionado os transtornos de humor e algumas outras doenças neuropsiquiátricas à perturbação desse equilíbrio, muitas vezes na direção do aumento dos níveis de atividade cerebral", observou o Dr. David.

A vitamina B6 age como coenzima na síntese do GABA, um neurotransmissor inibitório do glutamato. Algumas pesquisas anteriores sugeriram que as vitaminas B6 e B12 desempenham algum papel na melhora dos desfechos relacionados com o humor.

O Dr. David tinha revisto um estudo de 2017 sobre os efeitos de comer extrato de levedura – usado por empresas alimentícias como ingrediente aromático no desenvolvimento de alimentos e bebidas e rico em vitamina B – algumas semanas no processamento visual.

"Surpreendentemente, os resultados desse estudo sugeriram que comer extrato de levedura tinha aumentado o nível do neurotransmissor inibidor GABA na parte visual do cérebro, amortecendo ligeiramente o nível da atividade neural", disse o pesquisador.

No entanto, o extrato de levedura contém diversas vitaminas do complexo B e outros ingredientes que poderiam gerar este resultado, "mas, muita gente não gosta do sabor do extrato de levedura", observou o Dr. David.

Portanto, ele queria "descobrir quais ingredientes estavam gerando o efeito, e a B6 e a B12 foram as candidatas mais plausíveis".

O pesquisador decidiu testar essas vitaminas separadamente e compará-las com placebo. "Acrescentei as medidas de ansiedade e depressão que não estavam no estudo do extrato de levedura (marca Marmite) porque ponderei que se os níveis de GABA fossem alterados, isso poderia melhorar esses transtornos, porque sabemos que os dois quadros têm diminuição dos níveis de GABA”, acrescentou o Dr. David.

Ao longo de cinco anos, os pesquisadores recrutaram 478 participantes entre 18 e 58 anos de idade (média de idade de 23 anos; 381 mulheres). Destes, 265 informaram ter ansiedade e 146 referiram ter depressão.

Os participantes do estudo foram randomizados para receber vitamina B6 (100 mg de cloridrato de piridoxina), vitamina B12 (1000 mg de metilcobalamina) ou comprimidos placebo uma vez por dia durante um mês.

Eles também preencheram os questionários Screen for Adult Anxiety Related Disorders (SCAARED) e a versão longa do Mood and Feelings Questionnaire (MFQ) no início do estudo e após a tomada dos suplementos ("após o teste"), e fizeram três exames sensoriais como ensaios da função inibitória após o teste.

Além disso, 307 participantes preencheram a Visual Contrast Sensitivity and Surround Suppression, que "mede o contraste percentual mínimo entre as regiões mais claras e escuras de um padrão listrado que pode ser detectado (chamado de limiar de contraste)", observaram os pesquisadores.

O limiar de contraste foi medido com e sem uma máscara de ambiente supressora que aumenta o limiar – efeito mediado por conexões gabaérgicas no córtex visual.

Os participantes (n = 172) também concluíram o teste de Binocular Rivalry e a Tactile Test Battery (n = 180). Os dois testes foram elaborados para medir as respostas que exigem atividade inibitória gabaérgica.

"Mudanças sutis"

As análises ANOVA revelaram uma redução "muito significativa" da ansiedade após o teste (F[1,173] 10,03, p = 0,002, ηp 2 = 0,055), impulsionada principalmente pela diminuição da ansiedade no grupo da vitamina B6 (t[88] 3,51, p < 0,001, d = 0,37). O grupo do placebo também mostrou alguma redução da ansiedade, mas não foi considerado significativo e a interação global em si não alcançou significância.

Uma comparação do grupo da vitamina B12 com o grupo que recebeu placebo revelou redução significativa da ansiedade após o teste (F[1,175] = 4,08, p = 0,045, ηp 2 = 0,023), também impulsionada pela diminuição da ansiedade no grupo da vitamina B12 (t[89] = 1,84, p = 0,069, d = 0,19) – mas a interação não foi significativa.

Entre o grupo da vitamina B6, houve uma redução muito significativa das pontuações nas subescalas de ansiedade generalizada e ansiedade social do SCAARED, e houve tendência à redução nas demais subescalas. Entre o grupo da vitamina B12, houve redução significativa apenas na pontuação da subescala de ansiedade de separação. Não foram encontradas alterações significativas no grupo do placebo.

