COMENTÁRIO

Como a covid-19 e o combate à pandemia influenciaram os padrões de transmissão de outros vírus respiratórios

25 de julho de 2022

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

A pandemia de covid-19 e a imposição de medidas não farmacológicas, como isolamento social e utilização de máscaras, impactaram na transmissão de outros vírus respiratórios.

Classicamente, os vírus respiratórios atingem com mais intensidade faixas etárias específicas, o que gera maior preocupação com determinadas parcelas da população, como a de crianças. Sabemos que no ambiente escolar existe uma grande circulação de vírus respiratórios durante períodos sazonais e, de alguma forma, essas instituições funcionam como amplificadoras da transmissão viral.

O inverno tem a característica particular de elevar a demanda por atendimento médico nas emergências pediátricas em decorrência das doenças respiratórias causadas por diferentes agentes, sobretudo por adenovírus, influenza e rinovírus.

As intervenções para controlar a covid-19 impactaram na circulação da maioria dos vírus respiratórios, inclusive do vírus sincicial respiratório (VSR). É importante entender que, por conta das intervenções não farmacológicas e da redução na diversidade genética, a sazonalidade da transmissão de outros vírus respiratórios também pode mudar. No inverno de 2020 na Austrália e nos Estados Unidos, foi evidenciada a diminuição das infecções respiratórias e das epidemias generalizadas de VSR sem precedentes ao longo do ano, com uma redução importante da diversidade genética. [1,2]

É importante entender que, por conta das intervenções não farmacológicas e da redução na diversidade genética, a sazonalidade da transmissão de outros vírus respiratórios também pode mudar.

No Brasil, não foi diferente. Em 2020, não tivemos epidemias significativas de outros vírus além do SARS-CoV-2, e no início de 2022, houve um aumento expressivo nas internações de crianças de 0 a 4 anos, associado ao aumento da circulação dos vírus respiratórios. Além disso, tivemos uma circulação importante de influenza A (H3N2) em dezembro e janeiro (fora do período sazonal), principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país.

De acordo com os dados do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP/Gripe), os principais agentes virais identificados em crianças internadas em 2022 que testaram positivo para vírus respiratório foram SARS-CoV-2, VSR e influenza. [3,4] Entretanto, não temos os dados de sequenciamento para entender se houve uma redução na diversidade genética.

Assim como na Austrália, o número de internações realizadas em 2022 foi muito superior ao nas epidemias pré-pandêmicas. Uma das possíveis explicações para isso é o aumento de suscetíveis, mais conhecido como “apagão imunológico”. Com a imposição de intervenções não farmacológicas e o fechamento das escolas, muitas crianças não tiveram infecções respiratórias de etiologia viral em 2020 e 2021, e agora, com retorno das atividades e o aumento da transmissão dos diferentes vírus, há essa explosão de casos e internações, justamente em função do aumento de suscetíveis.

É importante salientar que outras doenças imunopreveníveis podem apresentar esse mesmo padrão. Podemos, a partir de agora, com o retorno das atividades presenciais sem medidas protetivas, observar um aumento expressivo nos casos de varicela (catapora), rotavírus e sarampo. Principalmente neste momento, com a queda expressiva na cobertura vacinal de crianças, algo que já vinha ocorrendo desde 2015 e se agravou nos últimos dois anos de pandemia. Dessa forma, é essencial um esforço das famílias, dos serviços de saúde e do governo, com o objetivo de aumentar as coberturas vacinais da população pediátrica.

A pandemia foi importante para nos mostrar que talvez o comportamento humano tenha um papel muito mais importante do que o clima na ocorrência de epidemias, e o aumento de suscetíveis pode pressionar enormemente os serviços de saúde nos próximos meses ou anos.

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