Covid-19: Um tratamento para facilitar a recuperação do olfato

Elena Riboldi

Notificação

28 de julho de 2022

Em dois ensaios clínicos publicados na última edição do periódico JAMA Otolaryngology – Head & Neck Surgery, o uso da teofilina, acrescentada ao soro fisiológico usado para fazer irrigação nasal, foi testado para o tratamento da hiposmia ou anosmia que acomete alguns dos pacientes que contraem a infecção pelo SARS-CoV-2. A teofilina, um inibidor da fosfodiesterase, atuaria promovendo sinais neuro-olfatórios. Os pacientes que participaram dos estudos referiram ter se beneficiado do tratamento.

O grupo de pesquisadores da Washington University School of Medicine, St. Louis, nos Estados Unidos, que conduziu os dois ensaios, já havia publicado há alguns meses no American Journal of Otolaryngology os resultados do estudo randomizado SCENT, no qual não foram observadas diferenças clínicas significativas na capacidade olfativa entre o grupo de participantes designados para o tratamento com teofilina e o dos participantes designados para o placebo, embora no primeiro grupo tenha sido observada melhora da qualidade de vida relacionada com o olfato.

Na correspondência de pesquisa publicada no periódico JAMA Otolaryngology – Head & Neck Surgery, os pesquisadores explicaram que os resultados do estudo SCENT podem ter sido decorrentes de uma subdosagem da teofilina. Para isto fizeram um estudo de escalonamento da dose no qual os pacientes fizeram duas irrigações nasais diárias com 400 mg de teofilina no soro fisiológico, em vez dos 12 mg usados no estudo original. Dos dez pacientes tratados com 400 mg, apenas um se queixou de eventos adversos sustentados, mas não graves (p. ex., convulsões, episódio de arritmia). Quatro pacientes referiram melhora do olfato e dois informaram uma melhora clinicamente significativa no teste UPSIT (University of Pennsylvania Smell Identification Test), um teste de identificação de odor baseado em 40 perguntas.

Com base nessas indicações, os pesquisadores fizeram outro estudo de fase dois, o estudo SCENT2, que recrutou 51 pacientes apresentando persistência dos distúrbios olfatórios após 3 a 12 meses da infecção pelo SARS-CoV-2. Os participantes foram randomizados em dois grupos, um designado para irrigação por teofilina (400 mg) e outro para lactose em pó (500 mg) para serem dissolvidas no soro fisiológico. As irrigações tiveram de ser feitas duas vezes por dia, de manhã e à noite, durante seis semanas.

Ao final do tratamento, o percentual de participantes que referiu pelo menos uma ligeira melhora na escala Clinical Global Impression-Improvement (uma medida da gravidade dos sintomas) foi maior no grupo teofilina do que no grupo controle (59% versus 43%). A diferença na pontuação UPSIT, no entanto, não foi estatisticamente significativa entre os grupos, embora a diferença no percentual dos que responderam tenha favorecido a teofilina. Os autores concluíram que seu estudo "sugere que o benefício clínico das irrigações nasais com teofilina para os participantes com disfunção olfativa relacionada com a covid-19 é inconclusivo, como sugerido por avaliações subjetivas".

No comentário que acompanha os dois estudos, surge uma pergunta interessante: "Devemos nos perguntar, se o paciente tem melhora subjetiva do olfato e do paladar e sua qualidade de vida melhora, qual é o benefício adicional dos testes objetivos? E como devemos interpretar os resultados em que os resultados subjetivos e objetivos estão em conflito, uma resposta muito comum na pesquisa rinológica?". As perguntas estão em aberto.

Principais mensagens

  • Irrigações nasais com soro fisiológico contendo teofilina poderiam favorecer a recuperação do olfato nos pacientes com hiposmia ou anosmia após infecção por SARS-CoV-2.

  • Embora os dados de eficácia da medição objetiva da função olfativa sejam inconclusivos até o momento, a avaliação subjetiva dos pacientes sugere benefício do tratamento.

Referências

  • Lee JJ, Gupta S, et al. Safety of high-dose nasal theophylline irrigation in the treatment of postviral olfactory dysfunction: a dose-escalation study. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2022 Jul 7. doi:10.1001/jamaoto.2022.1574

  • Gupta S, Lee JJ, et al. Efficacy and safety of saline nasal irrigation plus theophylline for treatment of COVID-19–related olfactory dysfunction - The SCENT2 Phase 2 Randomized Clinical Trial. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2022 Jul 7. doi:10.1001/jamaoto.2022.1573

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