A análise de teste ANOVA dos dados do grupo da vitamina B6 e do placebo mostrou "ausência de direção uniforme de mudança" na depressão após o teste. Os pesquisadores encontraram uma "tendência" para a pontuação da depressão diminuir entre o início do estudo e após o teste no grupo da vitamina B6, mas para aumentar no grupo do placebo – uma interação que "abordou" a significância (F[1,96] = 3,08, p = 0,83, ηp 2 = 0,031), relatam os autores.

A análise ANOVA dos dados do grupo da vitamina B12 e do placebo não revelou efeitos significativos ou de tendência, e o teste t comparando a pontuação ao início do estudo e após o teste no grupo B12 foi igualmente não significativo.

A suplementação de vitamina B6 alterou os limiares de contraste visual, mas apenas quando havia supressão ambiente. Não houve "efeitos claros" da suplementação de vitamina B6 em outras medidas de desfecho, como a taxa de reversão da rivalidade binocular e a bateria de testes tácteis, observaram os pesquisadores.

"Constatamos que a suplementação com vitamina B6 produziu alterações sutis nos testes de processamento visual de uma forma que sugeriu aumento do nível do neurotransmissor inibidor GABA", informou o Dr. David.

A vitamina B6 é um "cofator de uma via metabólica no cérebro que converte o neurotransmissor excitatório glutamato no inibitório/calmante GABA", disse ele.

"Aumentando a quantidade do cofator, aceleramos um pouco a velocidade desse processo metabólico, e assim você acaba com um pouco mais de neurotransmissor GABA e um pouco menos de glutamato. O resultado disto é reduzir ligeiramente a quantidade de atividade no cérebro", acrescentou o Dr. David.

Deficiência nutricional mais comum

Convidada a comentar o estudo pelo Medscape, a Dra. Carol Johnston, Ph.D., médica, professora e decana no College of Health Solutions, Arizona State University, Phoenix (EUA), disse que a vitamina B6 é "a deficiência nutricional mais comum nos EUA"; 16% dos homens e 32% das mulheres supostamente têm deficiência de vitamina B6.

"As mulheres jovens usando contraceptivos têm maior risco de deficiência de vitamina B6 devido aos efeitos dos contraceptivos orais no metabolismo da vitamina B6", enquanto a deficiência de vitamina B12 é mais comum nos idosos, disse Dra. Carol, que não participou do estudo.

A população do estudo em tela foi formada primariamente por mulheres jovens, e a interpretação dos dados é "limitada" porque os pesquisadores não mediram os níveis séricos de B6 e B12, observou Dra. Carol. É possível que a amostra tenha sido baixa em B6 e que os suplementos tenham "melhorado medidas cognitivas".

Como a população era jovem – ninguém tinha mais de 60 anos – os níveis da vitamina B12 provavelmente eram "adequados na amostra, e a suplementação não teve repercussão", disse a comentarista.

De modo geral, advertiu Dra. Carol, é importante "alertar os médicos e o público sobre as questões da toxicidade da dose excessiva de vitamina B6". Por exemplo, a suplementação em altas quantidades pode causar neuropatia sensorial potencialmente irreversível, observou a médica.

"O limite superior seguro definido pelos especialistas é de 100 mg por dia – a dose utilizada neste ensaio clínico. A suplementação diária não deve ultrapassar esse nível", disse a comentarista.

Os comprimidos das vitaminas utilizadas no estudo foram fornecidos pela Innopure. Os pesquisadores e a comentarista informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

Hum Psychopharmacol. Publicado on-line em 19 de julho de 2022. Íntegra do artigo

Batya Swift Yasgur , MA, LSW, é escritora freelancer com um consultório de aconselhamento em Teaneck, NJ. Ela é colaboradora regular de várias publicações médicas, inclusive o Medscape e a WebMD, sendo autora de vários livros de saúde orientados para o consumidor, assim como do livro Behind the Burqa: Our Lives in Afghanistan and How We Escaped to Freedom (a memória de duas corajosas irmãs afegãs que lhe contaram a sua história).

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