Clube de Revistas de psiquiatria: julho de 2022

Dr. Sivan Mauer

Notificação

28 de julho de 2022

Neste artigo

Dr. Sivan Mauer

Nesta seção o psiquiatra Dr. Sivan Mauer seleciona e comenta estudos relevantes no campo da psiquiatria. O Dr. Mauer é especialista em transtornos do humor. Tem residência em psiquiatria da infância e adolescência e tem experiência em psicogeriatria. É mestre em pesquisa clínica pela Boston University School of Medicine e doutor em psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Além da prática privada exercida em São Paulo e Curitiba, o Dr. Mauer é clinical assistant professor na Tufts University School of Medicine, Boston (EUA).

1. Associação entre cyberbullying e suicidalidade no início da adolescência

A suicidalidade (ideação suicida ou tendência ao suicídio) entre crianças, adolescentes e adultos jovens é um importante problema de saúde pública, com o suicídio sendo a segunda maior causa de morte entre estadunidenses de 10 a 24 anos.

A etiologia da suicidalidade infantojuvenil não é totalmente compreendida, mas sabe-se que é influenciada por estressores ambientais distais e proximais, que são especialmente críticos durante a infância e a adolescência. Experiências de bullying e agressão de pares são os principais estressores e fatores de risco de suicídio estabelecidos para os jovens. A maioria do bullying contemporâneo é realizado on-line (ou seja, cyberbullying) usando recursos tecnológicos como smartphones e internet para o envio de mensagens de texto ou publicações nas redes sociais. Essa tendência aumentou devido às mudanças sociais atribuíveis à pandemia de covid-19. Em uma era de crescentes relacionamentos e interações on-line, bem como aumento da carga de saúde mental e suicídio entre jovens de 18 a 21 anos, mais dados em larga escala são necessários para esclarecer o papel do cyberbullying na suicidalidade de jovens.

Jovens envolvidos em cyberbullying apresentam maior psicopatologia e suicidalidade. O risco de suicidalidade é maior tanto para quem é alvo do cyberbullying quanto para quem o pratica (embora em menor grau), em comparação com jovens que não estão envolvidos em cyberbullying. A literatura é ambígua em relação ao envolvimento do cyberbullying como fator de risco de suicidalidade, independentemente de experiências ou perpetração de agressão de pares off-line e experiências de cyberbullying, alegando que o cyberbullying é um subtipo de agressão de pares off-line com efeitos distinguíveis limitados na saúde mental dos jovens.

Mais pesquisas são necessárias para melhor entender se as experiências de cyberbullying, bem como os diferentes papéis, estão associados com a suicidalidade, além de outros fatores de risco. Esses dados são fundamentais para a prevenção da suicidalidade entre jovens, especialmente na era pós-covid-19, considerando o impacto da pandemia na saúde mental.

Para este estudo transversal, foram aproveitados dados de uma grande e diversificada amostra de crianças e adolescentes de 10 a 13 anos dos EUA proveniente do estudo Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD).Os objetivos foram os seguintes: (1) determinar a prevalência e a sobreposição de experiências de cyberbullying para alvos e perpetradores; (2) avaliar as associações específicas entre cyberbullying e suicidalidade, além de vários outros fatores de risco ambientais; (3) avaliar associação entre sofrer/praticar cyberbullying e suicidalidade, além da agressão de pares off-line (sendo experiências e perpetração).

Um total de 10.414 participantes foram incluídos neste estudo. A média de idade dos participantes era de 12 anos, e 4.962 (47,6%) eram do sexo feminino; 796 (7,6%) endossaram a suicidalidade. Um total de 930 (8,9%) relataram que sofriam cyberbullying e 96 (0,9%) admitiram que praticavam cyberbullying. Dos perpetradores, 66 (69,0%) também endossaram a experiência de cyberbullying.

Controlando para dados demográficos, sofrer cyberbullying foi associado a aumento da suicidalidade (razão de chances [RC] de 4,2; intervalo de confiança [IC] de 95% de 3,5 a 5,1), mas praticar cyberbullying não. A experiência de cyberbullying permaneceu associada à tendência a suicidalidade ao contabilizar para eventos negativos da vida, conflitos familiares, monitoramento dos pais, ambiente escolar, questões raciais e discriminação étnica (RC de 2,5; IC 95% de 2,0 a 3,0). E quando covariando para psicopatologia internalizante e externalizante (RC de 1,8; IC 95% de 1,4 a 2,4).

Para lembrar:

Este estudo mostra que ser vítima de cyberbullying, mas não praticar cyberbullying, está associado a suicidalidade no início da adolescência. Essa associação foi significativa além de outros fatores de risco de suicidalidade, incluindo experiências de agressão off-line por parte de colegas ou praticar cyberbullying. Esses achados podem ajudar em estratégias de prevenção ao suicídio entre adolescentes, e sugerem que os médicos e a equipe educacional que trabalham com essa população devem avaliar rotineiramente a experiência de adolescentes com cyberbullying.

Referência:
Arnon, S. et al. Association of cyberbullying experiences and perpetrationwith Suicidality in Early Adolescence. JAMA Netw. Open In Press, 1–14 (2022).

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